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terça-feira, novembro 09, 2010

Crítica "The Last Picture Show"

CINECLUBE FDUP 4ª SESSÃO 9 NOVEMBRO 2010:
“The Last Picture Show” (1971), de Peter Bogdanovich.

Crítica por: Francisco Noronha

Sam: Being crazy about a woman (…) is always the right thing to do. Being an old decrepit bag of bones, that's what's ridiculous. Gettin' old.

Nomeado para oito Óscares e vencedor de dois (melhor actor secundário masculino para Ben Johnson e melhor actriz secundária feminina para Cloris Leachman), chega-nos um filme de um realizador que ainda há pouco tempo foi motivo de uma retrospectiva profunda na Cinemateca.



O facto de The Last Picture Show começar e acabar da mesmíssima forma é tudo menos coincidência. A abrir e a fechar o filme, a câmara lenta e panorâmica de Peter Bogdanovich filma uma pequena localidade isolada e árida do Texas onde o único ruído que nos chega (e que nos acompanhará por todo o tempo) vem do assobio desolado de um vento incessante e teimoso. Este facto é tudo menos coincindência, dizia, porque ele nos quer dizer que entre o início e o fim da fita nada mudou – nada muda nunca - , simbolizando assim de forma profundamente poética a imutabilidade das coisas e a natureza cíclica da vida humana.



The Last Picture Show é um filme “total”, no sentido da completude com que aborda os problemas dos homens na sua transversalidade, isto é, desde os seus primeiros passos (juventude) até ao seu último suspiro (velhice). Este tenso dualismo, inarredável à vida humana (basta para isso pensarmos no mito do elixir da eterna juventude), é, em bom rigor, o dualismo omnipresente em The Last Picture Show.
Servindo-se de personagens-tipo sabiamente trabalhadas, o filme tem como pano de fundo o universal confronto entre velhos e novos, ou, por outras palavras, entre aqueles para quem o que a vida tem de bom já foi gozado e as desilusões da vida pouco auguram de positivo para o tempo que resta; e os que, do lado oposto, se começam a atirar de cabeça em busca de novas experiências e sensações (o coming of age, em bom inglês). E neste último particular, o filme é muitíssimo audacioso para época ao abordar (e filmar) de frente a Sexualidade, quebrando, desfazendo, trucidando tabus e grilhetas.
Interrogando-se profundamente sobre a moral cristã e suas idiossincrasias (o mesmo é dizer, e suas transgressões pelos comuns mortais), o filme acaba por constituir uma síntese do que foi a onda de contestação lançada pela contracultura norte-americana (mais tarde difundida por todo o mundo) nos anos 50 e 60. Não o faz abertamente, explicitamente, filmando hippies ou anarquistas, mas de uma forma muito mais bela e subtil – ou não fosse esse o poder simbólico e imagético que a arte tem de sugerir sem impor. Fá-lo, portanto, quando capta os pormenores que no interior do Texas, mas também no resto do mundo (a ideia de que esta pequena cidade pode ser o espelho de uma mudança à escala global – o universal como “o local sem muros”, na expressão feliz de Miguel Torga), começam a abanar o sistema de códigos e valores ocidentais conservadores da segunda metade do século XX.
E neste ponto é exemplar o destaque dado à descoberta da Sexualidade pelos jovens, expresso, nomeadamente, na mistificação da virgindade; na apologia da (falsa) mulher púdica, sublimemente representada por Jacy (Cybill Shepherd parece que é iluminada por fonte divina em cada close-up sobre o seu rosto, ao que ajuda a sua beleza extraordinária); na crítica do casamento monogâmico cristão (“80% dos casamentos são infelizes”, diz o velho Sam) e na constatação do adultério e da prostituição; na (suposta) virilidade do macho, etc..



Mas The Last Picture Show não seria um filme “total” se se ficasse pela Sexualidade ou pela provocação a todo um sistema de valores prestes a implodir. Onde fica então o Amor (querem tema mais “total” e universal do que este?) de velhos e novos no meio de tudo isto?
É aqui que os mais velhos, os outrora “sábios” – os mesmos que nas nossas sociedades modernas perderam essa qualidade para ganhar a de estorvos ou empecilhos - , a quem Bogdanovich mostra o seu respeito e admiração, têm lições para nos dar. É com Sam the Lion (interpretação soberba de Ben Johnson) que nos sentamos à beira-rio para aprender o que é o Amor; e é com Ruth (outra interpretação fabulosa de Cloris Leachman), uma mulher infeliz com o seu casamento, e com Lois Farrow (mãe de Jacy), uma quarentona entediada e promíscua, que aprendemos o que ele não é.



Mas “o tempo está é para os jovens”, como diz o adágio, e por isso é em torno do adolescente Sonny que o filme girará, mostrando-nos os seus amigos e os locais que frequenta. Sonny é verdadeiramente a peça-chave de The Last Picture Show, uma vez que ele representa na perfeição a inércia e o desalento daquela terra e suas gentes. É perceptível como Sonny vive num dilema constante entre o partir na busca de novos horizontes, e o ficar no local onde sempre viveu - e nisto reside o segundo dualismo, a segunda tensão omnipresente do filme.
E é uma peça-chave porque, à semelhança de quase todas as personagens de relevo neste filme (Sam, Duane, Jacy, Lois, Ruth), ele não está bem naquela cidade: cada um à sua maneira, todos estão entediados e vivem um ram-ram diário desapaixonado. Para todos eles, aquela cidade é demasiada pequena para os seus sonhos e espíritos. Com a excepção de Duane (cuja destino de partida é como que uma última ou única alternativa – e a alternativa que Bogdanovich apresenta não é inocente), todos estão, por obra e graça desse vento teimoso, condenados a ficar – mesmo Sam e Jacy, quando iniciam uma infantil fuga, são parados uns poucos quilómetros depois….
A última sessão (fazendo jus ao título do filme) do cinema da cidade a que Duane e Sonny vão (e vão para se despedir duplamente: um do outro e os dois do cinema) é, uma vez mais, uma representação poética e comovente do que separa Duane e Sonny: o partir do primeiro e o ficar do segundo.
Diz-nos (elucida-nos) o cowboy que é hora de partir: Take them to Missouri!. E é neste momento, muito bonito por sinal, que Duane olha timidamente de lado para Sonny, como que lhe perguntando o porquê de se separarem, o porquê de… ficar.



“Tudo o vento levou” é um lugar-comum que é aqui de aplicação obrigatória: o vento que Bogdanovich repetidamente filma é o vento que vai levando aos poucos todos as pessoas queridas de Sonny. E é nessa solidão e melancolia extremas que, um pouco à semelhança de Viaggio in Italia (1951), de Roberto Rosselini, se dá o milagre: velhos e novos, ambos sozinhos, ambos desesperançados, entregam-se mutuamente numa comunhão urgente e vital. Há quem lhe chame… fado.

sábado, março 20, 2010

Dias Selvagens (crítica)

Entretanto lembrei-me que já escrevi um breve comentário sobre Days of Being Wild. Por isso mesmo, por não andar com muito tempo, e ainda porque o Pedro Ramires (que apresentou o filme) também escreveu algo sobre o filme (originalmente aqui), creio que se dispensa bem o meu contributo. Fica então o do Pedro.


"Dias Selvagens é o segundo filme de Wong Kar-Wai e, como todos os filmes de Wong Kar-Wai, é dolorosamente bonito.
Este filme passa-se entre Hong-Kong e as Filipinas e é sobre Yuddy, e Yuddy vive como um pássaro selvagem; um pássaro ferido que faz da sua passagem pela vida o mesmo que um furacão: gera e abandona destroços moribundos à sua volta. É contra a sua natureza abrandar, reflectir, reparar os danos; e ao longo do filme, os ponteiros dos inúmeros relógios sempre presentes, e os seus tiquetaques ansiosos relembram-nos tanto a passagem irredutível do tempo como o crescente desespero do seu coração.
Mas se a passagem do tempo, e a crescente desesperança a ele inerente está sempre espectralmente presente ao longo do filme, Kar-Wai também constrói, filma e capta com extraordinária subtileza ambientes intimistas, poéticos, ferozes, em harmonia perfeita com o estado de espírito dos que neles vivem. Hong-Kong aparece assim como um conjunto de sombras, becos sem saída, ruas tortuosas, frias; um ambiente melancólico provocado pela civilização que só é totalmente percebido nos acordes das guitarras dos Índios Tabajaras.
É lá que Yuddy vive com a mãe adoptiva, Rebecca, que rejeita revelar-lhe a identidade da mãe biológica porque sabe que ele iniciará a sua busca e, pior do que abandonar Rebecca, a esquecerá. Yuddy ao longo do filme rejeita e magoa as mulheres com quem se relaciona por vingança – da mãe biológica, que o abandonou, e da mãe adoptiva, que lhe revelou a condição (de adoptado) mas lhe sonegou a identidade daquela.
A primeira amante de Yuddy, Li, é também a mulher que ele mais amará. É com ela que, logo no início do filme – um início maravilhoso –, ele fixa um minuto no tempo, um minuto que será só deles e do qual eles estarão a cada segundo mais distantes. Aquando abandonada, a fragilidade nostálgica desta mulher, perturbantemente bonita, faz-nos pensar que irá quebrar; mas tal, nunca acontece – a ternura de um sorumbático polícia evita-o, e ela volta a suportar a ausência do homem que não esquece.
O mesmo sucederá com a segunda mulher, Mimi, também ela amada e abandonada. Mimi, porém, não se resigna ao afastamento, e usará o interesse que produz num jovem amigo de Yuddy para iniciar a inconsequente procura deste. Kar-Wai antecipa-nos isso no fim de uma prodigiosa cena: quando Yuddy deixa Mimi, esta vai ao encontro de Li – na procura de Yuddy – e, depois de uma desesperada discussão, vemos Li de pé à frente de um portão gradeado, que ultrapassou, e Mimi por detrás de uma rede, incapaz de a largar.
Yuddy abandona Mimi quando Rebecca (a mãe adoptiva), prestes a partir com um jovem amante, revela a Yuddy a identidade da sua mãe biológica. É então que Yuddy inicia a sua fatal viagem às Filipinas, onde nova rejeição por parte da mãe biológica, e todo o vazio que se abre com tal rejeição, o vai levar à conclusão da espiral auto-destrutiva que foi a sua vida; ou, melhor, a descobrir que nunca viveu, “pois estava morto desde o início”.
Sempre percorrido pelo desalento, pela desventura, pela perda, o filme termina com uma sequência tanto fabulosa como curiosa: câmara-fixa, vemos um jovem (que aparece pela primeira vez no filme), no seu quarto, enquanto meticolosamente se apruma (presumivelmente) para um encontro. Esta espantosa sequência continua em In the mood for love e 2046, esses filmes perfeitos onde a beleza é intoleravelmente asfixiante".

quinta-feira, outubro 01, 2009

"La Notte" - crítica



CINECLUBE FDUP 1/10/2009

La Notte (1961), de Michelangelo Antonioni
Por: Francisco Noronha

G: Sei o que escrever, mas não como. Estou em crise.
V: És um homem fraco. Eu gosto de festas, (…).
G: Não gostas de mais nada?
V: Sim, de tudo.


Talvez não seja habitual (ou mesmo conveniente…) começar um apontamento cinematográfico referindo um excerto daquelas sinopses que acompanham a contra-capa de uma caixa de um filme. Pois bem, seja-me permitida a audácia:
“Uma análise fria de sentimentos mistos num mundo de tensão crescente entre pessoas ao mesmo tempo tristes e felizes e o modo como convivem entre si”.
A audácia não é gratuita ou despicienda, claro. A citação acima sintetiza, de facto, o que Antonioni transporta de humano para o cinema com La Notte: pessoas emocionalmente intermitentes e seu relacionamento. A expressão “ao mesmo tempo” é muito importante: em toda a fita, o olhar de Antonioni incide sobre essa convivência contemporânea problemática mas, simultaneamente, tão natural. Para o caso, tão insuportavelmente natural.
Marcello Mastroiani (um ano depois de La Dolce Vita, diga-se por curiosidade) e Jeanne Moreau interpretam um casal cinzento em crise, (sobre) vivendo numa Milão também ela cinzenta. Uma Milão arquitectonicamente modelada por fachadas gigantescas que acentuam a pequenez e fragilidade das personagens – dos vários planos em que esta ideia nos é transmitida, há um, especialmente preciso, em que Lidia (Jeanne Moreau) é filmada num plano picado junto a um enorme frontão cuja alvura como que a ofusca. A isto se junta um tratamento de imagem cuja coloração (preto e branco) é particularmente arguta no que de deprimente e abafado imprime às personagens e aos espaços físicos em que elas se movem.
Voltando ao casal: é em torno dele que gira a história de La Notte. Afinal de contas, uma história bem simples: um dia (ou um pouco mais do que isso…) na vida de um casal em fim de linha. Será (só) isto? Bem, para já, será. Acompanhamos então Giovanni, escritor afamado, e Lidia, sua esposa e mulher de espírito, mais do que perturbado, perturbante. Ao longo do dia acompanharemos as suas deambulações, intercaladas com uma incursão solitária de Lídia pelas ruas de Milão. É especialmente nesta incursão, e nas diferentes situações que esta “fotografa”, que nos deixamos levar pela angústia de Lidia – seja com a criança que chora, o relógio estilhaçado, a cena de violência ou, mais libertador, o lançamento dos foguetes. Em todas elas, contudo, um traço é dominante: o rápido desapego de Lídia a tudo o que assiste ou conhece, motivado por um desespero interior de base.
Terá este casal uma segunda oportunidade? Pois bem, isso será desvendado justamente pela noite, momento onde Antonioni tão bem ilustra o contraste que esta pode sugerir: de um lado a animação, a magia e a sexualidade; do outro lado a solidão, a melancolia e a falta de respostas para as nossas inquietações mais profundas. E é então, à noite, no fausto de uma festa da burguesia italiana, que Giovanni e Lidia, cada um com o seu flirt de ocasião (bem mais interessante o de Giovanni), irão colocar à prova a sua relação (e a relação com a sua própria consciência). Não arriscarei muito se disser que não é a despropósito que a Mulher sai daqui um pouco santificada…
A noite dá lugar ao dia. E nessa transição há um momento fundamental para este casal e para o filme no conjunto: a madrugada. Momento híbrido mas redentor; obscuro mas apaziguador. Parece ser esta mesma madrugada – também pela longa paisagem verde – que Antonioni vai repescar cinco anos mais tarde em Blow-Up.
Urso de Ouro em Berlim (1961) e muito jazz (cortesia de Giorgio Gaslini) são outros factores que abrilhantam este La Notte, considerado por muitos como elemento central de uma trilogia completada por L’avventura (1960) e L’eclisse (1962) ou também como leitmotiv inspirador do monumental Eyes Wide Shut (Kubrick, 1999).







quinta-feira, abril 16, 2009

La Chinoise

(ou "lá chinóise")


de Jean-Luc Godard

Creio nunca ter tido tanta dificuldade em fazer uma crítica a um filme como a este, de Godard. Porventura resultará isso da própria maneira como se estrutura: os planos (quase sempre) curtos sempre a sucederem-se fazendo apelo não à narrativa propriamente dita (que não é muito clara) mas a qualquer coisa de externo. Na verdade, fico com a ideia de que abordar o filme é abordar o maoísmo, a década de 70, o recurso à luta armada, a honestidade (ou não) dos estudantes que dizem querer construir um melhor mundo por aquela via.
A crítica que formulo é, pois, fiel espelho dessa percepção que retirei do filme: um filme cujo núcleo central parece estar fora daquilo que é filmado. De tal modo se apresenta enraizado na vida, “naquilo a que estamos habituados a ver”, que o espectador quase se sente como mais um para aquele grupo de estudantes. Sim, eles conversam sobre marxismo-leninismo, sobre a necessidade de “analisar” a vida social, sobre um grupo de temáticas que acabam sempre por girar à volta do livro vermelho. E nós estamos ali com eles, a ouvir, concordando ou discordando, embora incapazes de nos movermos no seio da história.

Falei, no primeiro parágrafo, do modo como o filme se estrutura, referindo os planos quase sempre curtos. Além disso (que rouba, desde logo, a continuidade à história), podem-se apontar os momentos em que se filma a própria rodagem do filme. La Chinoise move-se sempre nesse campo, o de “un filme en train de se faire”.
Assim, chega-se ao que já referi. É um filme diferente do habitual: não se distanciando puramente da nossa realidade – é algo que se está a fazer, ainda está do lado de cá – com ela também não se confunde, porque se passa no domínio da ficção. O que leva ao resultado de nunca nos evadirmos realmente do nosso mundo, contudo dele partindo. É um pouco confuso, sim, mas eu já reconheci que o filme me deixou em apuros…

Quanto à história, ou aos mosaicos sucessivamente colados, o que mais me impressiona (e já estamos, mais uma vez, a partir da história para fora dela…) é o modo como o grupo de estudante vai gradualmente fanatizando-se. A dada altura, parece que o objectivo já não é perseguir o que é certo, justo, mas, numa interpretação mais ou menos exegética de obras doutrinárias, perseguir o que para outros era certo ou justo. O que lhes leva a um consecutivo alheamento da realidade: a este propósito é interessante a quantidade de chavões que utilizam para falar do que quer que seja. Parece que se querem mover num mundo que desconhecem, nele tendo uma fé indizível. Rudemente poder-se-á dizer que a fé justifica-se pela promessa de que, no fim, todo o caminho terá valido a pena.
No entanto, perspectivei também algo mais, porventura motivado por considerações extra-la chinoise: a de que, mais do que o caminho, do que a esperança de que o maoísmo seja a solução para a prosperidade dos estados europeus, o que os move é poderem encontrar um ponto de apoio na terra, algo que lhes ofereça uma razão para viverem o dia-a-dia. E esse esforço mais ou menos caprichoso de encontrar um rumo é que justifica a fanatização: o fanático sabe (ou afirma saber), antes de mais, o rumo certo, que consome todos os disparates que pelo rumo faça. Os fins, nesta linha, naturalmente justificam os meios. E, no caso, jovens aparentemente da classe média-alta movem-se no paradoxo de negarem a sociedade que lhes dá razão de ser, que lhes permite um verão num apartamento a experimentarem uma doutrina política, reduzindo toda a realidade a ricos e pobres, ilustrados e ignorantes, bons e maus. E, nessa oposição de pretos e brancos, acabam por chegar a situações limites: um membro do grupo afasta-se, um suicida-se, cometem um acto terrorista. E tudo, mais do que actos conscientes, parece um grito de revolta. Porventura aquele que, menos de dois anos após o filme, se fez ouvir no Maio de 68. Só por isso, já vale a pena.

sexta-feira, abril 10, 2009

The Great Escape, por André Silva



Equipas de homens são organizadas para o planeamento, escavação, ocultação de solo, fabrico de roupas civis, falsificação de documentos, segurança e distracções, contrabando e procura de materiais, tudo com um único objectivo: a fuga de 250 prisioneiros de um campo de concentração nazi, através de vários túneis subterrâneos. “The Great Escape” é um filme produzido e dirigido em 1963 por John Sturges. Baseado num romance de Paul Brickhill, sobre uma tentativa de fuga de um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial por parte de um grupo de prisioneiros do grupo dos Aliados. Brickhill tinha sido um prisioneiro de guerra juntamente com o seu amigo George Harsh, contando no seu livro as suas próprias memórias e experiências. Estrelas como Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson, Donald Pleasence, James Coburn, David McCallum e James Donald iniciam neste filme as suas brilhantes carreiras no mundo do cinema.
Em 1944, os alemães têm uma especial prisão construída, projectada para assegurar que os mais problemáticos presos não conseguissem escapar, apesar dos vários esforços. Ao longo de três horas conhecemos uma multiplicidade de personagens que nos são apresentadas detalhadamente, provocando-nos uma qualquer ligação pessoal entre os prisioneiros e o próprio espectador. A abordagem do filme parece realçar a ideia de resistência do grupo, retratando a força e o triunfo do espírito humano.
O único aspecto que realmente posso referir como menos positivo é a duração do filme. Senti que o filme se prolongava demasiado ao longo de quase três horas. Apesar disso não consigo pensar em alguma cena que poderia ser retirada. A direcção, a fotografia e a edição musical contribuíram bastante para o sucesso desta obra. A história embora não incrivelmente profunda, é envolvente e inteligentemente bem escrita. Não fugindo muito do tema central da fuga da prisão, seduz pela pormenorizada descrição e exposição que é feita da vida dos prisioneiros que meticulosamente planeiam a árdua construção dos três túneis. Sturges consegue manter ao longo do filme uma agradável sensação de interesse e descoberta quanto ás vidas das personagens pessoalmente apresentadas anteriormente. Lendário ficará para sempre o salto de mota de Steve McQueen, como a ultima tentativa desesperada de fuga para a liberdade da Suiça.
“The Great Escape” tem uma peculiar capacidade de conseguir misturar uma emocionante história sobre a Segunda Guerra Mundial, com a horrível natureza dos inerentes custos de guerra. Interessante no modo como nos é apresentada a história, tradicional na maneira visual como o filme é realizado, mas com a certeza de ser um clássico a revisitar.

autor: André Silva

sexta-feira, março 27, 2009

M, por André Silva



“Who are you...all of you?...Criminals! Perhaps you're even proud of being able to break safes, to climb into buildings or cheat at cards...Things you could just as well keep your fingers off...But I...I can't help myself! I haven't any control over this evil thing that's inside me – the fire, the voices, the torment...I want to escape...but it's impossible.”
Hans Beckert

Alguém mata consequentemente crianças numa cidade alemã, sem que o criminoso seja encontrado pela polícia. Esta é a história que nos conta o realizador alemão Fritz Lang no filme “M” de 1931. Escrito pelo próprio Lang e pela sua mulher, The von Harbou, “M” é o primeiro filme sonoro alemão, apesar de já ter realizado diversos filmes anteriormente. Considerado como um drama-thriller, tornou-se num clássico do cinema, e das melhores obras de Lang. Importante obra durante a época da ascensão do Partido Nazi alemão, por fazer uma alusão à autoridade estadual e à necessidade de punição dos criminosos.
Supostamente baseado na vida real, no caso do serial killer Peter Kürten, o “ Vampiro de Düsseldorf ”, autor de vários crimes na década de 1920, não muito tempo antes deste filme ter sido realizado. Um fantástico filme noir alemão, onde não faltam diversos elementos que compõe o estilo noir: uma cidade escura com ruas desertas, ambientes instáveis, cânticos negros como por exemplo sobre o famoso “Bogeymen” e sobre assassinos, as patológicas paranóicas dos indivíduos e o clássico fatalismo a que estas obras nos habituaram. Através do contraste da iluminação, dos efeitos fortes, e dos grandes ângulos, Lang consegue sugerir-nos uma presença espiritual maléfica que paira sobre a cidade, e nos traduz uma sensação de perdição dos seus habitantes. “M” é mais do que uma paisagem sobre uma mente humana desequilibrada. Com o seu clima de terror palpável e a sua directa ligação à mentalidade da máfia alemã, esta obra desenha com uma assustadora precisão, os escuros contornos da sociedade nazi. Há um constante paralelismo entre a polícia e o submundo da máfia, e a forma como eles funcionam e se organizam. Típico de Fritz Lang, o filme vê a polícia e os criminosos de uma forma quase indistinguível.
Não há qualquer violência na tela, mas o sentimento de ameaça é insuportavelmente intenso e persegue o espectador durante todo o filme, especialmente quando o assassino assobia uma melodia musical ameaçadora. O filme contém duas sequências constantes; por um lado uma escala de diálogos, e por outro lado espaços de música e efeitos sonoros. Lang utilizou o som como se fosse um outro elemento visual, editando-o livremente. Inicialmente, o criminoso não é mostrado ao espectador, fazendo com que cada pessoa individual crie os detalhes e características do assassino, de acordo com a sua própria imaginação e criatividade. Destaque para o cativante desempenho de Peter Lorre, que interpreta o assassino Hans Beckert.
“M” é um dos filmes mais conhecidos de realizador Fritz Lang, e provavelmente a sua maior obra cinematográfica. Praticamente inventando o psicopata serial killer típico do cinema, “M” esteve bem à frente do seu tempo, tanto em termos de estilo como em termos de história, ao passar uma mensagem de protecção familiar ás mães daquela época. Visivelmente impressionado com os registos deste realizador, sem dúvida.

autor: André Silva

segunda-feira, março 23, 2009

Un Perro Andaluz, por André Silva



“Un Perro Andaluz” é uma curta-metragem muda de 17 minutos, escrita, produzida e dirigida por Luís Buñuel em 1929, com a colaboração de Salvador Dali. Considerado como o primeiro filme surrealista do cinema, “Un perro andaluz” teve como principal objectivo provocar um impacto moral no espectador, através de imagens agressivas. Remete constantemente ao sonho e à loucura, tanto nas imagens produzidas, como na não utilização de uma sequencia cronológica. Socialmente simbólica e vanguardista, esta obra é considerada como uma das mais famosas da história do cinema. A utilização de temas como a violência, a brutalidade e a sexualidade fizeram aumentar a polémica deste primeiro filme do realizador, precisamente devido à contrariedade à normalidade dos típicos filmes mudos da época. As ideias de Buñuel e Dali chocaram o público europeu ao romper com as formalidades cinematográficas do tempo, o tradicionalismo e o conservadorismo a que o período estava habituado. Servindo-se de imagens que oscilam entre o erótico, o assustador, o engraçado, o estranho, e o simbólico, “Un Perro Andaluz” foi escrito em apenas uma semana, seguindo apenas uma regra muito simples, a de não aceitar ideias ou imagens que pudessem dar lugar a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Para sempre imortalizada no cinema a imagem do corte do olho com uma navalha, esta obra nasceu da convergência dos sonhos de Buñuel e Dali. Obra de arte e do ensaio cinematográfico, “Un Perro Andaluz” é um filme de culto único, resultado da extraordinária imaginação de dois jovens na altura, Luís Buñuel com 29 anos e Dali com 25 anos, portadores de um singular talento. Por ultimo, como nos disse o jovem realizador Luís Buñuel: “Opino que una película, salvo que sirva sólo para pasar el rato, siempre debe defender y comunicar indirectamente la idea de que vivimos en un mundo brutal, hipòcrita e injusto. Y exactamente eso es lo que no suele hacer el cine”. Sem duvida uma obra muito interessante, recheada de misticismo e imaginação, que nos faz alargar os limites da própria criatividade humana.

autor: André Silva

quinta-feira, março 19, 2009

Todo sobre mi madre, por André Silva

Arrepiante é a palavra que encontro para descrever o trabalho do realizador Pedro Almodóvar. Neste minha demanda a ver algumas obras do cineasta espanhol, tenho sido invadido sempre pelo mesmo sentimento: uma simples e humana sensação de tristeza. Não só pelas histórias dramáticas que nos são apresentadas, mas também pela descomplexa forma como é traduzida a realidade social. Hoje apresento “Todo sobre mi madre”, produzido em 1999. Apesar de drama, encontramos rasgados traços de uma comédia leve e descomprometida, contributo do excelente desempenho das personagens femininas como Cicilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz e Antónia San.
Manuela, interpretada por Cicilia Roth, é uma enfermeira que mora sozinha com o filho, que acaba de festejar o seu 17º aniversário. No dia do aniversário, os dois vão assistir a um espectáculo de teatro, trazendo à memória do rapaz o objectivo de encontrar e conhecer o seu pai. Porém, a vida acaba para o filho de Manuela, consequência de um atropelamento mortal. Disposta a reencontrar o pai do rapaz e revelar-lhe toda a verdade, Manuela deixa o emprego e parte para Barcelona. A personagem acaba tornando-se o núcleo da história que dará um novo sentido à sua vida, enquanto que a sua ajuda e influência acabam por mudar o rumo das vidas das pessoas que a rodeiam.
Vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro e Palma de Ouro de Melhor Director no Festival de Cannes de 1999, “Tudo sobre minha Mãe” é uma obra por vezes bizarra, tocante, chocante, mas muito interessante. Mergulhar no universo de Pedro Almodóvar parece significar entrar na própria realidade da sociedade contemporânea, conhecendo muitos dos problemas e limites à condição humana. Exibe-nos a história de várias actrizes que vivem constantemente numa situação de dupla representação, no palco e na vida real, sujeitas a simular e dissimular sentidos para viver e sobreviver.
O nome original do filme é uma homenagem de Pedro Almodóvar ao filme All About Eve (em português, A Malvada), do realizador Joseph L. Mankiewicz, de 1950. Relembro uma frase dita pela personagem Agrado que me ficou na cabeça: “Uma pessoa é tanto mais autentica quanto mais se parece com aquilo que sempre sonhou para si mesma".
“Todo Sobre Mi Madre” tem o invulgar atributo de nos desvendar situações aparentemente surreais, que estão indiscriminadamente mais presentes na nossa vida do que aquilo que imaginamos.

autor: André Silva

quarta-feira, março 11, 2009

Mean Streets por André Silva

Realizado por Martin Scorsese em 1973, Mean Streets ou “Caminhos Perigosos” conta-nos a história de quatro amigos: Charlie (Harvey Keitel), sobrinho de um mafioso local que tenta obter algum tipo de perdão pelos seus pecados, mas como afirma e bem um belo principio, os pecados são pagos não na Igreja mas verdadeiramente nas ruas e em casa, Johnny Boy (Robert de Niro), personagem com o vicio do jogo e que o leva a ficar a enormes quantidades de dividas, Tony (David Proval), proprietário de um bar, mítico local que serve de ponto de encontro do grupo, e Michael (Richard Romanus), um típico contrabandista americano da década de 70.
“Caminhos perigosos”, titulo possivelmente influenciado pela eterna procura da harmonia num clima complicado, onde se seguem caminhos nem sempre os mais adequados, para completar um único objectivo: Sobreviver.
Além disso, foi a primeira parceria do jovem actor Robert de Niro com o realizador, facto que se repete em mais sete filmes. Muitas vezes anunciado como o primeiro filme de Scorsese, é verdadeiramente o seu terceiro trabalho, com os anteriores “Whos That Knocking at My Door” e “Boxcar Bertha”. Obra-prima que fez aumentar o nível da crítica, “ Mean Streets” é claramente autobiográfico, uma vez que a história tem por base as vivencias e experiencias do autor, enquanto jovem que vivia no bairro de Litle Italy. Um drama muito original e especialmente fresco para a época onde foi apresentado, sobre a violência e actividades criminosas no bairro nova-iorquino.
Primeiro da pretensa trilogia cinematográfica ítalo-americana, já encontramos aqui inícios das temáticas mais tratadas no trabalho do realizador: culpa, fé, religião, violência, redenção, pecado, e conflitos sentimentais humanos. Ao que parece filmado com baixíssimos recursos, e nuns surpreendentes 24 dias e 24 noites, encontramos uma fantástica e rara técnica que a meu ver foi muito bem utilizada, a improvisação. “Mean Streets” significou um sério aviso ao público mundial, para o brilhante futuro de Martin Scorsese. Sem duvida uma obra forte e violenta na forma como nos é apresentada uma parte da sociedade americana, mas sem aquela paixão que por vezes sentimos. Na minha opinião, um drama que marca mas que não impressiona.

autor: André Silva

sábado, março 07, 2009

Hable con Ella por André Silva




Apaixonante! Assim posso classificar esta obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, realizada em 2002. Neste belo filme, a alma feminina é apresentada através do amor profundo de dois homens que, inconformados com a morte cerebral das suas paixões, conversam com elas, acreditando que assim as trarão de volta à vida. Um filme que nos convida, entre sedução e sussurros, a descobrir cada pormenor da própria película em vez de sermos invadidos por conceitos e definições humanas. Simples, genuína, humana, assim é a obra do realizador, que foge ao popular misticismo e cinema ficção a que “infelizmente” estamos habituados. O ponto central do filme é justamente a mulher, vista através do olhar masculino, que leva o espectador a entrar num processo de dramaticidade, culminando num limite extremo, que é o surpreendente fim do filme. Sem duvida um belo filme que, tal como na vida, aborda personagens complexas e relações peculiares, com sentimentos que vão do amor ao desespero, tocando em géneros como o drama, mas também onde se encontram traços de comédia. Onde, a certa altura uma das personagens faz alusão à ideia do feminino emergir do masculino. Uma referência à homenagem de Almodóvar ao cinema mudo, realizada através da introdução de uma cena muda algo surrealista ("Amante menguante") com a lindíssima actriz espanhola Paz Vega, paixão partilhada por duas das personagens, Alicia e Benigno. Quanto à banda sonora, uns parabéns bem merecidos. Musica muito adequada, necessária e impecavelmente relacionada com momentos chave da história. Cena especialmente fantástica com a participação musical do cantor brasileiro Caetano Veloso, com a arrepiante “Cucurrucucu Paloma”. Formidáveis actores, com particular destaque para Javier Camára que interpreta o emotivo Benigno.
Almodóvar aprofunda o conceito de loucura neste filme, uma loucura que se confunde com a normalidade, conferindo mesmo, paradoxalmente, mais encanto a esses seres humanos. Existe uma complexa ligação entre o patológico (Benigno: perverso, violador, "psicopata") e a dita normalidade que se traduz na sensibilidade e na dedicação do mesmo ao seu grande amor, Alicia. Uma loucura que vive paredes-meias e está mesmo na origem dos sentimentos mais autênticos.
A obra de Pedro Almodóvar revela-se comovente, numa técnica própria, e incitando a uma intima relação com o espectador, algo que me surpreendeu bastante. Neste filme, como o título sugere, importa falar (hablar). Não com todas as pessoas, mas nomeadamente com elas, Mulheres. O principal ponto é de facto um convite por excelência a falar (hable): Fale! Baseando-se no princípio que a palavra e a linguagem produz efeitos terapêuticos, o realizador transporta-nos para a necessária dimensão humana onde a comunicação assume um papel fundamental dentro da sociedade. Uma obra que nos faz reflectir….

autor: André Silva

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

The Darjeeling Limited

Crítica de Daniela Ramalho

Há uns tempos atrás, numa das sessões do Cineclube, tive a possibilidade de ver pela primeira vez um filme de Wes Anderson. Na altura, nunca tinha ouvido falar do realizador nem de nenhum dos seus filmes. Lembro-me que gostei do filme então exibido, Rushmore, e que fiquei curiosa pelo tipo de humor subtil e essencialmente pela forma como a banda-sonora se encaixava nas cenas, quase como se cada uma das canções tivesse sido feita para cada cena específica. A curiosidade fez-me ver quase logo de seguida The Royal Tenenbaums, mas embora seja um filme agradável, não é um filme que me tenha deixado com vontade de o voltar a ver de novo com amigos. Aconselhada pelo Guilherme, acabei a minha noite a ver The Darjeeling Limited, que me leva a arriscar escrever algumas palavras sobre o filme, neste espaço.

The Darjeeling Limited (Wes Anderson, 2007) é o nome do comboio que leva três irmãos numa espécie de intra rail por terras indianas e que acaba por ser o espaço onde se desenrola grande parte da acção.
Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody) e Jack (Jason Schwartzman), são três irmãos que já não se viam há cerca de um ano (a meio do filme acabámos por perceber porquê) e que por convite de Francis, embarcam numa viagem pela Índia que tem por objectivo o encontro espiritual de cada um consigo mesmo e com os outros. Mas cedo se percebe que a diferença de temperamento entre os irmãos vai tornar os objectivos da viagem quase impossíveis de atingir. Francis é o típico irmão mais velho, sempre a tentar tomar o comando da situação, decidindo pelos outros e tentando mostrar que sabe sempre mais do que os irmãos. Peter, por seu turno move-se sempre sem um único sorriso, o mesmo tom de voz, marcando-se por um quase snobismo e com o terrível feitio de se apropriar de tudo o que é dos outros. Jack, é dos três o que menos se marca de início no filme, mas distingue-se por traços de ingenuidade, tendo um feitio entre o submisso e o distante da realidade que o rodeia (talvez por isso seja escritor) e de certa forma obsessivo. Embora de início todos prometam tentar restaurar a confiança um nos outros, a verdade é que todos vão contanto segredos uns aos outros que acabam por não conseguir esconder do terceiro. Os três, embora adultos, acabam por ter algo de demasiado infantil que os une, algo que parece que os continua a prender a uma espécie de adolescência de aventuras e confrontos entre irmãos que nunca conseguiram no fundo ultrapassar a vontade de estarem juntos, mas que não o conseguem pois são demasiado diferentes entre si (e nesta parte do filme já me convencia que definitivamente era bom ter irmãos). Claramente Francis e Peter não conseguem de início dividir o mesmo espaço, pois estão em constante confronto, grande parte devido á forma como Francis tentar controlar todas as situações.
Se há algo que nos faz logo prender atenção no filme, é a cena inicial: Peter corre para o comboio em câmara lenta embalado por uma canção simples, mas cuja letra contém de certa forma aquilo que mais tarde se pode retirar do filme. É aliás nesta cena, que entra uma personagem (Bill Murray), que por iniciar o filme, se presume que seja das principais, mas que afinal, acaba apenas por aparecer noutro momento chave. Vi várias vezes seguidas esta cena, porque tem algo de extremamente belo e que acaba por ligar a ideia da partida do comboio à ideia de que nunca sabemos muito bem qual o destino final de todos os comboios que vamos apanhando. Quase perto do fim, há outra cena absolutamente sublime, em que a música volta a estar perfeitamente enquadrada e que transforma totalmente o ambiente e o modo como se captam as ideias que as imagens pretendem transmitir.
Mas avançando na história, Francis pretende que a sua viagem se marque por vários pontos e programas, um para cada dia, que devem completar um processo que no fim os vai acabar por unir. Mas a diferença entre a materialidade do ocidente e a espiritualidade do oriente acaba por ser difícil de ultrapassar: na primeira paragem num templo, os irmãos separam-se e dividem-se pelas várias barracas que vendem vários produtos, gastando dinheiro numa série de coisas sem utilidade (como por exemplo a cobra venenosa que levam para dentro do comboio), acabando apenas no final por entrar no templo, mas sem nunca conseguirem concentrar-se no seu objectivo. Enquanto tentam rezar, continuam a perder-se em discussões e em segredos, que afinal nunca conseguem ficar secretos por muito tempo. Aliás, o próprio verdadeiro objectivo da viagem acaba por sair da boca de Francis quase a meio da viagem.
Mas são curiosamente os objectos que eles compram na primeira paragem num templo, que acabam por desencadear as acções seguintes, que culminam com os três a serem abandonados numa paragem não se sabem bem no meio de onde, em plena noite, apenas com as malas e o pequeno rádio mp3 que Jack liga sempre nos momentos certos. Sem dúvida que é hilariante a situação em que o comboio se perde, o que leva a um diálogo absolutamente hilariante entre os três e o guia que Francis tinha contratado para a viagem. (Existem várias cenas em que é impossível não soltar uma gargalhada, pois as personagens de Wes Anderson têm sempre algo de tão simples, mas absurdo ao mesmo tempo) È aqui, quando eles são abandonados totalmente sozinhos, que se começa a perceber que afinal, nem tudo na viagem está perdido e que talvez eles consigam tirar proveito de algum do tempo que ainda lhes sobra. O resto terão de descobrir ao ver o filme.
A verdade é que ao longo do filme, vamos notando que há algo que muda nos três irmãos, a convivência entre eles já não é tão insuportável e ambos começam a ter momentos mais introspectivos (e aqui surge de novo a música, quase como que um paralelo de estados de espírito), talvez porque se encontram a partir de certo instante absolutamente sozinhos consigo mesmos. Eles caminham, mas não sabem muito bem para onde e é num acontecimento alheio que os três encontram o elo que lhes falta. É no meio de desconhecidos, entre as dificuldades de comunicação, que os três se unem no silêncio, que começam a entender o porquê de necessitarmos de conviver com certas pessoas, mesmo que normalmente seja impossível dizer-lhes em palavras que afinal até gostámos delas.
Existe uma frase no filme que resume todas as ideias “maybe we could express ourselves more fully, if we say it without words”, Wes Anderson encontrou na música a forma de o fazer. De ligar todas as personagens, mesmo aquelas que pareciam não ter papel nenhum na história (Bill Murray, por exemplo), e de nos deixar com uma ideia daquilo que ficou atrás e daquilo que vem à frente.
Se é verdade que a primeira cena em que Peter tenta apanhar o comboio é para mim uma das mais bonitas do filme, a última vez que eles apanham o comboio (mais uma vez em slow motion, mais uma vez com uma música que encaixa perfeitamente), é aquela que resume o filme, ou pelo menos a mensagem que eu consegui retirar de todo o filme: quando nos queremos encontrar a nós mesmos e aos outros, temos de nos libertar de tudo aquilo que nos prende ao mundo terrestre, só quando as coisas deixam de nos ser essenciais, é que percebemos que a essência das coisas reside nos laços que se criam com as pessoas. Existe algo de diferente nas personagens no início e no fim do filme. Pessoalmente, acho que eles conseguiram alcançar o objectivo de viagem, mas nunca da forma que tinham planeado, afinal, é nos imprevisíveis, nos improváveis e nas situações extremas que encontramos a força para nos unir a quem nos faz falta. Quando decidimos que vamos deixar as malas pelo caminho, com todas as nossas coisas dentro, para conseguirmos entrar na próxima viagem, é que conseguimos ser totalmente livres.
Destacava por último, sem dúvida, as paisagens da índia, que se perdem entre desertos, entre aldeias, entre montanhas e num pôr-do-sol cortado pelo toque dos sinos que é efectivamente bem filmado. E claro, sem esquecer, a música do genérico, impossível de não cantar (ou pelo menos não tentar) o refrão.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Rushmore - Sessão de 2/12/2008

Com as minhas desculpas pela publicação atrasada e "fora-de-horas", aqui vai a minha crítica ao "Rushmore" que foi distribuída na sessão, mas que por lapso me esqueci de pôr no Blog.
À laia de "New Year's Resolution" tentaremos passar a publicar as críticas logo a seguir à sessão, para que as pessoas que não possam ter estado presentes vão a correr à DVDteca buscar o filme!


“Rushmore” / “Todos Gostam da Mesma” (1998)

De Wes Anderson; Argumento de Wes Anderson e Owen Wilson;
Com Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Seymour Cassel

“Rushmore” conta-nos a história de Max Fischer (Jason Schwartzman), um rapaz de 15 anos que estuda num prestigiado colégio, a Rushmore Academy, e que se recusa a permitir que a realidade limite as suas ambições. Logo no início, deparamo-nos com uma das mais geniais sequências do filme: a contagem dos inúmeros cargos de Max nas suas actividades extra-curriculares, algumas delas verdadeiramente insólitas – recorde-se a Rússia no Model United Nations, a Debate Team, os Rushmore Beekeepers, Caligraphy Club ou a Bombardment Society! Não obstante o seu brilhantismo em todas estas responsabilidades, especialmente na escrita e encenação de peças de teatro, Max é, nas palavras do Director da escola “one of the worst students we’ve got”, e juntando isso à sua irreverência, a ameaça de expulsão da escola paira sempre sobre a sua cabeça.
Tudo se complica quando o jovem conhece a mais recente professora primária do colégio, Miss Cross (Olivia Williams), e, perdidamente apaixonado, conjura com Herman Blume (Bill Murray), um milionário pai de dois colegas seus de quem se torna íntimo, o plano de erguer um aquário em sua homenagem. Max é então expulso da escola e começa uma nova etapa de conquista no liceu local. O mais surpreendente é que estaríamos à espera que ele não se integrasse, dada a sua peculiaridade, num ambiente que é o oposto do elitismo a que estava habituado, mas isso não acontece. De facto, Max continua a encenar as suas peças, e ganha novas admiradoras, como a encantadora Margaret (Sara Tanaka), mas nem por isso desiste de lutar por Miss Cross. Contudo, a trama ganha novos contornos quando Herman se envolve com Rosemary Cross, e os dois entram numa batalha de ataque e contra-ataque, que é absolutamente surreal atendendo à diferença de idades entre Max e Blume, e ao gozo que lhes dá aperfeiçoar as suas partidas – a sorriso de Herman quando se apercebe que a trama das abelhas é obra de Max é paradigmático.
“Rushmore” tem fortes elementos autobiográficos: foi filmado na escola que Anderson frequentou, em cujo auditório também ele encenava as suas peças, na maioria épicos de acção, e tal como Max, também Owen Wilson (co-argumentista) foi expulso do liceu. O filme também toca, embora de modo subtil, a questão do fosso entre classes sociais – percebemos isso quando vemos que Max frequenta Rushmore com uma bolsa de estudo e apresenta o pai como neurocirugião. E Max é, talvez, bem representativo de todos os artistas que usam o seu trabalho para ordenar e controlar o mundo à sua volta. As suas peças são o modo que ele encontra para isso, para aproximar e reintegrar as divisões do seu mundo, as amizades perdidas e inimizades acidentais, numa comunidade equilibrada e una.
Jason Schwartzman oferece-nos uma interpretação memorável, acrescentando um brilhantismo à personagem que o argumento não imaginava conferir, e não é por isso de espantar de Anderson tenha voltado a trabalhar com ele em “Darjeeling Limited”. Os pormenores são deliciosos: o sonho inicial do filme a resolver a equação impossível no quadro com a chávena de chá na mão, a sua boina vermelha e a dança de lugares na conversa com Miss Cross, a incoerência da petição sobre o ensino do latim, a sequência em câmara lenta para receber os aplausos pela peça com sangue no nariz, a cena de ciúmes ao jantar - no fundo, todo o seu comportamento e discurso é de o de uma pessoa de 30 anos, quando não passa de um miúdo de 15. Por isso, a nossa relação com Max vai desde achar que ele precisa de apoio psiquiátrico a começar a entendê-lo, e acabar por sentir um enorme carinho por ele, especialmente quando ele desiste de Rosemary depois da fabulosa cena da simulação do atropelamento e tenta reconquistar a amizade de Herman, ou quando ele desiste da escola e vai trabalhar com o pai, e tem finalmente orgulho em apresentá-lo a toda a gente como barbeiro e seu pai. Genuinamente comovente é a cena em que ele dedica a peça à memória da mãe, e a dança do final.
Quanto a Bill Murray, a sua personagem é a de um triste homem de sucesso, com filhos insuportáveis e de uma solidão patente. Entre as suas cenas mais memoráveis conta-se a da “bomba” para a piscina de cigarro no canto da boca, a cena da cenoura na conversa à porta com Rosemary, a sequência do elevador, entre outras. O seu Herman é verdadeiramente patético, e nisso Bill Murray é mestre, tal como já nos vem habituando, mas ainda assim supera as suas deprimentes e melancólicas personagens em “Lost in Translation” e “Broken Flowers”.
A filmagem, edição e fotografia é irrepreensível, e Anderson tem a grande qualidade de conseguir dar-nos o máximo de informação num mínimo de tempo de ecrã – captamos a essência das personagens com um gesto, um sotaque, adereços e tiques. Na cena final, em jeito de homenagem à reconciliação e à felicidade, a câmara de Anderson filma com movimentos e velocidade varíavel, aí sim, para “esticar” o momento, pintando-o com cores oníricas. No fim daquela dança, é uma sensação de leveza, de empatia e envolvimento que permanece, e no fecho desce o pano sobre esta imensa peça de teatro que é este filme, feito de detalhes, e que nos faz querer ir até Rushmore conhecer tão insuitados actores deste universo paralelo.
Também a banda sonora é de uma beleza enorme, juntando temas interpretados por Cat Stevens, John Lennon, The Kinks, Yves Montand, The Who, Rolling Stones, Donovan Leitch. Pessoalmente, tenho como único aspecto a criticar algo já habitual: a tradução do título do filme, que não se compreende de onde veio, já que são dois a “gostar” da mesma, e não “todos”! Rushmore é o nome da escola e parece-me uma analogia com o Monte Rushmore, uma espécie de Eldorado, o topo dos topos, que é o que Max pretende atingir, e por ser um nome universal não carecia de qualquer tradução.
Esta obra é plena de todos os aspectos que vêm falhando no cinema comercial mais recente: humor a sério, uma escrita lapidar, música que torna uma cena inesquecível, e sentimento. “Rushmore” é um dos melhores exemplos do brilhantismo do mundo de Anderson, cujo génio atingiu a excelência cinematográfica, considero, com o filme “Darjeeling Limited”.

“When one man, for whatever reason, has the opportunity to lead an extraordinary life, he has no right to keep it to himself” - Cousteau

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Baraka, por André Silva

O blog do Cineclube volta a contar com críticas de filmes feitas por leitores e cinéfilos. Espero que seja a primeira de muitas.



“Baraka” é um incrivél tele-documentário experimental realizado pelo director norte-americano Ron Fricke. Na língua Sufi, a palavra “Baraka” significa Sopro de vida ou Bênção. Um autêntico poema visual onde as imagens incluem um vasto registo de rituais religiosos, maravilhas naturais, processos de mecanização e produção humana e diversos estilos de vida. O contraste e as metáforas visuais criadas por Ron Fricke provocam reflexão, tranquilidade e inquietação aos espectadores atentos. As músicas aliciantes e os efeitos sonoros contribuem para que Baraka seja uma experiência única e marcante. Baraka é um documentário sobre o homem e a natureza, a sua beleza e diversidade cultural, o contraste humano, as suas semelhanças e a sua própria destruição, enquanto ser incapaz de entender o frenético ritmo social a que a vida se desenrola. È facilmente apreendida a intima e frágil ligação entre todos os homens, resultado da multiplicidade de diferenças religiosas, culturas e linguísticas.
São noventa e seis minutos, sem narração, legenda ou discurso, somente imagens e sons cuidadosamente capturados. Baraka exibe-nos de que forma a raça humana e seus diferentes ciclos de vida estão eternamente vinculados ao ritmo da natureza, fazendo uma surpreendente análise do mundo e de quem nele habita.
Filmado em 152 lugares diferentes, localizados em 24 países, Argentina, Austrália, Brasil, Cambodja, China, Equador, Egipto, França, Hong-Kong, Índia, Indonésia, Irão, Israel, Itália, Japão, Kenya, Kuwait, Nepal, Polónia, Arábia Saudita, Tanzânia, Tailândia, Turquia, e Estados Unidos da América, “Baraka” não tem qualquer história ou enredo. Em vez disso utiliza, não só temas para nos apresentar novas perspectivas, mas também genuínas emoções que nos fazem entrar na mensagem do filme. Não aconselho a visualização deste filme a pessoas confiantes no seu ego, seguras pelo seu egoísmo étnico centralizado, nem com configurações pré-definidas de vida humana ou comportamentos sociais, já que nos é proporcionada uma verdadeira experiência sensitiva e espiritual que leva o telespectador a olhar o mundo de um modo totalmente diferente e de uma forma mais condescendente para com os outros. Baraka permitiu-me ver realidades que nem sonhava existirem, comportamentos sociais que por vezes surgem-nos como irreais, vislumbrar padrões de conectividade cultural, tudo isto num sentido de equilíbrio e proporção de relações internacionais humanas. O meu olhar fugia simplesmente de encontro a outros olhares e caras de pessoas, levando-me a entender a universalidade do espírito humano.
Guardo a triste lembrança de uma enorme lixeira pública na Índia, onde grupos de pessoas procuram incessantemente por qualquer tipo de coisa que lhes permita sobreviver mais um dia, competindo com outros animais. Mulheres e crianças descalças procuram pequenos “tesouros” naquele horrível lugar, onde nenhum ser humano deveria ser obrigado a viver.
Fricke afirma que o objectivo desta obra era ser "uma viagem de redescoberta da própria vida, mergulhando na natureza, na história, no espírito humano e por fim no reino do infinito." Único na sua beleza, sensibilidade e percepção, “Baraka” consegue, ao longo de noventa e seis minutos, e movendo-se na realidade quotidiana de um mundo multifacetado, transmitir-nos uma ideia de tolerância e respeito cultural a que todos deveríamos estar sujeitos.
Mais que uma obra puramente fantasiosa e imaginária, “Baraka” é um filme sobre a vida, um registo sobre a própria Humanidade.

autor: André Silva

terça-feira, dezembro 09, 2008

O cowboy (Joe) da meia-noite.

Filme disponível na Biblioteca da FDUP

Quando o simples visionamento de um filme nos perturba, deixa ensimesmados, deprimidos e, até, de certa maneira, tristes, já temos mais do que o necessário para poder dizer que a obra nos marcou. Não será isso, para além daquela imediata finalidade de “passar um bom bocado”, que procuramos no cinema?

“Midnight Cowboy”. Ou, para quem preferir o título da versão portuguesa, “O cowboy da meia-noite”. O filme marca porque nos abre um vasto leque de perguntas. Se às mesmas sabemos ou não responder é outro problema. O autor destas linhas, que é o Tiago Ramalho, plasma em escrito que não sabe. E por isso está perturbado, ensimesmado, deprimido e, até, de certa maneira, suponho que mesmo o mais despistado dos leitores adivinha a palavra que se seguirá, triste.

Irei relembrar a história para aqueles que a já não recordam. Aos que ainda não viram o filme, salvo se tiverem uma firme aversão à surpresa, recomendo que primeiro o vejam e depois leiam.

Vejamos então, sucintamente: um jovem, de nome Joe, larga o seu pequeno mundo no Texas, onde era lavador de pratos, e parte para Nova Iorque. Projecto: acreditando na sua anacrónica imagem de cowboy, tem em mente viver como prostituto de senhoras que possam pagar os seus serviços, e tudo correrá pelo melhor. Já Ratso é um ladrão de vão de escada. Apesar de estatisticamente poder não ser um sem abrigo, é um pobre coitado que vive num prédio devoluto. Ambos, não obstante alguns pequenos problemas iniciais, acabam por ser o sustentáculo um do outro, vivendo Joe na casa de Ratso. Naturalmente que Joe não foi bem sucedido no seu ofício, pois de outra forma não viveria em tão precárias condições. De facto, em vez de grandes senhoras, aquele que, segundo palavras próprias, não é um verdadeiro cowboy, mas um bom garanhão, acaba por ou não trabalhar ou fazer apenas serviços homossexuais, o que abala o seu sentido estético e, porque não dizê-lo, a masculinidade que faz questão em ostentar. Creio que com isto um quadro geral fica traçado.

O em todo este filme mais parece perturbar é a turbulência das relações humanas: parece ser inegável a forte relação de amor entre Joe e Ratso, esses dois homens sós perdidos na grande metrópole. Mas que amor é esse? Que estranha relação cultivam os dois sujeitos? É curioso como Ratso, ao ver Joe chegar a casa com dinheiro, depois da primeira (que vem a ser única) noite de serviços sexuais remunerados o ataca com violência. Qual a causa dessa hostilidade que leva um homem a violentar o outro – o único – que se preocupa consigo? São dois homens perdidos, duas torres em queda que se apoiam uma na outra num muito frágil equilíbrio. E é uma relação tão forte que leva Joe a cometer um crime (ele que, aparentemente, tanta aversão a tal tinha) para poder levar Ratso à Florida, essa terra com que tanto sonhava, em que nunca chega a pôr os pés mas apenas a depositar o olhar (e a vestir uma camisa com uma palmeira). Pergunto-me então, de novo, sobre que força tão grande é essa que leva aqueles homens a suportarem-se um ao outro. Talvez uma qualquer que transcenda os nossos quadros de compreensão, que só pode ser sentida por homens assim tão sós, tão carentes de uma palavra singela, de um sorriso, ainda que amargurado, ou, tão-somente, de uma sombra pela casa que os lembre que não estão sós no mundo.

Também não consigo deixar de me perguntar sobre qual o valor do sonho: valerá a pena persegui-lo? Aquele rapaz ingénuo, firme na sua inocência, que parte para um espaço que não conhece acreditando no seu visual à John Wayne, que acredita nessa sua ilusão até ao momento em que, abandonando nova Iorque, depara consigo mesmo e, tão somente, não gosta. Basta comparar uma das cenas iniciais em que, ainda na pequena vilória do Texas, garbosamente se arranja para sair de casa, com aquele em que, na viagem para a Florida e depois de comprar um novo vestuário, deita todos os seus velhos pertences ao lixo. Talvez aí morra o Cowboy da Meia Noite do Texas e nasça um novo Joe de Nova Iorque. Há um desconsolo enorme em ver a figura de Joe destruir-se ao longo de todo o filme e, nesse momento em que “volta a si”, vê-lo a ver morrer o seu camarada de vida.

As interpretações dos dois principais actores são notáveis: John Voight tem um ar incrivelmente inocente ao longo de todo o filme; Dustin Hoffman parece um verdadeiro rufia. Comparar esta sua interpretação com a que realiza em “The Graduate” revela toda a sua qualidade. Será mesmo o mesmo, passe a redundância?

Comecei por dizer que este filme abre bastantes perguntas. Abre perguntas e com ela nasce alguma dor. Mas tudo isso dentro da grande felicidade de ver uma grande obra e de efectuarmos uma viagem a uma outra realidade pela câmara de um realizador.

Não classifico filmes com estrelas mas com palavras. Sobre este digo que é perturbante, às vezes doloroso, e que tem brilhantes interpretações. Ah…e recomendo a qualquer um.
*post rectificado perante a correcção da Maria João. Sobre o nome "Ratso" recomenda-se o dito comentário, da mesma menina, senhora, mulher.