quinta-feira, março 22, 2007

The wind that shakes the barley

















The wind that shakes the ba
rley é o mais recente filme de Ken Loach, realizador britânico, nascido a 17 de Junho de 1936, vindo na linha das suas obras anteriores e assinado com o seu traço controverso de agitador de consciências. Loach, que tomou contacto com o mundo do espectáculo actuando no grupo de teatro da faculdade quando estudava Direito em Oxford, é um herdeiro do realismo social. Os anos 60, berço da sua vocação, consubstanciaram o ambiente propício à realização de programas que criticavam as injustiças sociais e é esse inconformismo que se torna a sua assinatura indistinta em toda a obra posterior, ainda que esta postura polémica lhe tenha praticamente paralisado a carreira durante uma década. Ao realismo foi beber a necessidade de conferir autenticidade às películas, socorrendo-se de recursos como a luz natural nas filmagens, o respeito por pronúncias e dialectos, a incorporação de dados estatísticos e imagens históricas, bem como todos os pormenores que tornam o filme credível às sensibilidades mais apuradas. Assim, os actores que desempenham papéis de irlandeses são oriundos da região de Cork, onde se desenrola a acção, e os actores que representam os soldados ingleses pertenceram – todos, sem excepção – ao exército britânico, tendo sido advertidos para usarem estritamente da agressividade exercida no contexto retratado. A fantasia tem um papel pouco preponderante no que se pretende ser um espelho de realidades amargas. O que Loach ambiciona é arrepiar a pele das audiências, chocá-las, mas não há gratuitidade na violência e no horror. A crítica que, sem pudor ou subtileza, vem escrita nos gestos e nos olhares que compõem este filme tem um sentido pedagógico: que se aprenda com o passado para que os mesmos erros não se cometam no presente. Embora o filme tenha sido laureado com a Palma de Ouro em Cannes, não foi bem recebido em Inglaterra, onde se levantaram vozes contra este britânico que não encobre as manchas na história do seu país. A realçar é o desempenho de Cillian Murphy, que já viramos o ano passado em Breakfast on Pluto, tendo participado anteriormente em filmes conhecidos do grande público, tais como Cold Mountain e Girl with a pearl earring. Mas foi 2005 o ano em que se notabilizou, chamando a atenção em Batman Begins e Red Eye. The wind that shakes the barley é o segundo filme histórico de Ken Loach, depois de Land and Freedom (1995), que se debruça sobre a guerra civil espanhola. Embora a guerra irlandesa pela independência já tivesse sido abordada pelo realizador em Hidden Agenda (1990), só em 2006 Loach abraça este fantasma. A canção tradicional irlandesa, de Robert Dwyer Joyce, que empresta o nome ao filme deixa antever o grito de revolta que é esta história feita de pessoas vulgares. Sabe a pó, a medo, ao fervilhar da revolta no sangue. É só ao que pode saber uma luta pela independência e ao cansaço de um caminho que a Irlanda vem trilhando desde sempre. É a história da guerra de Damien e Teddy O’Donnovan que, em 1920, vêem o governo britânico trair a escolha democrática irlandesa, mantendo o domínio sobre o país, embora este tivesse sido proclamado independente pelo governo de 1919, emerso da vitória do Sinn Féin nas eleições de 1918. É a história de todas as guerras que continuam a devastar vidas. Tendo como pano de fundo o testemunho histórico, o filme é uma narrativa sobre pessoas reais e os sentimentos que as movem. Despretensiosamente, prova-se o sabor dessa empatia que liga o realizador britânico a todos aqueles que não se acomodam às injustiças que sofrem. Loach procura rigorosamente a verdade e depura-a de todos os efeitos técnicos que nos poderiam afastar da única linguagem universal: os sentimentos. As personagens moldam-se aos acontecimentos e é nelas que habita o carisma do filme, na sua própria mudança, numa espécie de vulnerabilidade que, de tão humana, nos faz acreditar estarmos a espiar os momentos que pertenceram a outrem. Ken Loach é um romântico, desiludido com o poder do amor, desapaixonado por ideais que são traídos. Esta história sobre dois irmãos, envolvidos numa guerra que não tem heróis, transborda o seu tempo e o seu espaço e toca cada um de nós.

texto crítico de Samanta Dinis . Cineclube da Faculdade de Direito Up

3 comentários:

joaquim.guilherme disse...

Excelente texto, Samanta. Fico contente com este resultado, principalmente pelo facto teres tirado, ao que me parece, prazer neste exercício. Se puderes, não pares de escrever sobre cinema. É interessante verificar que em cada "crítica" conseguimos ir mais longe no sentido do filme e mesmo ao nível da análise técnica. Por outro lado, parece-me que quanto mais desenvolvemos a capacidade crítica de um filme, mais interessante se torna o nosso posicionamente numa sala de cinema.
Obrigado por este óptimo contributo.

S. disse...

Também a mim me cabe agradecer ao cineclube o convite que me abriu as portas para o fabuloso mundo do cinema. Se já me via horas perdida (ou deveria dizer encontrada?) em clubes de vídeo e salas de cinema, esta iniciativa deixou-me completamente viciada. E diria mais. Angustiada. Por não ter tempo para mergulhar no mundo que pulula em cada filme. Vocês indicaram-me uma visita guiada para além do óbvio, pelos meandros dos símbolos, da história, que constroem cada imagem para que ela possa ser absorvida num único momento como se fosse assim, simples. Mudei, sem dúvida, a minha maneira estar e ser. Espectadora.

Obrigada.

Anónimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu