segunda-feira, março 08, 2010

Ensaio sobre a loucura

Home (2008), de Ursula Meier com Isabelle Huppert, ensaia a história de uma família de cinco, que vive numa moradia encravada e dividida por uma auto-estrada que foi construída, mas que não é utilizada, usufruindo da estrada para conseguir ir por um caminho de terra até à cidade, para conseguir chegar à sua caixa de correio e para conseguir mandar os miúdos para a escola. Basicamente a estrada serve de prolongamento ao que anteriormente seria o resto do jardim, tendo crescido completamente desenquadrada do resto.

O problema é que a estrada que estava abandonada, passa de um dia para o outro a ser utilizada, depois das devidas obras que faltavam concluir, surgindo então uma nova auto-estrada, capaz de fazer milagres de condução aos seus utilizadores que passam a encurtar as suas viagens de casa para o trabalho. Isto, a cerca de 15 metros, se tanto, da casa. Colado ao jardim que todos os dias preenchia o dia da filha mais velha cuja única actividade na vida é apanhar sol no jardim. Pelo meio junta-se a filha nerd que vive na paranóia do envenenamento por chumbo, o marido que tem de deixar o carro do lado de lá da estrada porque a casa passa a estar encravada no meio do nada, o filho pequeno que descobre o túnel por onde podem ir de um lado para o outro e a mãe completamente neurótica e dona de casa que continua a tentar a levar a sua vida normalmente embora tenha trânsito a passar-lhe mesmo diante dos olhos dia e noite sem parar.


E à medida que os dias passam percebe-se que os comportamentos se vão alterando, que as características de cada um ficam cada vez mais vincadas e que vão ficando eléctricos, como se houvesse algo externo a perturbá-los. Principalmente a mãe, vai assumindo comportamentos estranhos e fora de lógica, enquanto que a única personagem que parece viver alheia de tudo é a que se continua a deitar no relvado, ignorando os carros e os camiões que apitam ao ver uma jovem, que desnuda, se estende ao sol.

Claro que um espectador atento vai pensando em várias alternativas para a pobre família que vive atormentada com o ruído constante dos carros, com a falta de privacidade e com um isolamento total face ao outro lado, onde todas as coisas parecem ficar. Contudo, tudo o que eles decidem fazer é o que qualquer pessoa normal não faria, tomando as decisões mais estranhas de todas as que estariam ao seu dispor. O que nos coloca a inevitável questão: até onde estaríamos dispostos a ir pelo nosso lar?

Critica por Daniela Ramalho

Convites para antestreia - Cinerama

Caros cineclubistas, temos 10 bilhetes duplos para esta antestreia. Enviem um email para o já habitual cineclubefdup@gmail.com, com o vosso nome e nr. de telefone. Os convites podem depois ser levantados nas bilheteiras do Cidade do Porto!


CINERAMA

um filme de Inês Oliveira

com Diogo Dória, Ricardo Aibéo, António Fonseca, António Poppe, Rita Loureiro, João Cabral, Rita Durão, Pedro Hestnes


Mostra Internacional de Cinema de São Paulo > Selecção Oficial em Competição

Festival de Premiers Plans, Angers > Selecção Oficial, Fora de Competição


terça-feira, 9 de Março
21h45
Cinema Cidade do Porto
Sala 1


Nota de intenções da realizadora

O que me aconteceu neste filme foi criar caminhos e percorrê-los ao mesmo tempo.

Observei problemáticas que se prendem com a viragem de século (neste caso até de um milénio), comparei-as com as do século passado: a passagem de um “mundo” para outro (revolução industrial, novas ideologias construídas em cima das ruínas das anteriores…). Observei também a hipótese que o mundo globalizado de hoje oferece a quem quer viver à margem, por exemplo, numa Ìndia imaginária. Poder gritar à vontade e não ser ouvido – é uma angústia do nosso tempo.

Não desenvolvo uma narrativa linear, convencional, mas lanço uma: o rapto do director de uma empresa. Um acto vão, inconsequente, ignorado, abafado. Quantas são as narrativas que nos lançam diariamente as televisões e jornais, com protagonistas, antagonistas, intrigas e personagens secundárias, que depois nunca se desenvolvem ou desenlaçam? O absurdo ganha à lógica?

Apesar do cinema ser uma arte do tempo e do espaço, este filme é acima de tudo uma construção em três actos, três “écrans” de cinerama, que se aglutinam, contradizem e justapõem. Não se sintetizam. Implodem.


Inês Oliveira

http://www.cinerama-filme.com/

domingo, março 07, 2010

McCabe & Mrs. Miller by Leonard Cohen

Leonard Cohen - Sisters of Mercy


Leonard Cohen - The Stranger Song


Leonard Cohen - Winter Lady

sábado, março 06, 2010

Freezin' my soul

Warren Beatty em McCabe & Mrs. Miller

hip-hop e nouvelle vague

Blu - "Amnesia"


As cenas são do filme Ascenseur pour l'échafaud (1958), de Louis Malle, filme que não vi mas a que cheguei pela música. A banda sonora original era de Miles Davis, mas parece-me que este pequeno "remake" feito pelo Blu (um dos melhores artistas da cena rap norte-americana) não ficou nada mal. Ah, e a senhora loira é a grande Jeanne Moreau.

sexta-feira, março 05, 2010

É de facto um filme fofinho

Juno (2007), de Jason Reitman, não sendo propriamente inspirado ou fora do vulgar, conta a simplicidade de uma adolescente que engravida e que ao invés de fazer um aborto, como milhões de adolescentes fariam, decide dedicar-se a uma causa mais altruísta, optando por dar o bebé para adopção, depois de lhe dizerem que ele teria unhas. E só isto não diz de facto grande coisa, até porque os pais não têm nenhuma crise parental depois de descobrirem e o pai da gravidez indesejada não é nenhum jogador de futebol musculado que troca a rapariga pela loira chefe de claque. É precisamente aqui que reside a diferença do filme para um qualquer candidato a um domingo à tarde mau, sendo mais um candidato de domingo à tarde agradável (talvez por isso ainda não tenha passado em nenhum canal ao domingo à tarde, pelo menos que eu tenha conhecimento), por fugir a uma data de lugares comuns capazes de atrair muita gente ao cinema e de torná-lo num êxito garantido entre adolescentes e já repetido vezes sem conta.

Existem de facto pequenos detalhes que o tornam caricato. Juno ainda usa o telefone em forma de hambúrguer, o pai é o jovem que todos esperavam que fosse virgem pelo menos até aos 30 e não se cria uma cena de indecisão, depois do filho nascer, entre dá-lo ou não, de modo a evitar lágrimas e dramas tão habituais no tipo de situação. Além disso, o pai adoptivo é uma espécie de adolescente preso na pele de um adulto casado com uma mulher de negócios bem sucedida, que encontra em Juno a possibilidade de falar sobre as coisas em que tem interesse, embora a rapariga tenha sempre comentários impertinentes e infantis a fazer. Felizmente também não é um daqueles que transforma a miúda irresponsável numa completamente adulta que fica com um instinto maternal mesmo muito apurado resultado da gravidez e das hormonas por ela libertada. Mais relevante de tudo, é que também não se cria uma tensão entre os dois pais com um a querer dar para adopção e o outro a querer ficar com o bebé.

Em suma, Reitman acerta em cheio no facto de adolescentes serem sempre adolescentes e não alterarem a perspectiva que têm das coisas porque têm um acidente de percurso. O que efectivamente não acontece na maioria dos casos, resultando quase sempre numa caricata aventura que tentar educar uma criança que se decide ter porque existe sempre os que pressionam e dizem que os dois irão mudar. E isto lembra-me tão bem múltiplas situações que se foram repetindo ao longo dos anos na escola que porventura é por isso que o filme acaba por criar uma empatia inevitável. Além de que a barriga de Juno é adorável.

Critica por Daniela Ramalho

"See? I'm the only one that sees the whole picture. That's what they mean by genius".


Whatever works foi dos filmes que mais gozo me deu ver nos últimos tempos e também um dos melhores Woody Allen em tempos mais recentes (não olvidando o fabuloso Match Point (2005) e, eventualmente, o Cassandra's Dream (2007), que não vi). É um Woody Allen que toca no mesmo humor neurótico dos inevitáveis Annie Hall (1977), Midsummer Night's Sex Comedy (1982) ou Manhattan (1979), mas muito mais arejado; a neurose é a mesma, mas a perspectiva é agora outra, bem mais descontraída e optimista.

Inacreditavelmente, o youtube não tem (ou eu não encontrei) aquela que para mim é a melhor cena do filme: quando Boris (Larry David) desce as escadas exclamando "Vou morrer, vou morrer, eu vou morrer!", e a mulher, preocupada, lhe pergunta "queres que chame uma ambulância?". Ele abana muito a careca dizendo "não, não, não é isso, não estás a perceber, eu um dia vou morrer!".
A esta se segue imediatamente outra cena sublime, quando Boris e a mulher iniciam um diálogo cuja conclusão, feita por Boris, é qualquer coisa como "apaixonámo-nos de uma forma perfeitamente racional: gostávamos da mesma literatura, da mesma música, da mesma arte; fez tanto sentido, foi tão racional, que deu nisto".

(Perdoem-me a muito provável adulteração grosseira dos diálogos, mas a culpa é mesmo do youtube. E transcrito perde metade da piada, bem sei).

terça-feira, março 02, 2010

1ª Sessão - McCabe & Mrs. Miller

McCabe & Mrs. Miller - Robert Altman
, com Warren Beatty e Julie Christie

Dia 4 Março, quinta-feira, às 18h na sala 101 da FDUP.
ENTRADA GRATUITA.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Cartaz 2º Semestre


4 Março - McCabe & Mrs. Miller, Robert Altman

18 Março - Days of Being Wild, Kar Wai Wong

8 Abril - The Apartment, Billy Wilder

22 Abril - 12 Angry Men, Sidney Lumet

13 Maio - Boyz n the Hood, John Singleton












* agradecimentos à Luisa Beato pelo cartaz.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Enviem criticas

Colegas da FDUP e seguidores do blog noutras bandas,
se têm por hábito escrever criticas a filmes e gostavam de as ver publicadas neste blog, enviem-nas por email para cineclubefdup@gmail.com, deixando um comentário de aviso no último post publicado.

A direcção do CineclubeFDUP ficará agradecida com a vossa contribuição.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

sábado, fevereiro 13, 2010

as cores mais bonitas do mundo



...estão aqui, neste clip (autoria de Nez Khammal).
Obra prima que me faz pensar (rectius, duvidar) acerca das barreiras entre televisão, cinema e algo mais.

Do México

"Rudo y Cursi" de Carlos Cuarón (2008) leva-nos numa viagem até ao México remoto das plantações de banana, das estradas de terra e dos preconceitos entre homens e mulheres. Ao mesmo tempo que faz o retrato de uma povoação pobre e pequena, onde os maridos ainda podem bater nas mulheres, onde as crianças não vão à escola porque ficam a trabalhar e onde os rapazes jogam futebol para passar o tempo, enquanto sonham com a glória dos grandes craques. E os detalhes que caracterizam o lugar onde Tato (Gael Garcia Bernal) e Beto (Diego Luna) vivem, são essenciais para perceber o que acontece a seguir na história e traçar analogias com situações comuns.

Tato e Beto são irmãos que trabalham na plantação de bananas, o primeiro com o desejo de se tornar cantor e o segundo com um terrível vício no jogo. Na ânsia de encontrar a fama que tanto procura, Tato decide que vai abandonar o México para ir em busca do sonho de ser cantor nos Estados Unidos, até que por coincidência ambos encontram um empresário de futebol parado na berma da estrada com problemas no carro. A partir daí, são escolhidos como promessas do futebol mexicano, mudando-se para a capital e começando o mais importante da história: a forma fiel como é filmada a ascensão dos irmãos. Claro que não é difícil imaginar o que acontece a dois rapazes nascidos num meio pobre que são catapultados para as capas de revistas, para o dinheiro fácil e para um meio onde passam a conviver com aqueles que se habituaram a ver pela televisão.

A Tato não falta nenhum detalhe de caracterização: desde as madeixas às camisolas de lycra cor-de-rosa, aos carros imponentes e à namorada estrela de televisão que já passou por meio México. Rudo, mantém o seu bigode nativo, mas perde-se entre o jogo e a cocaína, enquanto continua a ser alvo de troça por ter uma mulher que trabalha. Entretanto Tato consegue concretizar o seu sonho e grava um videoclip, esperando finalmente poder deixar o futebol para se dedicar ao espectáculo, mas o único concerto que chega a dar é bastante terrível.

O filme é uma sátira ao mundo do futebol e à forma como são pescados e catapultados miúdos para o topo quando no minuto seguinte falham e não têm direito a uma segunda oportunidade, sendo facilmente esquecidos por aqueles que chamavam os seus nomes nos estádios, pelas revistas e por todas as pessoas que os rodeiam. É ao mesmo tempo um apanhado bastante bem feito de algumas figuras bem nossas conhecidas, mesmo que sem intenção.

Crítica por Daniela Ramalho

"Nana se demand si elle est heureuse"

De Niro

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

ainda Invictus

Evidentemente que não é, de todo, por coisas destas que fiz a apreciação negativa que fiz de Invictus. Fosse só isso e Invictus até poderia ser um enorme filme. Infelizmente, há muito mais para além de carros que não existem e regras básicas de râgueby (que desconheço) violadas.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

a invencibilidade foi beliscada

Andava com medo de dizer que Invictus tinha sido dos piores filmes que tinha visto nos últimos tempos e que, como filme, entrava em competição com aquilo a que se chama de filmes de domingo à tarde (deixemos de lado, por agora, a relativa imprecisão da expressão). Mas alguém teve mais coragem do que eu e disse-o: Clint domingo-à-tarde Eastwood.

nota:
Em (grande) parte, acho que a bolha de admiração e reverência que vai acompanhando Invictus se deve à história verídica que retrata. E essa, a de Mandela e a da luta de um país, merece a admiração de todos e da História. Mas isso é uma coisa... outra coisa é o filme.