Aparece e traz um amigo.
sexta-feira, abril 10, 2009
The Great Escape, por André Silva

Equipas de homens são organizadas para o planeamento, escavação, ocultação de solo, fabrico de roupas civis, falsificação de documentos, segurança e distracções, contrabando e procura de materiais, tudo com um único objectivo: a fuga de 250 prisioneiros de um campo de concentração nazi, através de vários túneis subterrâneos. “The Great Escape” é um filme produzido e dirigido em 1963 por John Sturges. Baseado num romance de Paul Brickhill, sobre uma tentativa de fuga de um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial por parte de um grupo de prisioneiros do grupo dos Aliados. Brickhill tinha sido um prisioneiro de guerra juntamente com o seu amigo George Harsh, contando no seu livro as suas próprias memórias e experiências. Estrelas como Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson, Donald Pleasence, James Coburn, David McCallum e James Donald iniciam neste filme as suas brilhantes carreiras no mundo do cinema.
Em 1944, os alemães têm uma especial prisão construída, projectada para assegurar que os mais problemáticos presos não conseguissem escapar, apesar dos vários esforços. Ao longo de três horas conhecemos uma multiplicidade de personagens que nos são apresentadas detalhadamente, provocando-nos uma qualquer ligação pessoal entre os prisioneiros e o próprio espectador. A abordagem do filme parece realçar a ideia de resistência do grupo, retratando a força e o triunfo do espírito humano.
O único aspecto que realmente posso referir como menos positivo é a duração do filme. Senti que o filme se prolongava demasiado ao longo de quase três horas. Apesar disso não consigo pensar em alguma cena que poderia ser retirada. A direcção, a fotografia e a edição musical contribuíram bastante para o sucesso desta obra. A história embora não incrivelmente profunda, é envolvente e inteligentemente bem escrita. Não fugindo muito do tema central da fuga da prisão, seduz pela pormenorizada descrição e exposição que é feita da vida dos prisioneiros que meticulosamente planeiam a árdua construção dos três túneis. Sturges consegue manter ao longo do filme uma agradável sensação de interesse e descoberta quanto ás vidas das personagens pessoalmente apresentadas anteriormente. Lendário ficará para sempre o salto de mota de Steve McQueen, como a ultima tentativa desesperada de fuga para a liberdade da Suiça.
“The Great Escape” tem uma peculiar capacidade de conseguir misturar uma emocionante história sobre a Segunda Guerra Mundial, com a horrível natureza dos inerentes custos de guerra. Interessante no modo como nos é apresentada a história, tradicional na maneira visual como o filme é realizado, mas com a certeza de ser um clássico a revisitar.
autor: André Silva
sexta-feira, abril 03, 2009
le bal (2)
*ou elogio um tanto ou quanto desconexo, meio a quente, sobre o baile.
Após trocar algumas palavras sobre o Le Bal, depois de se passar o filme, acabei por me encontrar numa situação nova: já me tinha ocorrido de já não ter gostado de um filme perante o gáudio geral; desta feita, senti-me um bicho raro que gostou de coisa ainda mais inusitada, sem ser secundado pela globalidade das pessoas com quem troquei palavras.
A esse propósito, são bastante impressivas as palavras da comentadora Rio: “escrevo este mail no intuito de partilhar o meu deslumbramento com o filme de hoje. assim, sem meios termos nem meios adjectivos; assim, porque este filme não é de meias medidas. ou se adora ou se sai a meio do filme. eu, adorei: a sucessiva passagem do tempo, mantendo os lugares, mudando personagens nos mesmos corpos de há pouco; a emotividade que transborda de cada gesto e de cada olhar; o simbolismo de pequenos objectos e de grandes épocas. este filme transpira segredos.obrigada a quem escolheu o filme.”
Longe de querer inculcar o meu sentido estético, que vale o que vale, quero expor aqui aquilo de que mais gosto no filme. Cá vai.
O veio que parece unir todos os pedaços do filme é a dança. E a dança surge como uma espécie de resposta a uma necessidade natural do homem, a de se evadir das coisas normais do dia-a-dia - ignorando-as, exultando-as, esquecendo-as. Curioso, então, como em torno dessa ideia reitora gravitam todos as idiossincrasias dos homens de cada condição, aqui mais em função do tempo e do “estrato” social do que, propriamente, do espaço (estamos sempre no mesmo salão de baile). A dança, embora vindo como uma resposta, conhece várias vestes: sobre o mesmo chão, operários dançam fraternalmente, sem qualquer tipo de formalidades; rockabillies, como rejeitando a dança, dão um espectáculo meio dionisíaco, partindo cadeiras, rolando em cambalhotas; …, dança-se ainda o chá-chá-chá, o samba, e muitas outras variantes.
Os exemplos de como a dança surge como um reflexo de algo de co-natural ao homem, ou melhor dizendo, como uma resposta a um apelo natural, podem apontar-se:
1. O oficial alemão que, perante o enxovalho de não encontrar qualquer mulher para dançar, presta-se, segundo parece, À vergonha maior de dançar com um homem (muito embora, prudentemente, coloque uma luva na mão que dá ao par de bailarico).
2. O sujeito que, mandando parar a música, vê uma mulher, logo secundada pelos restantes bailantes, a criar um ritmo musical pelo bater dos pés no chão, como que sugerindo não haver poder que consiga abafar plenamente a condição humana
3. Os grandes revolucionários que, embora querendo romper com tudo-e-mais-alguma-coisa, não resistem a invadir o salão de baile e a dançar agarradinhos.
4. O homem que, mutilado pela guerra, só com uma perna, dança aos pulinhos.
Por outro lado, como reflexo de como o conjuntural se cruza com o estrutural:
1. O modo como o salão de baile, a música e a banda gravitam sempre em função da dança (paradigmaticamente, numa cena a banda está a sair do salão do baile, por o "seu tempo" ter passado).
2. Como, embora em coisa tão inócua como a dança, os homens recusam ao colaboracionista francês a condição de um igual, não o deixando participar na roda (aliás, invectivando-o…).
Dança-se, no le bal, por tudo e mais alguma coisa: para comemorar as vitórias na rua, na guerra, para passar bem a noite, para tocar em alguém do sexo oposto, para se divertir; dança-se em dias de penúria e prosperidade, quando o salão serve para baile ou como espécie de bunker; dança-se quando se quer dançar, quando se pode dançar, e ainda quando querem impedir a própria dança. No fundo, dança-se sempre, e sugere-se que para sempre se dançara.
A esse propósito, são bastante impressivas as palavras da comentadora Rio: “escrevo este mail no intuito de partilhar o meu deslumbramento com o filme de hoje. assim, sem meios termos nem meios adjectivos; assim, porque este filme não é de meias medidas. ou se adora ou se sai a meio do filme. eu, adorei: a sucessiva passagem do tempo, mantendo os lugares, mudando personagens nos mesmos corpos de há pouco; a emotividade que transborda de cada gesto e de cada olhar; o simbolismo de pequenos objectos e de grandes épocas. este filme transpira segredos.obrigada a quem escolheu o filme.”
Longe de querer inculcar o meu sentido estético, que vale o que vale, quero expor aqui aquilo de que mais gosto no filme. Cá vai.
O veio que parece unir todos os pedaços do filme é a dança. E a dança surge como uma espécie de resposta a uma necessidade natural do homem, a de se evadir das coisas normais do dia-a-dia - ignorando-as, exultando-as, esquecendo-as. Curioso, então, como em torno dessa ideia reitora gravitam todos as idiossincrasias dos homens de cada condição, aqui mais em função do tempo e do “estrato” social do que, propriamente, do espaço (estamos sempre no mesmo salão de baile). A dança, embora vindo como uma resposta, conhece várias vestes: sobre o mesmo chão, operários dançam fraternalmente, sem qualquer tipo de formalidades; rockabillies, como rejeitando a dança, dão um espectáculo meio dionisíaco, partindo cadeiras, rolando em cambalhotas; …, dança-se ainda o chá-chá-chá, o samba, e muitas outras variantes.
Os exemplos de como a dança surge como um reflexo de algo de co-natural ao homem, ou melhor dizendo, como uma resposta a um apelo natural, podem apontar-se:
1. O oficial alemão que, perante o enxovalho de não encontrar qualquer mulher para dançar, presta-se, segundo parece, À vergonha maior de dançar com um homem (muito embora, prudentemente, coloque uma luva na mão que dá ao par de bailarico).
2. O sujeito que, mandando parar a música, vê uma mulher, logo secundada pelos restantes bailantes, a criar um ritmo musical pelo bater dos pés no chão, como que sugerindo não haver poder que consiga abafar plenamente a condição humana
3. Os grandes revolucionários que, embora querendo romper com tudo-e-mais-alguma-coisa, não resistem a invadir o salão de baile e a dançar agarradinhos.
4. O homem que, mutilado pela guerra, só com uma perna, dança aos pulinhos.
Por outro lado, como reflexo de como o conjuntural se cruza com o estrutural:
1. O modo como o salão de baile, a música e a banda gravitam sempre em função da dança (paradigmaticamente, numa cena a banda está a sair do salão do baile, por o "seu tempo" ter passado).
2. Como, embora em coisa tão inócua como a dança, os homens recusam ao colaboracionista francês a condição de um igual, não o deixando participar na roda (aliás, invectivando-o…).
Dança-se, no le bal, por tudo e mais alguma coisa: para comemorar as vitórias na rua, na guerra, para passar bem a noite, para tocar em alguém do sexo oposto, para se divertir; dança-se em dias de penúria e prosperidade, quando o salão serve para baile ou como espécie de bunker; dança-se quando se quer dançar, quando se pode dançar, e ainda quando querem impedir a própria dança. No fundo, dança-se sempre, e sugere-se que para sempre se dançara.
Parece-me assim que, pela dança, Ettore Scola consegue tocar numa dimensão que tem o seu quê de absoluto. Pela sucessão de imagens de homens em diferentes períodos históricos a fazer a mesma coisa, dançar, começamos a ver algo que está para além, um reflexo de algo que parece irmanar todos os homens na mesma condição. Independentemente de tudo o que nos distingue, ali vemos humanos, acima de tudo humanos, e na sua diferença não hesitamos em considerá-los da mesma carne.
E, isso, sendo poupadinho nas palavras, é genial.
E, isso, sendo poupadinho nas palavras, é genial.
(curiosamente, a imagem do cartaz a anunciar o filme tinha uma gravura representando uma dança, porventura com alguns séculos. Apesar de ter sido por acaso, ajusta-se que nem uma luva ao filme que se passou.)
quarta-feira, abril 01, 2009
Le Bal - Crítica
Le Bal (1983) de Ettore Scola: Observações a um baile
Por Francisco Noronha
Talvez já todos tenhamos imaginado pelo menos uma vez como será o início de uma noite num grande espaço de dança frequentado por muita gente. Como será esse espaço sem as pessoas, as roupas, os risos, os cigarros, as maquilhagens, o barulho, os olhares, os copos, … Como será esse espaço sem aquilo que o motiva: pessoas e movimento. Quando me lembro das poucas vezes que presenciei uma situação dessas, recordo o quão surpreendido fiquei pela solidão do local, transformado numa sala silenciosa como tantas outras. O exercício torna-se ainda mais interessante - e faz-nos sentir porventura um pouco idiotas - se pensarmos que qualquer sala, sem gente, é obviamente isso mesmo e nada mais: uma sala como tantas outras. Sem nada nem ninguém.
Pois bem; Le Bal (1983) satisfaz, logo a abrir, este apetite pelo impensável: acompanhamos na penumbra um homem a percorrer uma sala, ajeitando umas coisas aqui e ali. Repentinamente, acende as luzes. Deparamo-nos então com um salão de dança parisiense anos 80, algures entre o cabaret, o casino e um qualquer concurso televisivo da tv portuguesa anos 90. A câmara dá-nos o salão de frente: o rectângulo para o pé de dança ao meio, um conjunto de cadeiras a ladeá-lo e, acima, quatro ou cinco lanços de escadas de grande comprimento. Olhamos para cima e vemos globos luminosos, enquanto que, um pouco atrás das escadas, nas laterais, os contornos dos degraus superiores e da varanda que dá para o salão se encontram também eles iluminados por um néon muito disco. Por esta altura, já o barman colocou a agulha num disco invocador dos míticos eighties.
Está, então, tudo pronto para o espectáculo: começam a chegar as senhoras, uma por uma, todas elas se mirando escrupulosamente ao espelho para ajeitar um cabelo fora do sítio ou verificar a brancura dos dentes. Todas elas se vão sentando, uma por uma, em cadeiras diferentes. Percebemos então aqui como a música sugere qualquer coisa próxima de uma preparação, um ritual para dar início a… A qualquer coisa próxima de uma missão? Talvez assim o possamos entender quando chegam os homens e se enfileiram como soldados para o ataque ao inimigo. É a vez deles de descerem e se encostarem galantemente ao balcão. Dá-se então início a todo um jogo sedutor de olhares, tiques e preocupações relativamente ao sexo oposto. Aqui compreendemos o que vai mover o italiano Ettore Scola em toda a fita: a atracção e o flirt mútuo entre homens e mulheres (quer serão sempre os mesmos actores). Homens e mulheres que, desde o início, percebemos quererem retratar uma certa diversidade social. Quer em aspectos porventura mais materialistas (na roupa, no bom-gosto ou nos modos), quer em aspectos de índole moral ou psicológica (a mulher lasciva que mostra as ligas; a mulher fria e decidida que chupa o cigarro; a mulher nervosa que à ultima troca os sapatos; ou a paranóica que vai engolindo uns comprimidos à socapa). E o mesmo nos homens.
Toda esta narração altamente descritiva por parte do autor deste escrito é consciente e voluntária: o mesmo seria necessário fazer para avaliar cada momento histórico abordado por Scola num baile que se dança nos anos 30, quando o operariado consubstanciava a sua força na multipolar Frente Popular; nos anos 40, com os bombardeamentos alemães e consequente invasão seguida de libertação; o pós-guerra com o jazz negro importado da América; mais tarde o rock and roll rebelde; e por fim, antes de voltar aos eighties, o ambiente quente das revoltas estudantis francesas dos anos 60. Entre o documentário, o histórico e o musical, Le Bal transforma-se, a meu ver, num intenso (e paciente) exercício de observação. Quer para o realizador, enquanto construtor; quer para o espectador. E, para este último, fará porventura sentido este sensato cliché: Le Bal não é um filme para se ver, mas antes para se observar. E 107 minutos de observação podem ser eventualmente duros para as pestanas. Mas serão, com certeza, um fresco original e curioso de um século.
Como qualquer exercício – neste caso, de observação - Le Bal exige esforço e interesse. Afinal de contas, o mesmo que se exige para se ir dançando no correr dos anos…
Nomeado em 1984 para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira e vencedor de vários Ursos de Berlim.
Como disse na altura em que fazia a apresentação, assumia as responsabilidades pela escolha do filme... Pelos vistos, não houve responsabilidades para suportar. Pelo menos não todas. :)
Até à próxima sessão!
Francisco.
Por Francisco Noronha
Talvez já todos tenhamos imaginado pelo menos uma vez como será o início de uma noite num grande espaço de dança frequentado por muita gente. Como será esse espaço sem as pessoas, as roupas, os risos, os cigarros, as maquilhagens, o barulho, os olhares, os copos, … Como será esse espaço sem aquilo que o motiva: pessoas e movimento. Quando me lembro das poucas vezes que presenciei uma situação dessas, recordo o quão surpreendido fiquei pela solidão do local, transformado numa sala silenciosa como tantas outras. O exercício torna-se ainda mais interessante - e faz-nos sentir porventura um pouco idiotas - se pensarmos que qualquer sala, sem gente, é obviamente isso mesmo e nada mais: uma sala como tantas outras. Sem nada nem ninguém.
Pois bem; Le Bal (1983) satisfaz, logo a abrir, este apetite pelo impensável: acompanhamos na penumbra um homem a percorrer uma sala, ajeitando umas coisas aqui e ali. Repentinamente, acende as luzes. Deparamo-nos então com um salão de dança parisiense anos 80, algures entre o cabaret, o casino e um qualquer concurso televisivo da tv portuguesa anos 90. A câmara dá-nos o salão de frente: o rectângulo para o pé de dança ao meio, um conjunto de cadeiras a ladeá-lo e, acima, quatro ou cinco lanços de escadas de grande comprimento. Olhamos para cima e vemos globos luminosos, enquanto que, um pouco atrás das escadas, nas laterais, os contornos dos degraus superiores e da varanda que dá para o salão se encontram também eles iluminados por um néon muito disco. Por esta altura, já o barman colocou a agulha num disco invocador dos míticos eighties.
Está, então, tudo pronto para o espectáculo: começam a chegar as senhoras, uma por uma, todas elas se mirando escrupulosamente ao espelho para ajeitar um cabelo fora do sítio ou verificar a brancura dos dentes. Todas elas se vão sentando, uma por uma, em cadeiras diferentes. Percebemos então aqui como a música sugere qualquer coisa próxima de uma preparação, um ritual para dar início a… A qualquer coisa próxima de uma missão? Talvez assim o possamos entender quando chegam os homens e se enfileiram como soldados para o ataque ao inimigo. É a vez deles de descerem e se encostarem galantemente ao balcão. Dá-se então início a todo um jogo sedutor de olhares, tiques e preocupações relativamente ao sexo oposto. Aqui compreendemos o que vai mover o italiano Ettore Scola em toda a fita: a atracção e o flirt mútuo entre homens e mulheres (quer serão sempre os mesmos actores). Homens e mulheres que, desde o início, percebemos quererem retratar uma certa diversidade social. Quer em aspectos porventura mais materialistas (na roupa, no bom-gosto ou nos modos), quer em aspectos de índole moral ou psicológica (a mulher lasciva que mostra as ligas; a mulher fria e decidida que chupa o cigarro; a mulher nervosa que à ultima troca os sapatos; ou a paranóica que vai engolindo uns comprimidos à socapa). E o mesmo nos homens.
Toda esta narração altamente descritiva por parte do autor deste escrito é consciente e voluntária: o mesmo seria necessário fazer para avaliar cada momento histórico abordado por Scola num baile que se dança nos anos 30, quando o operariado consubstanciava a sua força na multipolar Frente Popular; nos anos 40, com os bombardeamentos alemães e consequente invasão seguida de libertação; o pós-guerra com o jazz negro importado da América; mais tarde o rock and roll rebelde; e por fim, antes de voltar aos eighties, o ambiente quente das revoltas estudantis francesas dos anos 60. Entre o documentário, o histórico e o musical, Le Bal transforma-se, a meu ver, num intenso (e paciente) exercício de observação. Quer para o realizador, enquanto construtor; quer para o espectador. E, para este último, fará porventura sentido este sensato cliché: Le Bal não é um filme para se ver, mas antes para se observar. E 107 minutos de observação podem ser eventualmente duros para as pestanas. Mas serão, com certeza, um fresco original e curioso de um século.
Como qualquer exercício – neste caso, de observação - Le Bal exige esforço e interesse. Afinal de contas, o mesmo que se exige para se ir dançando no correr dos anos…
Nomeado em 1984 para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira e vencedor de vários Ursos de Berlim.
Como disse na altura em que fazia a apresentação, assumia as responsabilidades pela escolha do filme... Pelos vistos, não houve responsabilidades para suportar. Pelo menos não todas. :)
Até à próxima sessão!
Francisco.
segunda-feira, março 30, 2009
sexta-feira, março 27, 2009
M, por André Silva

“Who are you...all of you?...Criminals! Perhaps you're even proud of being able to break safes, to climb into buildings or cheat at cards...Things you could just as well keep your fingers off...But I...I can't help myself! I haven't any control over this evil thing that's inside me – the fire, the voices, the torment...I want to escape...but it's impossible.”
Hans Beckert
Alguém mata consequentemente crianças numa cidade alemã, sem que o criminoso seja encontrado pela polícia. Esta é a história que nos conta o realizador alemão Fritz Lang no filme “M” de 1931. Escrito pelo próprio Lang e pela sua mulher, The von Harbou, “M” é o primeiro filme sonoro alemão, apesar de já ter realizado diversos filmes anteriormente. Considerado como um drama-thriller, tornou-se num clássico do cinema, e das melhores obras de Lang. Importante obra durante a época da ascensão do Partido Nazi alemão, por fazer uma alusão à autoridade estadual e à necessidade de punição dos criminosos.
Supostamente baseado na vida real, no caso do serial killer Peter Kürten, o “ Vampiro de Düsseldorf ”, autor de vários crimes na década de 1920, não muito tempo antes deste filme ter sido realizado. Um fantástico filme noir alemão, onde não faltam diversos elementos que compõe o estilo noir: uma cidade escura com ruas desertas, ambientes instáveis, cânticos negros como por exemplo sobre o famoso “Bogeymen” e sobre assassinos, as patológicas paranóicas dos indivíduos e o clássico fatalismo a que estas obras nos habituaram. Através do contraste da iluminação, dos efeitos fortes, e dos grandes ângulos, Lang consegue sugerir-nos uma presença espiritual maléfica que paira sobre a cidade, e nos traduz uma sensação de perdição dos seus habitantes. “M” é mais do que uma paisagem sobre uma mente humana desequilibrada. Com o seu clima de terror palpável e a sua directa ligação à mentalidade da máfia alemã, esta obra desenha com uma assustadora precisão, os escuros contornos da sociedade nazi. Há um constante paralelismo entre a polícia e o submundo da máfia, e a forma como eles funcionam e se organizam. Típico de Fritz Lang, o filme vê a polícia e os criminosos de uma forma quase indistinguível.
Não há qualquer violência na tela, mas o sentimento de ameaça é insuportavelmente intenso e persegue o espectador durante todo o filme, especialmente quando o assassino assobia uma melodia musical ameaçadora. O filme contém duas sequências constantes; por um lado uma escala de diálogos, e por outro lado espaços de música e efeitos sonoros. Lang utilizou o som como se fosse um outro elemento visual, editando-o livremente. Inicialmente, o criminoso não é mostrado ao espectador, fazendo com que cada pessoa individual crie os detalhes e características do assassino, de acordo com a sua própria imaginação e criatividade. Destaque para o cativante desempenho de Peter Lorre, que interpreta o assassino Hans Beckert.
“M” é um dos filmes mais conhecidos de realizador Fritz Lang, e provavelmente a sua maior obra cinematográfica. Praticamente inventando o psicopata serial killer típico do cinema, “M” esteve bem à frente do seu tempo, tanto em termos de estilo como em termos de história, ao passar uma mensagem de protecção familiar ás mães daquela época. Visivelmente impressionado com os registos deste realizador, sem dúvida.
autor: André Silva
quarta-feira, março 25, 2009
Watchmen
segunda-feira, março 23, 2009
Un Perro Andaluz, por André Silva

“Un Perro Andaluz” é uma curta-metragem muda de 17 minutos, escrita, produzida e dirigida por Luís Buñuel em 1929, com a colaboração de Salvador Dali. Considerado como o primeiro filme surrealista do cinema, “Un perro andaluz” teve como principal objectivo provocar um impacto moral no espectador, através de imagens agressivas. Remete constantemente ao sonho e à loucura, tanto nas imagens produzidas, como na não utilização de uma sequencia cronológica. Socialmente simbólica e vanguardista, esta obra é considerada como uma das mais famosas da história do cinema. A utilização de temas como a violência, a brutalidade e a sexualidade fizeram aumentar a polémica deste primeiro filme do realizador, precisamente devido à contrariedade à normalidade dos típicos filmes mudos da época. As ideias de Buñuel e Dali chocaram o público europeu ao romper com as formalidades cinematográficas do tempo, o tradicionalismo e o conservadorismo a que o período estava habituado. Servindo-se de imagens que oscilam entre o erótico, o assustador, o engraçado, o estranho, e o simbólico, “Un Perro Andaluz” foi escrito em apenas uma semana, seguindo apenas uma regra muito simples, a de não aceitar ideias ou imagens que pudessem dar lugar a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Para sempre imortalizada no cinema a imagem do corte do olho com uma navalha, esta obra nasceu da convergência dos sonhos de Buñuel e Dali. Obra de arte e do ensaio cinematográfico, “Un Perro Andaluz” é um filme de culto único, resultado da extraordinária imaginação de dois jovens na altura, Luís Buñuel com 29 anos e Dali com 25 anos, portadores de um singular talento. Por ultimo, como nos disse o jovem realizador Luís Buñuel: “Opino que una película, salvo que sirva sólo para pasar el rato, siempre debe defender y comunicar indirectamente la idea de que vivimos en un mundo brutal, hipòcrita e injusto. Y exactamente eso es lo que no suele hacer el cine”. Sem duvida uma obra muito interessante, recheada de misticismo e imaginação, que nos faz alargar os limites da própria criatividade humana.
autor: André Silva
quinta-feira, março 19, 2009
sugestões de leitores
Há algum tempo que iniciei uma viagem pela obra de Pedro Almodóvar. Fiquei simplesmente fascinado com o surpreendente trabalho deste realizador. A forma humana e real como nos é transmitida a sociedade actual é simplesmente fantástica. Pedro Almodóvar consegue desenvolver o conceito de ser humano, transformando-o numa série de importantes relações de sociabilização e sentimentalismos necessários à própria convivência humana. È esta natural capacidade do cineasta em traduzir a vida quotidiana em situações pessoais e intimas do próprio espectador, que me fascinou particularmente. Por motivos de conveniência não apresentarei mais criticas sobre trabalhos de Pedro Almodóvar, passando a participar com outras pseudo-criticas num diferente sentido e rumo cinematográfico. Porém apraz-me por ultimo sugerir duas obras também muito boas do autor: “Carne trémula” (1997) e “La mala educación” (2004). Registos diferentes e que abordam temáticas diferentes, mas com a humanidade e naturalidade a que o realizador nos habituou.
autor: André Silva
autor: André Silva
Todo sobre mi madre, por André Silva
Arrepiante é a palavra que encontro para descrever o trabalho do realizador Pedro Almodóvar. Neste minha demanda a ver algumas obras do cineasta espanhol, tenho sido invadido sempre pelo mesmo sentimento: uma simples e humana sensação de tristeza. Não só pelas histórias dramáticas que nos são apresentadas, mas também pela descomplexa forma como é traduzida a realidade social. Hoje apresento “Todo sobre mi madre”, produzido em 1999. Apesar de drama, encontramos rasgados traços de uma comédia leve e descomprometida, contributo do excelente desempenho das personagens femininas como Cicilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz e Antónia San.
Manuela, interpretada por Cicilia Roth, é uma enfermeira que mora sozinha com o filho, que acaba de festejar o seu 17º aniversário. No dia do aniversário, os dois vão assistir a um espectáculo de teatro, trazendo à memória do rapaz o objectivo de encontrar e conhecer o seu pai. Porém, a vida acaba para o filho de Manuela, consequência de um atropelamento mortal. Disposta a reencontrar o pai do rapaz e revelar-lhe toda a verdade, Manuela deixa o emprego e parte para Barcelona. A personagem acaba tornando-se o núcleo da história que dará um novo sentido à sua vida, enquanto que a sua ajuda e influência acabam por mudar o rumo das vidas das pessoas que a rodeiam.
Vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro e Palma de Ouro de Melhor Director no Festival de Cannes de 1999, “Tudo sobre minha Mãe” é uma obra por vezes bizarra, tocante, chocante, mas muito interessante. Mergulhar no universo de Pedro Almodóvar parece significar entrar na própria realidade da sociedade contemporânea, conhecendo muitos dos problemas e limites à condição humana. Exibe-nos a história de várias actrizes que vivem constantemente numa situação de dupla representação, no palco e na vida real, sujeitas a simular e dissimular sentidos para viver e sobreviver.
O nome original do filme é uma homenagem de Pedro Almodóvar ao filme All About Eve (em português, A Malvada), do realizador Joseph L. Mankiewicz, de 1950. Relembro uma frase dita pela personagem Agrado que me ficou na cabeça: “Uma pessoa é tanto mais autentica quanto mais se parece com aquilo que sempre sonhou para si mesma".
“Todo Sobre Mi Madre” tem o invulgar atributo de nos desvendar situações aparentemente surreais, que estão indiscriminadamente mais presentes na nossa vida do que aquilo que imaginamos.
autor: André Silva
Manuela, interpretada por Cicilia Roth, é uma enfermeira que mora sozinha com o filho, que acaba de festejar o seu 17º aniversário. No dia do aniversário, os dois vão assistir a um espectáculo de teatro, trazendo à memória do rapaz o objectivo de encontrar e conhecer o seu pai. Porém, a vida acaba para o filho de Manuela, consequência de um atropelamento mortal. Disposta a reencontrar o pai do rapaz e revelar-lhe toda a verdade, Manuela deixa o emprego e parte para Barcelona. A personagem acaba tornando-se o núcleo da história que dará um novo sentido à sua vida, enquanto que a sua ajuda e influência acabam por mudar o rumo das vidas das pessoas que a rodeiam.
Vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro e Palma de Ouro de Melhor Director no Festival de Cannes de 1999, “Tudo sobre minha Mãe” é uma obra por vezes bizarra, tocante, chocante, mas muito interessante. Mergulhar no universo de Pedro Almodóvar parece significar entrar na própria realidade da sociedade contemporânea, conhecendo muitos dos problemas e limites à condição humana. Exibe-nos a história de várias actrizes que vivem constantemente numa situação de dupla representação, no palco e na vida real, sujeitas a simular e dissimular sentidos para viver e sobreviver.
O nome original do filme é uma homenagem de Pedro Almodóvar ao filme All About Eve (em português, A Malvada), do realizador Joseph L. Mankiewicz, de 1950. Relembro uma frase dita pela personagem Agrado que me ficou na cabeça: “Uma pessoa é tanto mais autentica quanto mais se parece com aquilo que sempre sonhou para si mesma".
“Todo Sobre Mi Madre” tem o invulgar atributo de nos desvendar situações aparentemente surreais, que estão indiscriminadamente mais presentes na nossa vida do que aquilo que imaginamos.
autor: André Silva
terça-feira, março 17, 2009
Brief Encounter - Crítica
Uma estação de comboios no norte de Inglaterra. Um comboio, movido a vapor, parece passar mesmo em frente ao espectador; momentos depois, outro atravessa a plataforma na direcção contrária. Nenhum teve tempo de parar, mas por um fugaz momento, despercebido, eles encontram-se. A sequência que dá título à fita concentra o simples enredo deste filme, em que duas pessoas encontram inesperadamente o seu grande amor, apenas para descobrir que as suas vidas caminham em sentidos opostos. Laura (Celia Johnson) e Alec (Trevor Howard) são casados – com outras pessoas. O seu jovem amor permanece tão incompleto como a sua existência quotidiana, à qual retornarão após o seu romance proibido.
Apesar de a história não ir muito para além disto, muitos ainda consideram este clássico britânico o maior filme romântico alguma vez feito – uma espécie de “Casablanca” sem Casablanca, uma trágica narrativa amorosa sem os Nazis, a Resistência ou a Guerra. Os protagonistas não são estrelas, mas são profundamente convincentes nos seus papéis. Ela é uma vulgar dona de casa que nunca poderia ter imaginado tal situação; ele é médico, decente, meigo. Até os mais pacatos cidadãos de classe média têm direito a um drama a sério.
O quarto filme de David Lean agarra numa história banal e transforma-a numa experiência intensa. A película é baseada em “Still Life”, uma peça de um acto escrita em 1936 por Noël Coward. Por ter sido originalmente pensada para teatro, toda a acção se desenrola numa loja de chás em Milford Junction, onde Laura e Alec inicialmente se encontram. Em colaboração com Lean, Coward expandiu a história. O casal encontra-se uma vez por semana, sistema ditado pelo horário do comboio. Vão ao cinema, passeiam, e juntam-se secretamente no apartamento de um amigo. E depois de cada vez, Laura regressa a casa, aos seus filhos e ao seu preocupado mas aborrecido marido, Fred (Cyril Raymond). Fred adora fazer palavras cruzadas, e uma vez, a palavra “romance” cruza-se com a palavra “delírio”. Laura conhece este tipo de delírio, desde os primeiros momentos de selvagem alegria até à consciência opressora do perigo, culpa e desonestidade. Ela nunca poderia contar a Fred sobre o seu affair, embora não desejasse mais nada: “It’s awfully easy to lie when you know that you’re trusted implicitly. So very easy, and so very degrading”.
O monólogo interior de Laura, a sua muda confissão ao marido, compensam em emoção a ausência de espectacularidade das imagens - nunca vemos mais do que um beijo. A audiência já está avisada do trágico final, antecipado pela voz trémula de Laura, pois o filme começa com os últimos dolorosos momentos, antes de o apito do comboio os separar para sempre. Este inteligente truque dramatúrgico é um dos instrumentos favoritos de Lean: voltou a usá-lo em “Lawrence da Arábia” (1962), quando o protagonista morre na cena inicial. Embora pudéssemos esperar que tal fosse distanciar o espectador dos eventos subsequentes, acontece o oposto: somos conduzidos directamente ao coração do drama, à confusão mental de Laura, e à compreensão de que esta oportunidade perdida irá assombrá-la até ao fim dos seus dias. Esta divisão é também expressada através de uma incongruência estilística deliberada: Brief Encounter é um filme noir romântico, filmado em locais inóspitos como a estação de comboios, pouco iluminada e obscurecida pelo vapor das carruagens que partem – um dos motifs preferidos de Lean. O elemento romântico consiste quase exclusivamente no Segundo Concerto para Piano, de Rachmaninov, ponto alto da banda sonora. Nem todos sucumbirão a esta perfeita simbiose entre som e imagem, dissolvendo-se em lágrimas; de facto, a luta devastadora de Laura com a sua consciência tem sido parodiada quase tanto como a cena do aeroporto em “Casablanca”. Mas David Lean tomou a decisão certa ao localizar esta história entre guerras. Apenas a Segunda Guerra propiciou a evolução social e moral que tornou o adultério tão-somente equacionável para a maioria das pessoas. Para Alec e Laura, foi tarde demais.
Apesar de a história não ir muito para além disto, muitos ainda consideram este clássico britânico o maior filme romântico alguma vez feito – uma espécie de “Casablanca” sem Casablanca, uma trágica narrativa amorosa sem os Nazis, a Resistência ou a Guerra. Os protagonistas não são estrelas, mas são profundamente convincentes nos seus papéis. Ela é uma vulgar dona de casa que nunca poderia ter imaginado tal situação; ele é médico, decente, meigo. Até os mais pacatos cidadãos de classe média têm direito a um drama a sério.
O quarto filme de David Lean agarra numa história banal e transforma-a numa experiência intensa. A película é baseada em “Still Life”, uma peça de um acto escrita em 1936 por Noël Coward. Por ter sido originalmente pensada para teatro, toda a acção se desenrola numa loja de chás em Milford Junction, onde Laura e Alec inicialmente se encontram. Em colaboração com Lean, Coward expandiu a história. O casal encontra-se uma vez por semana, sistema ditado pelo horário do comboio. Vão ao cinema, passeiam, e juntam-se secretamente no apartamento de um amigo. E depois de cada vez, Laura regressa a casa, aos seus filhos e ao seu preocupado mas aborrecido marido, Fred (Cyril Raymond). Fred adora fazer palavras cruzadas, e uma vez, a palavra “romance” cruza-se com a palavra “delírio”. Laura conhece este tipo de delírio, desde os primeiros momentos de selvagem alegria até à consciência opressora do perigo, culpa e desonestidade. Ela nunca poderia contar a Fred sobre o seu affair, embora não desejasse mais nada: “It’s awfully easy to lie when you know that you’re trusted implicitly. So very easy, and so very degrading”.
O monólogo interior de Laura, a sua muda confissão ao marido, compensam em emoção a ausência de espectacularidade das imagens - nunca vemos mais do que um beijo. A audiência já está avisada do trágico final, antecipado pela voz trémula de Laura, pois o filme começa com os últimos dolorosos momentos, antes de o apito do comboio os separar para sempre. Este inteligente truque dramatúrgico é um dos instrumentos favoritos de Lean: voltou a usá-lo em “Lawrence da Arábia” (1962), quando o protagonista morre na cena inicial. Embora pudéssemos esperar que tal fosse distanciar o espectador dos eventos subsequentes, acontece o oposto: somos conduzidos directamente ao coração do drama, à confusão mental de Laura, e à compreensão de que esta oportunidade perdida irá assombrá-la até ao fim dos seus dias. Esta divisão é também expressada através de uma incongruência estilística deliberada: Brief Encounter é um filme noir romântico, filmado em locais inóspitos como a estação de comboios, pouco iluminada e obscurecida pelo vapor das carruagens que partem – um dos motifs preferidos de Lean. O elemento romântico consiste quase exclusivamente no Segundo Concerto para Piano, de Rachmaninov, ponto alto da banda sonora. Nem todos sucumbirão a esta perfeita simbiose entre som e imagem, dissolvendo-se em lágrimas; de facto, a luta devastadora de Laura com a sua consciência tem sido parodiada quase tanto como a cena do aeroporto em “Casablanca”. Mas David Lean tomou a decisão certa ao localizar esta história entre guerras. Apenas a Segunda Guerra propiciou a evolução social e moral que tornou o adultério tão-somente equacionável para a maioria das pessoas. Para Alec e Laura, foi tarde demais.
sexta-feira, março 13, 2009
quarta-feira, março 11, 2009
Mean Streets por André Silva
Realizado por Martin Scorsese em 1973, Mean Streets ou “Caminhos Perigosos” conta-nos a história de quatro amigos: Charlie (Harvey Keitel), sobrinho de um mafioso local que tenta obter algum tipo de perdão pelos seus pecados, mas como afirma e bem um belo principio, os pecados são pagos não na Igreja mas verdadeiramente nas ruas e em casa, Johnny Boy (Robert de Niro), personagem com o vicio do jogo e que o leva a ficar a enormes quantidades de dividas, Tony (David Proval), proprietário de um bar, mítico local que serve de ponto de encontro do grupo, e Michael (Richard Romanus), um típico contrabandista americano da década de 70.
“Caminhos perigosos”, titulo possivelmente influenciado pela eterna procura da harmonia num clima complicado, onde se seguem caminhos nem sempre os mais adequados, para completar um único objectivo: Sobreviver.
Além disso, foi a primeira parceria do jovem actor Robert de Niro com o realizador, facto que se repete em mais sete filmes. Muitas vezes anunciado como o primeiro filme de Scorsese, é verdadeiramente o seu terceiro trabalho, com os anteriores “Whos That Knocking at My Door” e “Boxcar Bertha”. Obra-prima que fez aumentar o nível da crítica, “ Mean Streets” é claramente autobiográfico, uma vez que a história tem por base as vivencias e experiencias do autor, enquanto jovem que vivia no bairro de Litle Italy. Um drama muito original e especialmente fresco para a época onde foi apresentado, sobre a violência e actividades criminosas no bairro nova-iorquino.
Primeiro da pretensa trilogia cinematográfica ítalo-americana, já encontramos aqui inícios das temáticas mais tratadas no trabalho do realizador: culpa, fé, religião, violência, redenção, pecado, e conflitos sentimentais humanos. Ao que parece filmado com baixíssimos recursos, e nuns surpreendentes 24 dias e 24 noites, encontramos uma fantástica e rara técnica que a meu ver foi muito bem utilizada, a improvisação. “Mean Streets” significou um sério aviso ao público mundial, para o brilhante futuro de Martin Scorsese. Sem duvida uma obra forte e violenta na forma como nos é apresentada uma parte da sociedade americana, mas sem aquela paixão que por vezes sentimos. Na minha opinião, um drama que marca mas que não impressiona.
autor: André Silva
“Caminhos perigosos”, titulo possivelmente influenciado pela eterna procura da harmonia num clima complicado, onde se seguem caminhos nem sempre os mais adequados, para completar um único objectivo: Sobreviver.
Além disso, foi a primeira parceria do jovem actor Robert de Niro com o realizador, facto que se repete em mais sete filmes. Muitas vezes anunciado como o primeiro filme de Scorsese, é verdadeiramente o seu terceiro trabalho, com os anteriores “Whos That Knocking at My Door” e “Boxcar Bertha”. Obra-prima que fez aumentar o nível da crítica, “ Mean Streets” é claramente autobiográfico, uma vez que a história tem por base as vivencias e experiencias do autor, enquanto jovem que vivia no bairro de Litle Italy. Um drama muito original e especialmente fresco para a época onde foi apresentado, sobre a violência e actividades criminosas no bairro nova-iorquino.
Primeiro da pretensa trilogia cinematográfica ítalo-americana, já encontramos aqui inícios das temáticas mais tratadas no trabalho do realizador: culpa, fé, religião, violência, redenção, pecado, e conflitos sentimentais humanos. Ao que parece filmado com baixíssimos recursos, e nuns surpreendentes 24 dias e 24 noites, encontramos uma fantástica e rara técnica que a meu ver foi muito bem utilizada, a improvisação. “Mean Streets” significou um sério aviso ao público mundial, para o brilhante futuro de Martin Scorsese. Sem duvida uma obra forte e violenta na forma como nos é apresentada uma parte da sociedade americana, mas sem aquela paixão que por vezes sentimos. Na minha opinião, um drama que marca mas que não impressiona.
autor: André Silva
atentado
guilherme silva, a.k.a., segundo algumas considerações ditas em surdina, líder, acabou de sobreviver a um atentado. o método usado já ofereceu frutos no passado: uma cadeira sabotada.
guilherme silva sobreviveu incólume e, em conferência de imprensa, anunciou:
- não será com estes actos nada demoplenariocráticos, perfeitamente esdrúxulos, que abalarão a minha simpatia para com Butch Cassidy e Sundance Kid.
guilherme silva, logo que recomposto, consubstanciará a vingança já pensada.
guilherme silva sobreviveu incólume e, em conferência de imprensa, anunciou:
- não será com estes actos nada demoplenariocráticos, perfeitamente esdrúxulos, que abalarão a minha simpatia para com Butch Cassidy e Sundance Kid.
guilherme silva, logo que recomposto, consubstanciará a vingança já pensada.
terça-feira, março 10, 2009
Butch Cassidy and the Sundance Kid - Crítica
Quando pensava já ter visto de tudo, acabei surpreendido com o que menos esperava, um western. O mais bem disposto western de todos os tempos, quero acreditar.
'Butch Cassidy and the Sundance Kid' recriou todo este velho estilo de cinema americano, tornando-o mais leve, acessível, mas nem por isso menos bem conseguido, cativante e sublime.
À data da sua estreia, em 1969, este filme teve um enorme sucesso, arrecadando um vasto leque das mais variadas críticas. Enquanto uns o acusam de ter desvirtuado parte da história e cultura norte-americana, outros intitulavam-no de inovadora obra-prima. Os últimos vingaram…
Com a realização a cargo do George Roy Hill, este moderno western mostra todo um extenso rol de inovações, temáticas e técnicas. Agora, os cowboys não mais são sisudos forasteiros, sem amigos ou outros sonhos que não roubar e pilhar, sendo retratados como mais afáveis, descontraídas e imperfeitas personagens. Mais humanos.
As marcantes interpretações de Paul Newman e Robert Redford, à altura já ícones vivos do cinema norte-americano, muito pesam nesta inesperada reviravolta no género western. A amizade com traços de irmandade que os dois cultivavam na vida real “escorreu” para o grande ecrã, resultando numa perfeita simbiose de interpretações. Dá prazer vê-los juntos a roubar bancos e fugir ás autoridades. A sério que dá.
Um inesperado e inteligente humor acompanha as duas personagens ao longo de todo o filme, e tende a aproximar o espectador de todo o enredo e aventura, ao contrário do habitual western, sempre “gelado” nos mais inóspitos desertos do Velho Oeste.
Como disse, também os amantes da técnica cinematográfica rejubilaram com o filme. Todo ele demonstra uma incansável minúcia na prossecução da inovação técnica. Planos inovadores, tratamentos de cor até então sem comparação, e o virtuoso usufruto das funcionalidades dos aparelhos de captação de imagem, tudo isto foi conseguido sob a direcção de George Roy Hill. A Academia a isto não ficou indiferente, e entre os quatro Óscares atribuídos a 'Butch Cassidy and the Sundance Kid' figurava o de Melhor Fotografia.
Ainda hoje este filme é considerado uma obra exemplar do género western, e uma inesperada incursão pelo mundo da comédia.
Ainda hoje este filme é homenageado anualmente através do festival de Sundance, presidido por Robert Redford, cujo nome advém da personagem deste no filme.
Ainda hoje milhões relembram o falecido Paul Newman como o terno e sorridente Butch Cassidy.
Guilherme Silva
'Butch Cassidy and the Sundance Kid' recriou todo este velho estilo de cinema americano, tornando-o mais leve, acessível, mas nem por isso menos bem conseguido, cativante e sublime.
À data da sua estreia, em 1969, este filme teve um enorme sucesso, arrecadando um vasto leque das mais variadas críticas. Enquanto uns o acusam de ter desvirtuado parte da história e cultura norte-americana, outros intitulavam-no de inovadora obra-prima. Os últimos vingaram…
Com a realização a cargo do George Roy Hill, este moderno western mostra todo um extenso rol de inovações, temáticas e técnicas. Agora, os cowboys não mais são sisudos forasteiros, sem amigos ou outros sonhos que não roubar e pilhar, sendo retratados como mais afáveis, descontraídas e imperfeitas personagens. Mais humanos.
As marcantes interpretações de Paul Newman e Robert Redford, à altura já ícones vivos do cinema norte-americano, muito pesam nesta inesperada reviravolta no género western. A amizade com traços de irmandade que os dois cultivavam na vida real “escorreu” para o grande ecrã, resultando numa perfeita simbiose de interpretações. Dá prazer vê-los juntos a roubar bancos e fugir ás autoridades. A sério que dá.
Um inesperado e inteligente humor acompanha as duas personagens ao longo de todo o filme, e tende a aproximar o espectador de todo o enredo e aventura, ao contrário do habitual western, sempre “gelado” nos mais inóspitos desertos do Velho Oeste.
Como disse, também os amantes da técnica cinematográfica rejubilaram com o filme. Todo ele demonstra uma incansável minúcia na prossecução da inovação técnica. Planos inovadores, tratamentos de cor até então sem comparação, e o virtuoso usufruto das funcionalidades dos aparelhos de captação de imagem, tudo isto foi conseguido sob a direcção de George Roy Hill. A Academia a isto não ficou indiferente, e entre os quatro Óscares atribuídos a 'Butch Cassidy and the Sundance Kid' figurava o de Melhor Fotografia.
Ainda hoje este filme é considerado uma obra exemplar do género western, e uma inesperada incursão pelo mundo da comédia.
Ainda hoje este filme é homenageado anualmente através do festival de Sundance, presidido por Robert Redford, cujo nome advém da personagem deste no filme.
Ainda hoje milhões relembram o falecido Paul Newman como o terno e sorridente Butch Cassidy.
Guilherme Silva
segunda-feira, março 09, 2009
10 Março - Butch Cassidy & the Sundance Kid
sábado, março 07, 2009
Hable con Ella por André Silva

Apaixonante! Assim posso classificar esta obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, realizada em 2002. Neste belo filme, a alma feminina é apresentada através do amor profundo de dois homens que, inconformados com a morte cerebral das suas paixões, conversam com elas, acreditando que assim as trarão de volta à vida. Um filme que nos convida, entre sedução e sussurros, a descobrir cada pormenor da própria película em vez de sermos invadidos por conceitos e definições humanas. Simples, genuína, humana, assim é a obra do realizador, que foge ao popular misticismo e cinema ficção a que “infelizmente” estamos habituados. O ponto central do filme é justamente a mulher, vista através do olhar masculino, que leva o espectador a entrar num processo de dramaticidade, culminando num limite extremo, que é o surpreendente fim do filme. Sem duvida um belo filme que, tal como na vida, aborda personagens complexas e relações peculiares, com sentimentos que vão do amor ao desespero, tocando em géneros como o drama, mas também onde se encontram traços de comédia. Onde, a certa altura uma das personagens faz alusão à ideia do feminino emergir do masculino. Uma referência à homenagem de Almodóvar ao cinema mudo, realizada através da introdução de uma cena muda algo surrealista ("Amante menguante") com a lindíssima actriz espanhola Paz Vega, paixão partilhada por duas das personagens, Alicia e Benigno. Quanto à banda sonora, uns parabéns bem merecidos. Musica muito adequada, necessária e impecavelmente relacionada com momentos chave da história. Cena especialmente fantástica com a participação musical do cantor brasileiro Caetano Veloso, com a arrepiante “Cucurrucucu Paloma”. Formidáveis actores, com particular destaque para Javier Camára que interpreta o emotivo Benigno.
Almodóvar aprofunda o conceito de loucura neste filme, uma loucura que se confunde com a normalidade, conferindo mesmo, paradoxalmente, mais encanto a esses seres humanos. Existe uma complexa ligação entre o patológico (Benigno: perverso, violador, "psicopata") e a dita normalidade que se traduz na sensibilidade e na dedicação do mesmo ao seu grande amor, Alicia. Uma loucura que vive paredes-meias e está mesmo na origem dos sentimentos mais autênticos.
A obra de Pedro Almodóvar revela-se comovente, numa técnica própria, e incitando a uma intima relação com o espectador, algo que me surpreendeu bastante. Neste filme, como o título sugere, importa falar (hablar). Não com todas as pessoas, mas nomeadamente com elas, Mulheres. O principal ponto é de facto um convite por excelência a falar (hable): Fale! Baseando-se no princípio que a palavra e a linguagem produz efeitos terapêuticos, o realizador transporta-nos para a necessária dimensão humana onde a comunicação assume um papel fundamental dentro da sociedade. Uma obra que nos faz reflectir….
autor: André Silva
terça-feira, março 03, 2009
Cineclube 2º Semestre
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