terça-feira, abril 12, 2011

Faces

John Cassavetes, 1968 Crítica: Rita Carvalho

Faces é um filme sobre pessoas, sem qualquer outra soma para além daquela que realmente existe, que realmente é. Sem açúcar ou adoçante, ou talvez, corrijo, um pouco do primeiro, que sabe melhor! Mas logo passa.


Aqui as personagens vão ganhando intensidade de forma gradativa, pelo que a sua profundidade emocional vai aumentando até nada mais sobrar. Vão-nos revelando mais e mais pormenores e também em nós, com o escorrer do tempo, as sensações vão-se agravando, até que por fim nada mais sobra.


Inicialmente eles surgem alegres, sob efeito do álcool, é certo, mas alcoolicamente alegres. Piadas ridículas, danças burlescas. Falam alto, mostram a sua virilidade junto da fêmea, são festivos. Nós, que observamos, ficamos confusos, mas simultaneamente alegres. Rimo-nos do absurdo, do disparate, incapazes de antecipar o que lhes faz despertar tais vontades. Ainda assim rimo-nos. Tudo é riso. Eles gargalham, nós também.


Rapidamente um sopro de seriedade e sobriedade - ainda que culpem o álcool, acredito que apenas nestes momentos se encontram efectivamente conscientes da sua condição e, portanto, sóbrios - atinge-os. Tornam-se rudes, exibem os seus cargos como forma de afirmação, berram de forma desenfreada. Maltratam as mulheres, as companheiras, as amantes. Proferem insultos ou são insultuosos. Pedem o divórcio. Nós estamos perturbados. Apercebemo-nos progressivamente do, outrora implícito, agora explícito, vazio destes homens. E temos pena. Até quando tentaste seduzir Jeannie, tu Richard, com essas danças e gargalhadas loucas, não procuravas uma fuga?


A princípio elas irrompem calmas na tela. Fingem estar tudo bem. Bocejam tranquilidade e riem meio escondidas atrás da mão. Saem para se divertir. Subitamente parecem despertar para a música, ou alguém as desperta. E nós vemos novamente a necessidade que se nos surgiu anteriormente. A necessidade de dançar, de rir, de amarrar impacientemente o jovem de vinte anos e de suar desejos, de encenar a felicidade que não mais existe nestes casamentos que se mantêm apenas porque sim.


Sabes, são elas, não são? Essas danças que tu dizes que acertam onde a ciência falhou, são elas que te revitalizam e que te vão permitindo continuar, não são? Apodreceste, deixaste-te ser levada pela vida fácil e segura, não arriscaste, preferiste ser conformista e habituaste-te aos hábitos, e agora? Agora o tempo não foi brando contigo e sobram-te as danças acompanhadas de bom e muito licor, para que possas continuar, no dia seguinte, com a tua vida banal.


E tu, linda Maria, que esperas o teu marido paciente e obedientemente para lhe preparar um whisky com um sorriso na cara? Quando quebras, chegas ao mais fundo de ti e não suportas aquilo em que te transformaste. E nós temos pena. E nada mais vos resta, já nem os murmúrios das boas memórias, Maria e Richard, para além de acender sucessivos cigarros nas escadas sem trocar uma única palavra. Porque afinal, quando nada resta, nada se consegue dizer. E nós sentimos um vazio.


É desta forma que as personagens se vão intensificando na tela, onde nos surgem os seus rostos bem focados - já por isso o filme se chama Faces - cada vez mais clarividentes, que nos elucidam sobre a condição oca, desabitada de qualquer possibilidade de felicidade. E seguem-se assim, tal qual como são, perturbadores e inseguros, mas acima de tudo, eles próprios, sem nada mais a acrescentar.

1 comentário:

Ana J Sousa disse...

Porque afinal, quando nada resta, nada se consegue dizer.