terça-feira, julho 05, 2011
coisas que nem sempre são fáceis de conjugar
Um breve comentário a propósito da filmografia de Abel Ferrara, a cidade de Nova Yorque, os anos 90 e a cultura hip-hop.
descubra as diferenças


Há um mundo de semelhanças entre o Ray Ruby (Willem Dafoe) de Go Go Tales (2007, Abel Ferrara) e o Joachim Zend (Mathieu Amalric) de Tournée (2010, Mathieu Amalric).
De um lado, a mesma paixão, irreverência e obstinação. O optimismo inquebrantável, contra tudo e contra todos (the show must go on), que mexe em tudo por que passa, mesmo quando a tragédia parece estar iminente. Por outro lado, a mesma infantilidade (ambos sonhadores e indomáveis - síndrome "Peter Pan") e solidão (Ray dormindo sozinho no seu escritório enquanto mil coisas acontecem no seu clube; Joachim viajando sozinho de carro pela noite dentro enquanto a sua companhia de new burlesque actua).
E, porque não dizê-lo, a mesma decadência e sensação de nostalgia pelos good old days, não só no que ao dinheiro propriamente dito diz respeito (dois businessman falidos), mas também no que toca ao seu percurso dentro do mundo do espectáculo (o clube Ray's Paradise já viveu melhores dias e Joachim, por seu turno, era um tipo famoso em França antes de se chatear com a indústria e se exilar nos EUA).

Mas, ainda mais marcante, é a mesma fragilidade emocional e necessidade de se agarrarem aos seus mais próximos, que não são, note-se, num caso e noutro, a família (como seria habitual), mas sim as pessoas com quem trabalham diariamente. Ray trata as suas go go girls quase como filhas, referindo-se ainda numerosas vezes ao pessoal do Ray's Paradise como uma "grande família", onde todos olham por todos (veja-se a cena excelente em que uma striper lhe diz que está grávida ou aquela outra em que Ray canta sozinho em palco - a canção parece ser, na verdade, dirigida ao clube). Joachim, por sua vez, parece só estar bem quando rodeado das suas strippers, procurando fazer tudo para que se sintam bem, ainda que por isso durma pouco ou nada.

Flagrante, também, o espaço em que ambas as personagens se movem: o mundo do espectáculo e, mais concretamente, o mundo do striptease, das mulheres, da carne e da sensualidade. É neste mundo que ambas as personagens se encontram permanentemente à beira do colapso, do fim, embora haja sempre algo que as mantém à tona. Apetece acreditar que esse "algo" não é fruto do acaso ou da fortuna, mas como que uma recompensa pela coragem e determinação de dois seres vertiginosos que correm todos os riscos por amor à arte. E por aqui se vê o grito pela independência - no cinema, mas também na arte, em geral - que é comum a crítica apontar a Amalric e Ferrara por estes dois filmes.
domingo, julho 03, 2011
sexta-feira, julho 01, 2011
Ciclo ABEL FERRARA: "ENTRE O VÍCIO E A MORAL"
quinta-feira, junho 30, 2011
Ciclo "VERÃO", no Passos Manuel

Começa já hoje o ciclo "VERÃO", organizado pela Milímetro. Às 22h, no Passos Manuel.
30 JUNHO
Tempos de Verão (2008), Olivier Assayas.14 JULHO
Almoço de 15 de Agosto (2008), Gianni di Gregorio.
21 JULHO
Aquele Querido Mês de Agosto (2008), Miguel Gomes.
Hoje, às 22h, é exibido o primeiro filme do ciclo - Tempos de Verão, de Olivier Assayas, o tão badalado realizador de Carlos.
domingo, junho 26, 2011
sábado, junho 25, 2011
sem ponto de chegada

Viagem a Portugal é uma viagem que podia ser, em boa verdade, a qualquer país desenvolvido onde ainda subsistam tiques xenófobos e discriminatórios (das autoridades, note-se, porque da população subsistirão sempre). E ao dizer isto, já estou a avançar que o novo filme de Sérgio Tréfaut se acaba por anular a si mesmo, sem nervo nem rasgo.
Na realidade, a história - verídica - que sustenta Viagem a Portugal é uma história como outra qualquer, daquelas que tristemente continuam a assolar os países que se dizem "abertos" e "multiculturais": a desconfiança face ao outro, ao que nos é estranho, ou, sem eufemismos, uma história sobre o racismo e o preconceito em estado bruto. Daí o primeiro parágrafo e a pergunta que se coloca: porquê viagem a... Portugal? O que há no filme de Tréfaut que identifique concretamente o nosso país e suas idiossincracias? Somos assim tão diferentes, no que toca ao preconceito, dos alemães, dos espanhóis ou dos americanos?

Mas esta questão poderia ser omitida se Viagem a Portugal não falhasse em toda a linha no resto. Vamos às coisas boas, primeiro. O argumento (um ponto de partida cativante) alia-se a um tratamento de imagem de um preto e branco "científico", super higiénico, como que em comunhão com o espaço "incolor" de normatividade e burocracia da Autoridade (no caso, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de um aeroporto). Daí todo um ambiente muito "clean", mas simultanemente claustrofóbico e ameaçador (diria que há mesmo algo de orwelliano naqueles corredores e escritórios...).
Estas eram duas valias (uma narrativa, outra estética) que podiam fazer de Viagem a Portugal um exercício interessante. O problema está, depois, na franca monotonia em que o filme se arrasta: não só nos diálogos que nada acrescentam ao que já foi dito, mas também na brincadeira do campo/contracampo repetida sob a perspectiva de cada uma das personagens, mas que, de tão mecânica (são raríssimos os movimentos de câmara), se torna previsível e aborrecida ao fim de alguns minutos. Mas o pior de tudo está mesmo nos actores e nos diálogos, a que só escapa Maria de Medeiros. Isabel Ruth começa o filme muito bem, é certo, mas depois vai por ali fora sempre a descer. Isto para não falar de outras personagens, como a de José Wallenstein, perfeitamente inconsequentes. E depois há ainda uma série de diálogos confrangedores (são vários, a sério) e péssimos actores (não havia mesmo mais ninguém para vestir o papel de polícia?!), como só me lembro de ver em Mistérios de Lisboa (mas toda a gente disse maravilhas do filme, por isso mais vale estar calado).

Tudo somado, fica a sensação de uma oportunidade falhada em explorar um tema que é, por si só, estimulante (sobretudo quando estamos a falar um documentarista como é Tréfaut) e tão em voga nos dias de hoje (se calhar em demasia, e por isso o filme talvez não tenha o impacto que seria suposto ter...). Por isso, apetece dizer que a viagem de Tréfaut parece acabar por não chega a lado algum - não apenas no sentido literal (nunca saímos do mesmo espaço físico, o SEF) propriamente dito, mas também na medida em que o filme nada acrescenta ao seu tema de base (o preconceito), o qual é reconhecível imediatamente logo nos primeiros minutos do filme. Não saímos de onde partimos, e não ficamos mais ricos.
"Carlos"

Há um ponto de partida incontornável para qualquer crítica que se faça a propósito de Carlos, de Olivier Assayas: é o de que estamos perante um sub-produto da obra original, pensada para televisão e com a duração de 5 horas e meia. E ao contrário do que já li, penso ser essa uma circunstância que não deixa de ser perceptível na versão que nos chega ao cinema, mais concretamente na montagem de um filme em que demasiados momentos narrativos são intercalados pelo "apagão" total (raccords nem vê-los), técnica que muito dificilmente me parece ter aqui qualquer cunho estético, antes instrumento necessário para condensar o tempo da fita, o que a certa altura acaba por ser cansativo (porque monótono) para o espectador.
Isto não faz de Carlos um mau filme, muito pelo contrário, sem que no entanto as 2h45de filme não deixem de saber a pouco. Carlos é filme de acção, empolgante e nesse particular cumpre com mestria. Mas depois falta-lhe algo mais: falta densidade às personagens (algumas delas mesmo muito pouco trabalhadas) e falta também um maior aprofundamento político do contexto histórico em que o filme se move - a dada altura, Carlos tem tanto de político (e menos de sexual, com pena minha) como um Bond.
Mas para tudo isto pode existir uma decisiva razão que mude o caso de figura: as tais 5 horas que a versão original (feita em formato de série para televisão) possui e que merecem ser vistas (a cena do assalto à OPEP, uma hora inteirinha, deve estar fabulosa).

Curiosamente, ao contrário da crítica que Carlos, o original, teceu ao filme - de que este o descaracterizaria, por o retratar tão-só como um mercenário e sex-symbol, despido de convicções políticas e ideológicas -, creio que Assayas é sóbrio e justo com a personagem de Carlos. Não o pinta, em momento algum, como um "mercenário", mas sim como um jovem que, como tantos, ontem mais do que hoje, foi refém de símbolos e imaginários voluntaristas e utópicos. Nesse capítulo, e esta é a pedra de toque, essa abnegação utópica, porque presa a esses referentes-mito, criou nesses jovens - burgueses, em grande parte dos casos, como é sabido - uma projecção imediatista, pouco ou nada reflectida (este Carlos nem livrinhos de bolso do Lenine transporta consigo...), para lutar. A personagem de Carlos é, neste particular, um exemplo paradigmático desse estado das coisas - e por isso é que o seu "hasta la victoria siempre!" soa tão vazio e artificial, como um qualquer slogan da coca cola (coca cola e Marx, à Godard). Mas dizer (ou filmar) isto não é descaracterizar ou falsificar; é, na verdade, documentar e reflectir sobre uma época e uma certa forma de estar entre os jovens filiados na esquerda radical dessa Europa de então.

Como retrato histórico e bem dentro dos movimentos revolucionários de esquerda europeus que proliferavam nos anos 70, continuo a preferir O Complexo de Baader Meinhoff (2008), de Uli Edel (foto abaixo), ou até A Melhor Juventude (2003, Marco Tullio Giordana) e Bom Dia, Noite (2003, Marco Bellochio).
quinta-feira, junho 16, 2011
La Gran Vie

É provável que em 1963 a metáfora da vida como uma roleta russa fosse já cliché. Jacques Demy parece não se importar.
As fichas, os croupiers, os smokings, o casino de Monte Carlo, não falta nada. Ainda assim, a "Baía dos Anjos" está longe de ser um filme glamouroso, mesmo tendo a loiríssima Jeanne Moreau num dos papéis principais.
Pelo contrário, este é o retrato quotidiano de um vício em que a desilusão e o êxtase se alternam perpetuamente, ao sabor do acaso, da sorte, do destino, ou de algo mais (Jacqueline (Jeanne Moreau) perguntava-se a certa altura se não seria Deus quem escolhia os números da roleta).
No entanto, mantém-se a ilusão de que se controla a vontade e o futuro, num misto de ansiedade e insaciedade, até à chegada redentora do amor. Não é tudo isso a vida, afinal? "La gran vie", diria Jacqueline.
P.S. A banda sonora, mais uma vez, é soberba. Desta vez com Michel Legrand, em vez de Beethoven.
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quarta-feira, junho 15, 2011
domingo, junho 12, 2011
quinta-feira, junho 09, 2011
"Leap year"
Câmara de Ouro deste ano em Cannes: Leap year (2010), de Michael Rowe.
"A lonely Mexican woman with some major intimacy issues goes on a one-month sex spree in "Leap Year," Michael Rowe's raunchy and acutely minimalist study of urban alienation, romantic longing and bedroom practices no one should try at home. Set almost entirely inside a drab Mexico City apartment and filmed in a series of well-designed masters, pic evokes both Tsai Ming-liang's quiet studies of contempo gloom and Bruno Dumont's raw depictions of flesh-on-flesh, with a cleverly constructed story that pays off despite the bodily fluids. Semi-extreme content will attract distribs prepared to take a leap of faith".
Artigo completo aqui.
domingo, junho 05, 2011
entre outras coisas, é isto

"Very few stories capture what it’s truly like to be a child as authentically as The Tree of Life does. The wonderment, the sadness, the confusion, violence, and playfulness".
(e muitas outras, que merecem uma segunda chamada)
sábado, junho 04, 2011
sexta-feira, junho 03, 2011
beats, rhymes & life
Um dos documentários que mais deu que falar no Sundance Film Festival deste ano é sobre uma das minhas bandas predilectas.
Beats, Rhymes & Life: The Travels of a Tribe Called Quest é o nome do documentário realizado por Michael Rapaport sobre os A Tribe Called Quest, grupo lendário do hip-hop norte americano. Participações de Common, Pharrell Williams, Pete Rock, Beastie Boys, Jungle Brothers, De La Soul, ...
Ansioso por ver!
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quinta-feira, junho 02, 2011
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