terça-feira, janeiro 27, 2009

The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford

Ainda não encontrei ninguém que tivesse tão boa opinião sobre o filme quanto a minha. Sei que há quem nutra a mesma ou ainda maior admiração por este, mas temo-os escondidos com medo de se revelarem.
As opiniões que encontro ficam-se pelo mau e o medíocre. E não percebo porquê. É verdade que não tem toda a acção de Mission Impossible: III, ou todo o humor do Family Guy, ou ainda o enredo encruzilhado de Pulp Fiction, mas a verdade é que o tenho como um filme brilhante no que toca à conjugação de estética e enredo. Sinceramente, vejo-o como um filme incólume, sem erros a apontar. Desde a perfeição técnica (montagem esplêndida, e nada de boom mikes ou crew visíveis) à total coerência do enredo e decorrer deste, acredito mesmo que este filme não deve ter uma única goof a apontar no IMDB (mas não vou ver, porque conheço a minúcia critica do meio).
Mas como a perfeição técnica nunca fez de nenhum filme uma obra sublime, este filme conta com algo de ainda mais arrebatador. A história de Jesse James e Robert Ford, apesar de falaciosa, é exposta com singular paixão e através de memoráveis prestações, tanto por parte de Brad Pitt como Casey Affleck. Conta também com uma total harmonia entre enredo, cenário e fotografia. É uma história melancólica, num cenário melancólico, com uma fotografia melancólica. Julgo ser esta a melhor definição para este Triunvirato de bom gosto.
Um amigo descreveu-o como “um filme de duas horas e meia que conta uma história que podia ser contada em vinte minutos”, outro como “um tédio de duas horas, que quando parece terminar ainda se arrasta por outros trinta minutos”, e um irmão acusou-me de “o ter feito desperdiçar horas do seu precioso tempo”. E mais uma vez, não percebo porquê. Ou se calhar até percebo…
O filme passa muitas vezes por promessa de pura acção, pois toda a ideia de assassinato cobarde leva-nos por todo um imaginário de planos engenhosos de traição, com muitos disparos e explosões de fogo e metal à mistura. Pois tal não acontece neste filme, de todo, o que muitas vezes se pode revelar algo frustrante e vexante.
A verdade é que este filme segue os passos de dois homens singulares e a sua relação, relação essa num limbo entre a amizade e o ódio. Para mal dos meus pecados, tratarei de fazer uma analogia que temo escandalosa e pouco consensual. Revejo a relação de Jesse James e Robert Ford na relação de Jesus e Judas, na adaptação do tema por Martin Scorsese, em 1988. Neste, e se bem me recordo, é Jesus quem objectivamente convence e incita Judas a trai-lo, tendo como objectivo deste fim macabro o realizar de velhas profecias, o Reino de Paz e a glória futura. No caso de Jesse James e Robert Ford, o panorama é muito idêntico. Jesse, herói e benfeitor para uns, némesis e grande meliante para o poder estabelecido, encontra-se numa encruzilhada existencial. Doente e sem amigos, sente o cerco apertar-se, e encontra em Robert Ford, seu admirador e seguidor, seu amigo e seu inimigo, a libertação. È indiscutível que Jesse sabia que Ford o ia assassinar, e ainda assim se entregou a esse triste fim, que inesperadamente lhe trouxe glória infinita (ainda hoje é uma lenda orgulhosa no sul dos EUA) e muitos seguidores (desde então milhares de crianças foram baptizadas com seu nome, em sua honra).
Devo já advertir que a lenda de Jesse James é, hoje em dia, tida como imprecisa e falaciosa. Ele nunca foi um Robin dos Bosques do velho Oeste, tão pouco um benfeitor em prol da comunidade. Foi sim um ladrão egoista e um assassino, que apenas por razões politicas atingiu o status que ainda hoje lhe é conferido. O filme não envereda nesta viciada adaptação da verdade, a não ser no título, algo desajustado. De resto, nunca é Jesse James interpretado como um herói e benfeitor.
Concluindo, acho que este filme tem tudo para mais tarde ser recordado como uma das melhores obras da primeira década do Século XXI. Sem dúvida. Desde as fabulosas interpretações, com especial relevo para as duas personagens principais (sim, porque a meu ver, é Robert Ford a personagem principal), à maravilhosa fotografia muito ao estilo das obras de Terrence Malick, todo o filme ficou gravado na minha memória com um must-see para os meus filhos.

3 comentários:

Francisco disse...

Depois de tantos pedidos infrutíferos, e sabendo pois que o altruísmo não abunda neste blogue, especialmente entre directores, vou fazer na mesma a pergunta de sempre:
Emprestas-me?
:)

Guilherme Silva disse...

Ta emprestado, mas assim que devolvam... :)

Daniela Ramalho disse...

bom, já me tinhas convencido a vê-lo... mas agora fiquei ainda mais. portanto, quando ganhar coragem, verei xD