terça-feira, dezembro 09, 2008

O cowboy (Joe) da meia-noite.

Filme disponível na Biblioteca da FDUP

Quando o simples visionamento de um filme nos perturba, deixa ensimesmados, deprimidos e, até, de certa maneira, tristes, já temos mais do que o necessário para poder dizer que a obra nos marcou. Não será isso, para além daquela imediata finalidade de “passar um bom bocado”, que procuramos no cinema?

“Midnight Cowboy”. Ou, para quem preferir o título da versão portuguesa, “O cowboy da meia-noite”. O filme marca porque nos abre um vasto leque de perguntas. Se às mesmas sabemos ou não responder é outro problema. O autor destas linhas, que é o Tiago Ramalho, plasma em escrito que não sabe. E por isso está perturbado, ensimesmado, deprimido e, até, de certa maneira, suponho que mesmo o mais despistado dos leitores adivinha a palavra que se seguirá, triste.

Irei relembrar a história para aqueles que a já não recordam. Aos que ainda não viram o filme, salvo se tiverem uma firme aversão à surpresa, recomendo que primeiro o vejam e depois leiam.

Vejamos então, sucintamente: um jovem, de nome Joe, larga o seu pequeno mundo no Texas, onde era lavador de pratos, e parte para Nova Iorque. Projecto: acreditando na sua anacrónica imagem de cowboy, tem em mente viver como prostituto de senhoras que possam pagar os seus serviços, e tudo correrá pelo melhor. Já Ratso é um ladrão de vão de escada. Apesar de estatisticamente poder não ser um sem abrigo, é um pobre coitado que vive num prédio devoluto. Ambos, não obstante alguns pequenos problemas iniciais, acabam por ser o sustentáculo um do outro, vivendo Joe na casa de Ratso. Naturalmente que Joe não foi bem sucedido no seu ofício, pois de outra forma não viveria em tão precárias condições. De facto, em vez de grandes senhoras, aquele que, segundo palavras próprias, não é um verdadeiro cowboy, mas um bom garanhão, acaba por ou não trabalhar ou fazer apenas serviços homossexuais, o que abala o seu sentido estético e, porque não dizê-lo, a masculinidade que faz questão em ostentar. Creio que com isto um quadro geral fica traçado.

O em todo este filme mais parece perturbar é a turbulência das relações humanas: parece ser inegável a forte relação de amor entre Joe e Ratso, esses dois homens sós perdidos na grande metrópole. Mas que amor é esse? Que estranha relação cultivam os dois sujeitos? É curioso como Ratso, ao ver Joe chegar a casa com dinheiro, depois da primeira (que vem a ser única) noite de serviços sexuais remunerados o ataca com violência. Qual a causa dessa hostilidade que leva um homem a violentar o outro – o único – que se preocupa consigo? São dois homens perdidos, duas torres em queda que se apoiam uma na outra num muito frágil equilíbrio. E é uma relação tão forte que leva Joe a cometer um crime (ele que, aparentemente, tanta aversão a tal tinha) para poder levar Ratso à Florida, essa terra com que tanto sonhava, em que nunca chega a pôr os pés mas apenas a depositar o olhar (e a vestir uma camisa com uma palmeira). Pergunto-me então, de novo, sobre que força tão grande é essa que leva aqueles homens a suportarem-se um ao outro. Talvez uma qualquer que transcenda os nossos quadros de compreensão, que só pode ser sentida por homens assim tão sós, tão carentes de uma palavra singela, de um sorriso, ainda que amargurado, ou, tão-somente, de uma sombra pela casa que os lembre que não estão sós no mundo.

Também não consigo deixar de me perguntar sobre qual o valor do sonho: valerá a pena persegui-lo? Aquele rapaz ingénuo, firme na sua inocência, que parte para um espaço que não conhece acreditando no seu visual à John Wayne, que acredita nessa sua ilusão até ao momento em que, abandonando nova Iorque, depara consigo mesmo e, tão somente, não gosta. Basta comparar uma das cenas iniciais em que, ainda na pequena vilória do Texas, garbosamente se arranja para sair de casa, com aquele em que, na viagem para a Florida e depois de comprar um novo vestuário, deita todos os seus velhos pertences ao lixo. Talvez aí morra o Cowboy da Meia Noite do Texas e nasça um novo Joe de Nova Iorque. Há um desconsolo enorme em ver a figura de Joe destruir-se ao longo de todo o filme e, nesse momento em que “volta a si”, vê-lo a ver morrer o seu camarada de vida.

As interpretações dos dois principais actores são notáveis: John Voight tem um ar incrivelmente inocente ao longo de todo o filme; Dustin Hoffman parece um verdadeiro rufia. Comparar esta sua interpretação com a que realiza em “The Graduate” revela toda a sua qualidade. Será mesmo o mesmo, passe a redundância?

Comecei por dizer que este filme abre bastantes perguntas. Abre perguntas e com ela nasce alguma dor. Mas tudo isso dentro da grande felicidade de ver uma grande obra e de efectuarmos uma viagem a uma outra realidade pela câmara de um realizador.

Não classifico filmes com estrelas mas com palavras. Sobre este digo que é perturbante, às vezes doloroso, e que tem brilhantes interpretações. Ah…e recomendo a qualquer um.
*post rectificado perante a correcção da Maria João. Sobre o nome "Ratso" recomenda-se o dito comentário, da mesma menina, senhora, mulher.

4 comentários:

Guilherme Silva disse...

Muita bem rapaz.
Até já me apetece vê-lo de novo, desta vez com condições... :D

MJ disse...

É verdade. Um belo filme, um retrato comovente, e uma crítica brilhante Tiago ;)

Só uma pequena correcção - o nome da personagem do Dustin Hoffman é Enrique Salvatore Rizzo, ou como Joe o chama, "Ratso" ou "Razzo" (dependendo de como escreveres) para fazer um jogo de palavras entre o apelido dele e a palavra "ratazana".

Beijo

Tiago Ramalho disse...

Tens toda a razão Maria João. Já vou corrigir. Eu é que escrevi de cabeça e, confesso, já estava meio confundido com o raio do nome:P da mesma forma, ia escrever John Vaugnh e chamar ao The Graduate "o naufrago". C'est moi. Confundo-me:P

日月神教-向左使 disse...

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