quinta-feira, junho 30, 2011

Ciclo "VERÃO", no Passos Manuel



Começa já hoje o ciclo "VERÃO", organizado pela Milímetro. Às 22h, no Passos Manuel.

30 JUNHO
Tempos de Verão (2008), Olivier Assayas.

14 JULHO
Almoço de 15 de Agosto (2008), Gianni di Gregorio.

21 JULHO
Aquele Querido Mês de Agosto (2008), Miguel Gomes.


Hoje, às 22h, é exibido o primeiro filme do ciclo - Tempos de Verão, de Olivier Assayas, o tão badalado realizador de Carlos.

domingo, junho 26, 2011

Dolores Haze

Lolita (1962), de Stanley Kubrick.

Ainda a Sharon Stone era uma menina...

sábado, junho 25, 2011

sem ponto de chegada



Viagem a Portugal é uma viagem que podia ser, em boa verdade, a qualquer país desenvolvido onde ainda subsistam tiques xenófobos e discriminatórios (das autoridades, note-se, porque da população subsistirão sempre). E ao dizer isto, já estou a avançar que o novo filme de Sérgio Tréfaut se acaba por anular a si mesmo, sem nervo nem rasgo.
Na realidade, a história - verídica - que sustenta Viagem a Portugal é uma história como outra qualquer, daquelas que tristemente continuam a assolar os países que se dizem "abertos" e "multiculturais": a desconfiança face ao outro, ao que nos é estranho, ou, sem eufemismos, uma história sobre o racismo e o preconceito em estado bruto. Daí o primeiro parágrafo e a pergunta que se coloca: porquê viagem a... Portugal? O que há no filme de Tréfaut que identifique concretamente o nosso país e suas idiossincracias? Somos assim tão diferentes, no que toca ao preconceito, dos alemães, dos espanhóis ou dos americanos?



Mas esta questão poderia ser omitida se Viagem a Portugal não falhasse em toda a linha no resto. Vamos às coisas boas, primeiro. O argumento (um ponto de partida cativante) alia-se a um tratamento de imagem de um preto e branco "científico", super higiénico, como que em comunhão com o espaço "incolor" de normatividade e burocracia da Autoridade (no caso, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de um aeroporto). Daí todo um ambiente muito "clean", mas simultanemente claustrofóbico e ameaçador (diria que há mesmo algo de orwelliano naqueles corredores e escritórios...).
Estas eram duas valias (uma narrativa, outra estética) que podiam fazer de Viagem a Portugal um exercício interessante. O problema está, depois, na franca monotonia em que o filme se arrasta: não só nos diálogos que nada acrescentam ao que já foi dito, mas também na brincadeira do campo/contracampo repetida sob a perspectiva de cada uma das personagens, mas que, de tão mecânica (são raríssimos os movimentos de câmara), se torna previsível e aborrecida ao fim de alguns minutos. Mas o pior de tudo está mesmo nos actores e nos diálogos, a que só escapa Maria de Medeiros. Isabel Ruth começa o filme muito bem, é certo, mas depois vai por ali fora sempre a descer. Isto para não falar de outras personagens, como a de José Wallenstein, perfeitamente inconsequentes. E depois há ainda uma série de diálogos confrangedores (são vários, a sério) e péssimos actores (não havia mesmo mais ninguém para vestir o papel de polícia?!), como só me lembro de ver em Mistérios de Lisboa (mas toda a gente disse maravilhas do filme, por isso mais vale estar calado).



Tudo somado, fica a sensação de uma oportunidade falhada em explorar um tema que é, por si só, estimulante (sobretudo quando estamos a falar um documentarista como é Tréfaut) e tão em voga nos dias de hoje (se calhar em demasia, e por isso o filme talvez não tenha o impacto que seria suposto ter...). Por isso, apetece dizer que a viagem de Tréfaut parece acabar por não chega a lado algum - não apenas no sentido literal (nunca saímos do mesmo espaço físico, o SEF) propriamente dito, mas também na medida em que o filme nada acrescenta ao seu tema de base (o preconceito), o qual é reconhecível imediatamente logo nos primeiros minutos do filme. Não saímos de onde partimos, e não ficamos mais ricos.

"Carlos"



Há um ponto de partida incontornável para qualquer crítica que se faça a propósito de Carlos, de Olivier Assayas: é o de que estamos perante um sub-produto da obra original, pensada para televisão e com a duração de 5 horas e meia. E ao contrário do que já li, penso ser essa uma circunstância que não deixa de ser perceptível na versão que nos chega ao cinema, mais concretamente na montagem de um filme em que demasiados momentos narrativos são intercalados pelo "apagão" total (raccords nem vê-los), técnica que muito dificilmente me parece ter aqui qualquer cunho estético, antes instrumento necessário para condensar o tempo da fita, o que a certa altura acaba por ser cansativo (porque monótono) para o espectador.
Isto não faz de Carlos um mau filme, muito pelo contrário, sem que no entanto as 2h45de filme não deixem de saber a pouco. Carlos é filme de acção, empolgante e nesse particular cumpre com mestria. Mas depois falta-lhe algo mais: falta densidade às personagens (algumas delas mesmo muito pouco trabalhadas) e falta também um maior aprofundamento político do contexto histórico em que o filme se move - a dada altura, Carlos tem tanto de político (e menos de sexual, com pena minha) como um Bond.
Mas para tudo isto pode existir uma decisiva razão que mude o caso de figura: as tais 5 horas que a versão original (feita em formato de série para televisão) possui e que merecem ser vistas (a cena do assalto à OPEP, uma hora inteirinha, deve estar fabulosa).




Curiosamente, ao contrário da crítica que Carlos, o original, teceu ao filme - de que este o descaracterizaria, por o retratar tão-só como um mercenário e sex-symbol, despido de convicções políticas e ideológicas -, creio que Assayas é sóbrio e justo com a personagem de Carlos. Não o pinta, em momento algum, como um "mercenário", mas sim como um jovem que, como tantos, ontem mais do que hoje, foi refém de símbolos e imaginários voluntaristas e utópicos. Nesse capítulo, e esta é a pedra de toque, essa abnegação utópica, porque presa a esses referentes-mito, criou nesses jovens - burgueses, em grande parte dos casos, como é sabido - uma projecção imediatista, pouco ou nada reflectida (este Carlos nem livrinhos de bolso do Lenine transporta consigo...), para lutar. A personagem de Carlos é, neste particular, um exemplo paradigmático desse estado das coisas - e por isso é que o seu "hasta la victoria siempre!" soa tão vazio e artificial, como um qualquer slogan da coca cola (coca cola e Marx, à Godard). Mas dizer (ou filmar) isto não é descaracterizar ou falsificar; é, na verdade, documentar e reflectir sobre uma época e uma certa forma de estar entre os jovens filiados na esquerda radical dessa Europa de então.



Como retrato histórico e bem dentro dos movimentos revolucionários de esquerda europeus que proliferavam nos anos 70, continuo a preferir O Complexo de Baader Meinhoff (2008), de Uli Edel (foto abaixo), ou até A Melhor Juventude (2003, Marco Tullio Giordana) e Bom Dia, Noite (2003, Marco Bellochio).

quinta-feira, junho 16, 2011

La Gran Vie



É provável que em 1963 a metáfora da vida como uma roleta russa fosse já cliché. Jacques Demy parece não se importar.

As fichas, os croupiers, os smokings, o casino de Monte Carlo, não falta nada. Ainda assim, a "Baía dos Anjos" está longe de ser um filme glamouroso, mesmo tendo a loiríssima Jeanne Moreau num dos papéis principais.

Pelo contrário, este é o retrato quotidiano de um vício em que a desilusão e o êxtase se alternam perpetuamente, ao sabor do acaso, da sorte, do destino, ou de algo mais (Jacqueline (Jeanne Moreau) perguntava-se a certa altura se não seria Deus quem escolhia os números da roleta).

No entanto, mantém-se a ilusão de que se controla a vontade e o futuro, num misto de ansiedade e insaciedade, até à chegada redentora do amor. Não é tudo isso a vida, afinal? "La gran vie", diria Jacqueline.


P.S. A banda sonora, mais uma vez, é soberba. Desta vez com Michel Legrand, em vez de Beethoven.


quarta-feira, junho 15, 2011

Demy, parte II



A Baía dos Anjos (1962), de Jacques Demy, hoje, às 22h, no Passos Manuel.

domingo, junho 12, 2011

quite a girl



Road to Nowhere (201o), Monte Hellman.

quinta-feira, junho 09, 2011

"Leap year"



Câmara de Ouro deste ano em Cannes: Leap year (2010), de Michael Rowe.

"A lonely Mexican woman with some major intimacy issues goes on a one-month sex spree in "Leap Year," Michael Rowe's raunchy and acutely minimalist study of urban alienation, romantic longing and bedroom practices no one should try at home. Set almost entirely inside a drab Mexico City apartment and filmed in a series of well-designed masters, pic evokes both Tsai Ming-liang's quiet studies of contempo gloom and Bruno Dumont's raw depictions of flesh-on-flesh, with a cleverly constructed story that pays off despite the bodily fluids. Semi-extreme content will attract distribs prepared to take a leap of faith".

Artigo completo aqui.

o casal em crise, anos 60






Por ordem:

Le Mépris (1963), Godard.

La Notte (1961), Antonioni (de quem também podiam estar aqui L'Avventura e L'Eclisse).

Faces (1968), Cassavetes.

sábado, junho 04, 2011

uma música vale mais do que mil imagens



Sinfonia n.º 7, de Beethoven.

(ou Lola, de Jacques Demy)

"noir"



The Man from London (2007), de Béla Tarr. Com Tilda Swinton.

sexta-feira, junho 03, 2011

beats, rhymes & life



Um dos documentários que mais deu que falar no Sundance Film Festival deste ano é sobre uma das minhas bandas predilectas.
Beats, Rhymes & Life: The Travels of a Tribe Called Quest é o nome do documentário realizado por Michael Rapaport sobre os A Tribe Called Quest, grupo lendário do hip-hop norte americano. Participações de Common, Pharrell Williams, Pete Rock, Beastie Boys, Jungle Brothers, De La Soul, ...
Ansioso por ver!

quinta-feira, junho 02, 2011

terça-feira, maio 31, 2011

A partir de hoje: "CINQ FOIS GODARD"



Começa hoje o ciclo "Cinq Fois Godard - anées 60", dedicado, como o nome indica, à filmografia dos anos 60 de Jean-Luc Godard - de quem, aliás, por aqui e ali se tem falado.
Todas as terças-feiras, às 22h, no Teatro Campo Alegre. Tão cedo não haverá oportunidade como esta, é aproveitar!

domingo, maio 29, 2011

isabel e catarina

Isabbele Huppert e Catherine Deneuve, "as duas, cada uma no seu género".

"Os dez anos que separam as suas idades (Deneuve nasceu em 1943, Huppert em 1953) sublinham o óbvio: são actrizes de gerações diferentes, que chegaram ao cinema em momentos diferentes, são, em suma, actrizes diferentes, na personalidade como no estilo, ou na escola, ou como se lhe quiser chamar. Aceitando que são, actualmente, as duas maiores "estrelas" do cinema francês, até no "estrelato" são diferentes: mais mundana, muito mais "à antiga", Deneuve; mais reservada e recatada, no modelo "famosa malgré elle même", Huppert. Parafraseando um célebre filme português, não há que opor uma à outra, apreciam-se as duas, cada uma no seu género. Pormenor importante, essa diferença de natureza não é impedimento a que, em dados momentos das respectivas carreiras, elas tenham sido parecidas".

Artigo completo aqui.

banksy

No início do ano passado, disse que queria ir ver este filme. Ano e meio depois, aí está ele em Portugal, contra as expectativas mais pessimistas.



(este beat é uma BOMBA!)

sábado, maio 28, 2011

rendez-vous



C'était un rendez-vous (1976), de Claude Lelouch.


PERCURSO:
Bd Périphérique (exits at Porte Dauphine) · Av Foch · Pl Charles-de-Gaulle · Av des Champs-Elysées · Pl de la Concorde · Quai des Tuileries · Pl du Carrousel · R de Rohan · Av de l'Opera · Pl de l'Opéra · Fromental Halévy · R de la Chausée d'Antin · Pl d'Estienne d'Orves · R Blanche · R Pigalle · Pl Pigalle · Bd de Clichy · (aborted turn at R Lepic) · R Caulaincourt · Av Junot · Pl Marcel Aymé · R Norvins · Pl du Tertre · R Ste-Eleuthère · R Azais · Pl du Parvis du Sacré Coeur.................

RENDEZ-VOUS.

quinta-feira, maio 26, 2011

uma pergunta

La Chinoise (1966), Jean-Luc Godard.

É certo que os tempos são diferentes. Que os voluntarismos e as utopias (ou falta delas) são outras.
Mas com tudo o que tem acontecido no Médio Oriente e na Europa - agora, sobretudo em Espanha, mas já antes, na Grécia -, será assim tão arriscado identificar um sublevantamento geral inconformista e - em que medida e até que ponto, são as questões - revolucionário?

Postas assim as coisas, a pergunta: que papel terá/está a ter o cinema neste momento no acompanhamento dessa erupção? Quem vai/está a filmar isso?

segunda-feira, maio 23, 2011

"L'ENFANT" (2005), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Tive a honra e o prazer de ser um dos oradores no debate de terça passada sobre o filme “L’Enfant”, inserido no ciclo “Justiça no Cinema”, promovido pela Associação Jurídica do Porto.
Na altura, escrevi, para o efeito, uma crítica ao filme, que agora deixo aqui. Por falta de tempo, não a retoquei, o que é pena porque do debate guardei (aprendi!) novas perspectivas sobre o filme.


Tudo começa, em L’Enfant, pelo título. Quem é, de facto, a criança neste filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne?

Ao contrário do que uma primeira leitura rápida do filme possa sugerir, a criança sobre quem a câmara dos franceses se centra é, afinal, Bruno (Jérémie Renier, o miúdo de La Promesse), o pai de um bebé recém-nascido, fruto da relação com a sua namorada Sónia (Déborah François). Na verdade, esse bebé - que nem “criança” pode ser ainda, em boa verdade... - é apenas o leitmotiv operador de um filme que confronta a passagem da juventude à idade adulta e a pré-suposta aquisição de qualidades que essa passagem, de acordo com a normalidade das coisas, impõe. Falo em “normalidade” e não é à toa; na verdade, em todo o filme, essa normalidade (composta por regras, rotinas, disciplina), própria da sociedade em que todos vivemos, está em permanente crise. O ambiente em todo o filme é esse mesmo: o de trangressão das regras, o qual se afirma, cruamente, no quotidiano de Bruno, um jovem dos subúrbios belgas que sobrevive de pequenos roubos e biscates que vai fazendo com a ajuda de uns cúmplices ainda mais novos que ele.


Bruno é o Peter Pan desses subúrbios cinzentos e desgarrados por onde circula, levando um estilo de vida avesso àquilo que a sua idade já faria supor: responsabilidade e maturidade. Até a sua própria fisionomia sugere isso mesmo: a face imberbe e com acne, os cabelos loiros, rebeldes, de criança contrastam a todo o tempo com o seu rosto adulto de traços duros. Mesmo quando confrontado com o nascimento do seu filho, Bruno parece nunca se aperceber bem do que isso significa – pense-se só como Bruno não o olha (não o ) uma única vez. Esse alheamento (ou fuga voluntária?) por completo ao mundo e às responsabilidades faz de Bruno uma criança-grande, alguém cujo corpo cresceu demasiado para o espírito infantil e despreocupado. Mas dizer isto é já dar por certo o facto de, na vida, obedecermos todos a um certo processo naturalístico cronológico: nascemos bebés, tornamo-nos crianças, depois jovens, mais tarde adultos. E é dar por certo, também, que de uma fase para outra nos vamos tornando cada vez mais responsáveis e maduros (ou pelo menos é isso que as pessoas esperam de nós). No fundo, cada vez mais… adultos. Ora, neste ponto (que aqui é “todo” o ponto), o filme dos irmãos Dardenne parece querer constituir uma espécie de resgate a essa normalidade das coisas, ou, visto de outra perspectiva, parece querer resguardar um certo lugar de liberdade e de sonho para os que não se acomodam às “regras do jogo”. Porque é que “tem” de ser assim? Porque não podemos ser crianças despreocupadas por mais algum tempo? Bruno não quer crescer e a câmara não faz juízos de valor – expressão máxima de um cinema simultaneamente perscrutador e tolerante com o indivíduo. Como toda a arte deve ser.


Esta recusa da “perda de inocência”, como que um grito contra o sistema, contra a ordem natural das coisas, faz com que vejamos Bruno e os seus pequenos cúmplices (um deles é mecânico, o que mais uma vez joga com a ideia de criança-adulto) como uma espécie de “excluídos” (ou esquecidos?) à margem da sociedade. Essa ideia é acentuada por um sem-número de pormenores, nomeadamente o lúgubre esconderijo ((faz lembrar a toca dos amigos de Peter Pan) junto ao rio onde se encontram, longe de tudo e de todos; o facto de, no registo civil (lugar de autoridade, burocracia, normatividade), Bruno e Sónia darem ao bebé o nome de “Nicolas”, mas cá fora (no “seu” mundo) o chamarem sempre de “Jimmy”; ou ainda pela impressiva tirada de Bruno que, quando confrontado por Sónia com uma proposta de emprego, dispara: “Trabalhar é para os cretinos”. A dita normalidade, a responsabilidade e tudo o mais são, portanto, para os “cretinos” – nisto reside a completa subversão dos termos com que estamos habituados a viver em sociedade.



Os cenários de ruas e estradas onde os carros passam a alta velocidade, em que grande parte do filme é rodado, só acentuam a sensação de precariedade e marginalidade em que vivem as personagens, como que se o mundo lhes passasse ao lado, muito rapidamente e sem dar por eles.
São pouquíssimas as filmagens em interiores e, quando as há, elas decorrem sempre em locais anónimos e de passagem e aonde as personagens não pertencem (o hospital, a esquadra da polícia, etc.), razão pela qual sai reforçada a ideia de serem as personagens, à sua maneira, uma espécie de “sem-abrigo”, desenraizadas e frágeis. Também o som, onde a captação do mais ínfimo ruído (conversas de rua, buzinões, motores, telemóveis, etc.) é uma constante, contribui para uma atmosfera de um anonimato generalizado em que as pessoas se encontram desconectadas umas das outras. E por aqui se vê o “realismo” que é comum apontar-se ao cinema dos Dardenne (que começaram no documentário, note-se).


Ao contrário daqueles que, como já li, afirmam não ser intenção dos Dardenne fazer qualquer censura à “transacção” (e uso o termo propositadamente, como provocação) que Bruno faz (eles estariam até a ser condescendentes, dizem), penso ser essa uma visão das coisas que, pretendendo-se humanista, se esquece do essencial: há um bebé e há um pai que o vende, como vende as coisas que rouba. Ignorar isso é esquecer o alerta que o filme lança: o da reificação da pessoa nos tempos em que vivemos e, com ela, o esvaziamento de qualquer sentido de ética. Afinal de contas, onde fica o Amor entre um pai e um filho? É disto que se trata. Embora, é certo, os Dardenne não se sirvam da câmara para moralismos fáceis, antes se interrogando profundamente sobre o que leva a tudo isto. Mais perguntas do que respostas, claro.


Esse esvaziamento é expresso num dos diálogos mais fortes de toda a fita, aquele em que Bruno, interpelado por Sónia, que lhe pergunta onde se encontra o bebé, responde, com naturalidade: “Vendi-o. Depois podemos fazer outro, não?”. Esta ausência de qualquer sentido ético ou moral (e, com ele, de qualquer sentimento de culpa) transcende a personagem de Bruno: ela quer representar a anomia e o eclipse de valores (a pessoa, a família, temas, aliás, recorrentes na filmografia destes autores) da sociedade pós-moderna do vale-tudo: a sociedade em que se vende um filho para se ganhar uns trocos. E ela não nos é distante: é a mesma onde se fazem concursos televisivos em que os participantes são indivíduos obesos que terão que “sofrer” para se “transformarem” naquilo que a sociedade dita, qual Grande Timoneira, como aceitável e meritoso. Triste, mas é assim.


As últimas cenas do filme, subsequentes ao roubo (até este parece aqui uma pequena partida de crianças…) de Bruno e Steve, são de uma enorme comoção. É porque o roubo corre mal que Bruno vai, finalmente, assumir a responsabilidade dos seus actos, tornando-se inevitável falarmos aqui de redenção.
A derradeira cena entre Bruno e Sonia (que traz à memória, como já alguém escreveu, a cena final de Pickpocket, de Robert Bresson) é o contraponto de uma das primeiras do filme (ver primeira fotografia), em que Bruno e Sonia brincam alegremente numa estação de serviço como duas crianças. De facto, ela simboliza como a partir daí a inocência ficou para trás, como esse tempo acabou.

L'Enfant venceu a Palma de Ouro em Cannes, em 2005.