segunda-feira, maio 21, 2007

O FILME


A APRESENTAÇÃO

Tarantino é um realizador, no mínimo, controverso. Para uns é excelente, para outros é mais um no universo do cinema. Uma coisa é certa, até se ver este filme, ninguém consegue avaliar correctamente a sua obra.

Ele escreve, realiza e actua neste filme, onde se incluem Harvey Keitel (que ajudou a financiar o filme), Michael Madsen, Steve Buscemi, Tim Roth, entre outros.

Basicamente temos um filme com um punhado de personagens, gangsters, cenários que se contam pelos dedos de uma mão e numerosos flashbacks que nos vão contando um dos assaltos mais famosos, e falhados, do cinema, num clima de tensão e violência incríveis e crescentes, com uma pequena pausa para respiração… até voltar de novo com mais força.

É um filme de culto, categorizado como extremamente violento, chegando a ser proibido por algum tempo no Reino Unido, com um pouco de humor negro que também está patente em Pulp Fiction, e de onde saíram algumas das frases mais famosas do cinema, aproveitadas inclusive para músicas, como Scooby Snacks dos Fun Lovin’ Criminals, e numerosas referências em outros filmes. É ainda deliciosa, e sinistra, a banda sonora escolhida pelo realizador, que nos alegra e perturba ao mesmo tempo, dado a intensidade das imagens.

Algumas curiosidades apenas:

- O orçamento deste filme foi tão baixo que a maioria dos actores usa o seu próprio guarda-roupa, como Christopher Penn e Steve Buscemi, e a estilista ofereceu os fatos usados no assalto por ser fã do género de filme.

- Madonna é mencionada no filme e acabou por oferecer a Tarantino uma cópia de um álbum seu, com uma dedicatória... no mínimo especial.

- Paramédicos estiveram presentes nas gravações para assegurar a veracidade dos ferimentos de armas.

- A certa altura voa um balão no ecrã, que é dado pelo realizador como uma coincidência mas que evidencia a resposta da grande questão do filme.

- O rascunho do guião foi escrito em pouco mais de 3 semanas.

Finalizando, é um filme surpreendente cheio de pormenores incríveis escondidos, onde praticamente tudo é pensado e tem uma finalidade. As cenas criam um nó no estômago dos espectadores, em tensão todo o filme presos a uma das mais incríveis histórias de gangsters modernos, e implacáveis.

9 comentários:

nuno.sa disse...

Só um traço habitualmente taraninesco que salta logo à vista aqui, a imitação (não confundir com homenagem)...
a primeira frase do trailer é do Scarface de 1983 do Brian de Palma (argumento Oliver Stone) e é dita pelo Al Pacino: Every dog has it's day.

Vi o filme pelo menos há 10 anos e gostei assim-assim. Hoje vou vê-lo de novo e depois digo o que achei.. Esto curioso para ver a apresentação!! ehehehe

reinaldo correia disse...

Caro Nuno, não querendo defender demasiado o Tarantino, isso é mesmo propositado ao que me parece. Há outra frase (pelo menos) que é tirada de mais um filme, e faz-me crer que é propositado. «The line Mr. White says to Victor Vega, "If your shoot me in a dream you better wake up and apologize" is a take on James Cagney's line in Angels With Dirty Faces, "You slap me in a dream, you better wake up and apologize".»
De resto, estive a analisar melhor os detalhes do filme e os diálogos, e parece-me que há uma tentativa do realizador de criar uma grande semelhança entre o diálogo típico de um norte-americano e o filme. De facto, pelo que se percebe em entrevistas de rua, eles repetem as ideias várias vezes numa pequena frase, de forma diferente, habitualmente intercalada de 5 "ya know?" e 8 "fuck". Muitos estranham porque habituam-se ao cinema "mainstream" em que há preocupação de criar discursos mais coerentes, mesmo em personagens que supostamente são "low-life". Manda aí o teu bitaite sobre esta teoria ;)
Abraço!

nuno.sa disse...

Meu caro, como os pedidos de bitaites são irresistíveis :p eheheh:

sim, o discurso solto, "de rua" é uma marca dele, dá credibilidade a filmes sobre criminosos... não sou contra!!

alias, deixa-me já aproveitar para mandar uma cacetada a outro realizador dito excelente, o amigo Shyamalan. Há uma coisa que me irrita profundamente: todas as personagens nos filmes dele (é ele que os escreve) falam da mesma maneira, sejam míudos de 10 anos, trintões q são seguranças no estádio lá do sítio, padres, irmãos de padres que não fazem nada de jeito com a vida, etc... Falam todos como se fossem doutorados de Harvard ou Nobel de qq coisa. Discurso super-articulado, quase dito a sussurrar.
E eu até gostei mais ou menos do Unbreakable e do Signs (dele só não vi o da floresta e o da água)

Quanto ao imitador Tarantino, vale a pena fazer aqui o habitual copy-paste de uma entrevista dele na Empire, quando lhe perguntam se ele faz plágio:

"I steal from every single movie ever made. If people don't like that, then tough tills, don't go and see it, all right? I steal from everything. Great artists steal, they don't do homages."

Ele admite-o, pronto. Mas há coisas que convém revelar, porque a nossa cultura cinematográfica nem sempre permite saber estas coisas (a maioria dos filmes que ele assalta eu só conheço de nome, ou nem isso):

- Two scenes and a plot point were taken from Hong Kong director Ringo Lam's movie Long hu feng yun (1987), which stars 'Yun-Fat Chow' and 'Danny Lee' . Tarantino says it is one of his favorite films

- The black and white suit style worn in the film was taken from the 'John Woo' film Yinghung bunsik II (1987)

- The criminals in "The Taking of Pelham One Two Three" (1974) also used colors to identify each other anonymously.

- The screenplay, written by Tarantino, was partly inspired by Hong Kong director and York University film graduate Ringo Lam's 1987 Long hu feng yun (City on Fire), starring Chow Yun-Fat and Danny Lee. Reportedly one of Tarantino's favorite films, he borrowed several key plot points and scenes, though the styles, dialogue and stories are quite different. In particular, the "Mexican standoff" at the end of the film is similar to one that takes place in City on Fire, and both stories are told from the point of view of an undercover cop with conflicting loyalties.

Até a cena da orelha é gamada, só que não encontro o nome do filme original, confesso.

tudo isto é de fontes "legit" como o imdb e a wikipedia e o rotten tomatoes.

E assim, termino as minhas alegações... eheheheh mas pronto, há que admirar um tipo que trabalhava em lojas de vídeos e hoje tem a Palma de ouro em casa. ;)

Um abraço aos cineclubicos!!!

luísa disse...

estas pessoas... eu que vinha aqui dar os parabéns ao du pela apresentação... parou me o cérebro x)

nuno.sa disse...

Já tas a achincalhar? lolol gostei imenso da apresentação, aliás pedi um autografo ao reinaldo que carinhosamente me deu na região peitoral. foi belo, não viste? :ppppp

Joe disse...

Ó Nuno, diz-me lá uma coisa: o nosso querido Scorsese, depois de tanto e tanto grande filme, não teve que fazer um remake de um filme de Hong-Kong para finalmente conseguir levar para casa a estatueta? Isso não é copiar? Os Sopranos não copiam até mais não o registo Scorsese? O Gus von sandt não fez um remake plano por plano do Psycho? O Kanye West não gamou os violinos ao Curtis Mayfield? Os Franz Ferdinand não gamaram as guitarradas dos Gang os Four? Epá, agora não estou muito numa de teorizar, mas não vejo que o Reservoir Dogs (que tem honras de aparecer no banner da C-70... portanto não esperes um discurso imparcial!) copie mais do que muitos outros. A genialidade do homem é exactamente conseguir colar os cacos copiados e fazer uma coisa como eu nunca tinha visto. Ou lá achas que os chinocas que ele foi tinham um K-Billy super sounds of the 70's weekend e uma OST TÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO cool, conversas de 10 minutos sobre o sentido do like a virgin, discursos sobre gorjetas? ou que se lembraram de meter num filme o irmão de um personagem do filme seguinte?
Havemos de voltar a falar sobre isto... Abraços!

luísa disse...

na região peitoral? deus meus, que coisas hardcore para aqui vão.
btw... vocês vão todos andar à porrada? pode ser que o tarantino se interesse e até se lembre de realizar um filmezito :P

nuno.sa disse...

Pois é, caro Joe. Só que há uma diferença fundamental. remake não é copiar nem roubar... pois é meu caro. ao menos o De Palma imita Hitchcock, mas é assumidíssimo. o nosso amigo quentino vai é buscar ideias, enredos, personagens, objectos, etc. de filmes manhosos que ninguém conhece e ganha prémios e é considerado um super-génio do cinema que revolucionou isto tudo.
Se calhar isto é só mania minha, e eu sou do contra... eheheheh ;)

Lu, porrada não diria, mas uma comezaina com arroz de frango e vinhinho lá da quinta na mala do meu carro até ia :p

Joe disse...

Mas o Tarantino nunca escondeu que roubava ideias, frases e cenas de outros filmes! Mais, até diz de onde rouba, ainda que sejam filmes manhosos e desconhecidos do grande público ocidental, dando a conhecer coisas que de outra forma nunca voltariam a sair dos clubes-vídeo de Hong-Kong - ao menos não faz como os Chemical Brothers que copiam o êxito do ano passado :)
Lembro-me de uma entrevista à Uncut onde ele diz quais são os 10 "revenge movies" onde foi rapar ideias para o Kill Bill, e lá está o (hoje famoso) "Lady Snowblood", de que sacou 1 ou 2 cenas (já agora, a cena da orelha é gamada ao Django, um western-spaghetti do Sergio Corbucci, que eu só vi e arranjei por o Tarantino o referir). O que ele faz é tão assumido como um remake, no sentido de não esconder o jogo. Mas claro que é muito mais, na minha opinião e como já expliquei, porque conseguiu criar um estilo novo a partir de uma série de estereótipos de outros géneros, estilos, sensibilidades, cinematografias, ou o que quiseres, muito diferentes dos dele. Será impressão minha ou desde há décadas que isso tem sido o motor da cultura popular?
Mas claro, tens de me dar o desconto de quem é fã desde a 1ª hora.
Abraço