terça-feira, janeiro 31, 2012
O Cineclube FDUP na Time Out
Este mês, a revista Time Out dedica a capa ao Porto "Grátis". Entre as 50 ideias sugeridas para aproveitar a cidade a custo zero, uma delas é, precisamente, "explorar os cineclubes das faculdades".
Lê-se na página 24: "Quem diz que não há bons filmes no Porto, de cinema histórico e de cinema de autor, engana-se. Há e são grátis. [...] Outro cineclube activo é o da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP). Os filmes são exibidos à terça na sala 1.01 da FDUP, às 18.15."
Faz-se ainda menção a outros cineclubes universitários, como o da Universidade Lusófona ou o da Escola de Artes da Universidade Católica do Porto.
O cinema grátis na FDUP, por enquanto, ainda não recomeçou, mas como aconselha a Time Out: para saber a programação é ir ao blog cineclubefdup.blogspot.com. Mantenham-se atentos!
quinta-feira, janeiro 26, 2012
é já hoje:

O documentário vencedor do Doc. Lisboa 2011, Praxis (2011), de Bruno Cabral, estreia hoje na cidade do Porto. É às 22h, no cinema Passos Manuel. Pela mão da Milímetro.
sábado, janeiro 14, 2012
she said it's ok
Mais uma recriação que o rapper Blu faz de um filme (ou de excertos de) para um videoclip, desta vez com All That Jazz (1979), de Bob Fosse.
A música chama-se "She said it's ok" e faz parte de Give Me My Flowers While I Can Smell Them (2011), álbum composto por Blu e Exile (os Pete Rock & CL Smooth do século XXI).
A música chama-se "She said it's ok" e faz parte de Give Me My Flowers While I Can Smell Them (2011), álbum composto por Blu e Exile (os Pete Rock & CL Smooth do século XXI).
terça-feira, janeiro 10, 2012
segunda-feira, janeiro 09, 2012
"political solutions don't work"

"Após a agitação política e cultural dos anos sessenta, que podia parecer ainda um investimento de massa da coisa pública, é uma desafecção generalizada que ostensivamente se afirma no social, tendo por corolário o refluir dos interesses no sentido de preocupações puramente pessoais e isto independentemente da crise económica. A despolitização e a dessindicalização ganham proporções nunca antes atingidas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contra-cultura esgota-se, raras são as causas ainda capazes de galvanizarem a longo prazo as energias. A res publica encontra-se desvitalizada, as grandes questões «filosóficas», económicas, políticas ou militares suscitam mais ou menos a mesma curiosidade desenvolta que um qualquer fait divers; todos os «cumes» se abatem pouco a pouco, arrastados pela vasta operação de neutralização e banalização sociais. Só a esfera privada parece sair vitoriosa desta vaga de apatia; zelar pela própria saúde, preservar a sua situação material; perder os «complexos», esperar que cheguem as férias: viver sem ideal e sem fim transcendente tornou-se possível. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que obtêm são o símbolo autêntico deste hiper-investimento do espaço privado; como o próprio Woody Allen o diz: «political solutions don't work» (...); sob muitos aspectos, esta fórmula traduz o novo espírito do tempo, este neo-narcisismo que nasce da deserdação do político. Fim do homo politicus e advento do homo psychologicus, à espreita do seu ser e do seu bem estar".
Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio, Relógio d'Água, 1989, pp. 48-49.
quinta-feira, dezembro 29, 2011

Não é que tenha achado por aí além o mais recente filme de G. Clooney, mas o que segue aqui abaixo (cujo texto original se encontra neste blog) não deixa de fazer sentido (não no que respeita à linha política da crítica, mas no resto):
"Há um aspecto curioso na crítica cinematográfica portuguesa que eu arrisco a chamar de mais “conservadora” e “direitista”, apesar de hoje em dia grande parte dela se poder integrar neste rótulo (ao contrário do que aconteceu nos tempos áureos da crítica, nos anos 50, 60 e 70, onde era maioritariamente “de esquerda” e dita “progressista”). Esse aspecto repete-se de filme para filme, quando estes tentam de alguma forma criticar, ou beliscar sequer, o sistema capitalista e as estruturas políticas norte-americanas ou de outros países de democracias ocidentais. Quando surge um filme destes, como o recente caso de “Nos Idos de Março”, a crítica mais insistente é que o título não traz nada de novo e se mostra uma repescagem do cinema “progressista” dos anos 70, de Sidney Lumet, de Martin Ritt, de Sidney Pollack ou Alan J. Pakula.
Curiosamente (e isto só é visível para quem já tenha uns anos destas lides e alguma memória, como é o meu caso), nos anos 70, não estes críticos, mas alguns outros idênticos a estes, diziam que os filmes de Sidney Lumet, de Martin Ritt, de Sidney Pollack ou Alan J. Pakula não traziam nada de novo e repescavam o cinema “progressista” dos anos 30 e 40, onde aí sim, havia John Ford, Frank Capra, William Wyller e quejandos. Ou seja, quando se problematizam questões sociais e poliíticas, o melhor é enxotar a obra e depreciá-la, sobretudo em função do passado, porque esse já parece não incomodar ninguém, encerrado em cinematecas para cinéfilos e curiosos, longe dos olhares do grande público".
quarta-feira, dezembro 28, 2011
Pós-Graduação em Gestão de Organizações sem Fins Lucrativos
O fundador do Cineclube e nosso amigo Guilherme Blanc irá leccionar algumas matérias relacionadas com fundraising no terceiro sector, no âmbito da Pós-Graduação em Gestão de Organizações sem Fins Lucrativos, ministrada pela Business School da Universidade do Porto.
Para os interessados, aqui fica o link: http://www.egp-upbs.up.pt/?page_id=2108
As inscrições ainda estão abertas!
Para os interessados, aqui fica o link: http://www.egp-upbs.up.pt/?page_id=2108
As inscrições ainda estão abertas!
segunda-feira, dezembro 26, 2011
Ciclo "Música de Câmara"

Novo ciclo da Milímetro, dedicado às interpenetrações entre Música e Cinema, nesta semana ainda em ritmo natalício. Às 22h, no Passos Manuel.
PROGRAMA COMPLETO:
27 e 28 de Dezembro
“Tempo of a restless soul”, de Manu Riche e Renaat Lambeets
Documentário sobre Tom Barman, vocalista dos dEUS. Estreia em Portugal.
29 de Dezembro
“Joy Division”, de Grant Gee
A história dos Joy Division, contada pelos antigos elementos da banda e pelas pessoas que mais de perto a acompanharam.
30 de Dezembro
“Ne change rien”, de Pedro Costa
Documentário intimista sobre a cantora e actriz Jeanne Balibar.
segunda-feira, dezembro 19, 2011
domingo, dezembro 18, 2011
mini-ciclo "PORTAS FECHADAS" (20 e 21 DEZ.)
A Milímetro volta a exibir bom cinema português nesta terça e quarta feira (20 e 21 Dez.) no mini-ciclo "PORTAS FECHADAS", no Cinema Passos Manuel. Às 22h.
20 DEZ.
TRANSE" (2006), de Teresa Villaverde
21 Dez.
MAL NASCIDA" (2007), de João Canijo

20 DEZ.
TRANSE" (2006), de Teresa Villaverde
21 Dez.
MAL NASCIDA" (2007), de João Canijo

quarta-feira, dezembro 14, 2011
os filmes que já vimos

Foi bom, muito bom, termos ontem cerca de 30 cinéfilos, simpatizantes e amigos a ver bons filmes e a lancharem pelo meio, num ambiente descontraído e dialogante como desde sempre o Cineclube FDUP se propôs a ser.
Para nós, organização, significa, também, um retorno pelo trabalho que desenvolvemos, o qual, muitas das vezes, nos parece invisível. Portanto, e resumindo: muito obrigado por terem vindo, esperamos que tenham passado um bom bocado. O Cineclube FDUP vai continuar aí como pólo de divulgação cinematográfica para todos os que gostam de estar numa sala escura a ver - e vou plagiar o Bresson à descarada, ele não se importa - uma escrita com imagens em movimento e sons.
A programação deste semestre fica por aqui. Voltamos em Fevereiro... Até lá e bons filmes!
terça-feira, dezembro 13, 2011
SESSÃO DUPLA - Aviso
sábado, dezembro 10, 2011
SESSÃO DUPLA: "OS FILMES QUE NÃO VIMOS EM 2011"
Design: Luísa BeatoEsta terça-feira, e em vésperas natalícias, o Cineclube FDUP despede-se para férias com uma sessão a pensar em todos aqueles que apoiam o clube de cinema mais antigo do panorama universitário.
"OS FILMES QUE NÃO VIMOS EM 2011" é o nome da sessão dupla em que serão exibidos "YOU, THE LIVING" (2007), de Roy Andersson e "ESSENTIAL KILLING" (2010), de Jerzy Skolimowsky. Dois filmes aclamados pela crítica, exibidos em tudo o que é festival e, ainda assim, com uma distribuição escassa no nosso país. Deste ponto de vista, os dois filmes são casos paradigmáticos, já que ambos nunca tiveram exibição comercial, no ano de 2011, na cidade do Porto, mas apenas em Lisboa.
Por isso, e num momento em que florescem na cidade nichos de divulgação cinematográfica, o que permite, de certo modo, suprir a paupérrima distribuição das salas de cinema do circuito comercial (com a excepção, vital, da Medeia Campo Alegre, e outros acasos pontuais), esta é uma boa oportunidade para vermos dois filmes de realizadores consagrados e com um percurso próprio no cinema.
Começaremos às 18h15, com "YOU, THE LIVING". Das 19h50 às 20h20, ofereceremos um pequeno lanche, ao que se seguirá a exibição do tão aguardado "ESSENTIAL KILLNG", que valeu a Skolimowsky e a Vincent Gallo os prémios de melhor filme e melhor actor, respectivamente, no Festival de Veneza deste ano.
Pedimos que quem desejar lanchar e confraternizar no intervalo dos filmes, nos envie um email para cineclubefdup@gmail.com , para que possamos organizar a logística da melhor forma.
De resto, estão todos convidados! Cinéfilos, simpatizantes, curiosos, amigos, amigos de amigos, familiares, estudantes, não-estudantes,... Venham todos, temos o maior gosto! Até lá!
terça-feira, dezembro 06, 2011
próxima semana: SESSÃO DUPLA
segunda-feira, dezembro 05, 2011
6 Dez.: "SUPER FLY", de Gordon Parks Jr.
Design: Luísa BeatoA programação regular do Cineclube encerra esta terça-feira, dia 6 de Dez., com o filme "SUPER FLY" (1972), de Gordon Parks Jr. É às 18.15, na sala 1.28.
"SUPER FLY" imortalizou a blaxploitation, género cinematográfico emergente nos anos 70, pouco tempo depois das lutas pelos civil rights, e das quais Martin Luther King foi, para toda a comunidade negra, um símbolo (e, também ele, imortal). "SUPER FLY" é o filme icónico, talvez mesmo "o" filme da blaxploitation (só com ele rivalizando "SHAFT", realizado um ano antes), ao condensar em si toda a "fúria de viver" de uma população recorrentemente marginalizada pelo classe dominante (a branca) de então. Com música de Curtis Mayfield, nome maior da soul e do funk norte-americanos (e, ele próprio, um activista pelos direitos civis), é este um filme-documento de uma época, de uma comunidade, de uma inteira civilização chamada América.
E, como já foi anunciado, para a semana haverá SESSÃO DUPLA! Em breve, divulgaremos cartaz. Estejam atentos!
terça-feira, novembro 29, 2011
Ciclo "FASSBINDER: TRILOGIA DO PÓS-GUERRA"

O próximo ciclo da MILÍMETRO tem início já esta quarta-feira, 30 Nov., com "O CASAMENTO DE MARIA BAUN" (1979).
Às 22h, no Passos Manuel.
terça-feira, novembro 22, 2011
Crítica "O ESPELHO"

Com duas dezenas de espectadores, "O ESPELHO" foi precedido de uma excelente apresentação introdutória da parte do Prof. Doutor Mário Graça Moura, certamente enriquecedora para todos os que assistiram à obra-prima de Andrei Tarkovsky.
A próxima sessão, que encerra a programação para este semestre, terá lugar no dia 8 de Dezembro, com o filme "SUPERFLY".
Mas os filmes não ficam por aqui!
Quase como uma oferenda natalícia, o Cineclube FDUP realizará uma especial sessão dupla, dia 13 de Dezembro (terça-feira), que contará, ainda, com um pequeno lanche entre os dois filmes (a anunciar brevemente). Será um momento não só para vermos bons filmes, mas também para todos aqueles que acarinham este projecto confraternizarem e trocarem impressões. Estejam atentos!
Aqui fica a crítica do Prof. Doutor Mário Graça Moura ao filme "O ESPELHO" (1975), de Tarkovsky.
CINECLUBE FDUP
SESSÃO 22 NOVEMBRO: "O ESPELHO" (1975), de Andrei Tarkovsky
Andrei Tarkovsky: O Espelho, Prof. Doutor Mário Graça Moura
‘O Espelho’ (1975) é a quarta das sete longas-metragens de Andrei Tarkovsky (1932-1986). Pensado nos anos 60, foi um projecto inicialmente rejeitado pela burocracia soviética. O filme acabaria por ser rodado na década seguinte mas, após o seu visionamento, as autoridades permitiram apenas uma distribuição limitada na URSS e proibiram a exibição no Festival de Cannes (no qual ‘Andrei Rubleev’ (1969) e ‘Solaris’ (1972) tinham sido premiados e ‘Stalker’ (1979), ‘Nostalgia’ (1983) e ‘O Sacrifício’ (1986) viriam a sê-lo). ‘O Espelho’ adquiriu entretanto a reputação de ser o filme mais pessoal – e talvez o mais difícil – de uma obra composta por filmes que não poderiam ter sido feitos por nenhum outro realizador e que são certamente exigentes.
Trata-se de facto, por maioria de razão, de um filme pessoal: baseia-se em acontecimentos reais, vividos pelo realizador e pela sua família. Por sua vez, a representação desses acontecimentos, passados em épocas diversas, é intercalada com a representação de sonhos – claramente sinalizados, no entanto – e com fragmentos de documentários; e a montagem obedece a um princípio de associação de ideias mais do que a uma lógica narrativa. Todavia, a estruturação com base em princípios que, como tem sido observado, remetem para a poesia é característica de outros filmes de Tarkovsky – filmes nos quais, como aqui, encontramos personagens e cenas misteriosas, que parecem resistir inclusivamente a uma interpretação simbólica. ‘O Espelho’ vai mais longe do que os outros filmes do realizador apenas na medida em que, como tem sido assinalado, constitui uma experiência de subjectividade total: os acontecimentos que compõem o filme são-nos apresentados tal como a mente do protagonista os recorda ou imagina. Significativamente, o protagonista (quando adulto) está sempre fora de campo.
Por outras palavras, ‘O Espelho’ é a memória que um homem tem da sua vida (e da vida da sua família) num momento de particular lucidez, em que parece ser capaz de ver ou entender o que antes não tinha visto ou entendido – e o filme está por isso montado de uma forma que reflecte o modo como a memória opera. Esse momento de particular lucidez é, aparentemente, o momento da sua morte, que constitui, como o próprio realizador viria a observar, o único elemento falso do filme – pois o homem em causa é, evidentemente, o próprio Tarkovsky. Para além de vermos o cartaz de ‘Andrei Rubleev’ a sugeri-lo, a mãe do protagonista (quando idosa) é a própria mãe do realizador – a voz do seu pai aparece igualmente, lendo os seus poemas – e grande parte do filme decorre numa casa que é uma réplica da casa da família do realizador, reconstruída no local onde essa casa existia.
A figuração da memória do protagonista apresenta um aspecto particularmente relevante. Há cinco personagens centrais: o protagonista, a sua mulher, o seu filho, a sua mãe e o seu pai, que no entanto está quase sempre ausente. Duas dessas personagens surgem-nos em várias fases da sua vida. Ora a actriz que representa a mulher do protagonista representa também a sua mãe quando jovem – há, aliás, um comentário da mulher sobre a sua parecença com a mãe do protagonista – e o actor que representa o protagonista quando adolescente representa também o seu filho. Por sua vez, a separação do protagonista e da sua mulher, e a dos seus pais, sugerem um paralelo entre aquele e o seu pai. As vidas de algumas personagens – na memória (lúcida) do protagonista – são portanto um espelho de outras vidas. É de resto através de espelhos que em certos momentos se passa do presente para o passado, ou para o sonho, e vice-versa.
Mas há ainda uma explicação adicional para o título do filme. Tarkovsky revelou que vários espectadores lhe disseram que tinham visto no filme a sua própria vida – o que, à primeira vista, é paradoxal, mesmo tratando-se de espectadores russos da mesma geração que o realizador. E no entanto não o é, porque o cinema, ou mais genericamente a arte, podem fazer-nos ver – e podem fazer com que nos vejamos a nós próprios – com uma lucidez particular, tal como sucede ao protagonista de ‘O Espelho’ no momento da sua morte; e essa lucidez pode levar-nos, mesmo estando longe do contexto histórico e geográfico do filme, a reconhecer nas vidas retratadas – que por sua vez espelham outras vidas – a nossa própria vida, passada ou futura. Não por acaso, ‘O Espelho’ começa com uma cena, que pode ser interpretada como uma metáfora do poder do cinema, em que um rapaz gago, através da hipnose, é curado e pode finalmente falar. E uma das sequências fundamentais do filme é um sonho, primeiro relatado e depois magnificamente figurado, sobre a impossibilidade de regressar à casa da infância, ou de recomeçar.
Como sempre em Tarkovsky, a atenção obsessiva ao movimento da câmara e ao som fazem de ‘O Espelho’ uma experiência visual e sonora de uma intensidade rara. Destacam-se, por exemplo, as imagens do vento – algumas criadas com a intervenção de helicópteros – e das gotas de água; ou o uso da luz nas cenas de interiores. Bruegel – de quem um quadro é recriado – e Leonardo da Vinci inspiram algumas das cenas. E o filme acaba com uma sequência verdadeiramente hipnótica, uma das duas ou três mais comoventes da obra do realizador, em que o pai do protagonista pergunta à mãe se prefere ter um filho ou uma filha, enquanto se ouve o início da ‘Paixão segundo S. João’, de J.S. Bach. Depois a mãe olha – por um momento, inclusivamente, olha para nós – e literalmente vemos com ela o sentido da sua vida.
domingo, novembro 20, 2011
22 Nov.: "O ESPELHO", de Andrei Tarkovsky
Design: Luísa BeatoO Cineclube FDUP volta a animar o panorama universitário do Porto, desta feita com um dos filmes maiores de Andrei Tarkovsky - "O ESPELHO" (ZERKALO), de 1975. Filme onde, talvez mais do que em qualquer outro, o cineasta russo expõe, autobiograficamente, as suas reflexões em torno da memória, a infância e a nostalgia. Tudo isto acompanhado de um primor visual que no cinema de Tarkoksvy atinge, como é sabido, níveis superlativos.
A acrescer ao banquete, teremos a apresentação, que muito honra o Cineclube, do Prof. Doutor Mário Graça Moura (FEP), bem como uma crítica (escrita) da sua autoria.
Por isso, melhor era impossível: é já esta terça-feira, às 18h15 (e com direito a uma surpresa!)
Venham e tragam um amigo. Ate lá!
terça-feira, novembro 15, 2011
Zabriskie Point
Fica aqui um comentário que escrevi, noutras paragens, a propósito da mais-que-famosa cena da explosão em Zabriskie Point (1970), de Michelangelo Antonioni.

"Explosões"
Entre tantas outras interpretações (suponho eu, não tive paciência para confirmar), há duas possíveis para um momento singular em Zabriskie Point. Falo, sem novidade, da sequência da explosão. Ora, há nela um instante (um plano, mais concretamente) muito especial. Depois de vermos tudo explodir (roupas, móveis, electrodomésticos ou, metaforica mas justamente, o poder, o dinheiro, o consumismo, o materialismo, enfim, o capitalismo), há um plano onde Antonioni filma a detonação de uma quantidade gigantesca de livros e calhamaços. Eis a dúvida: a literatura, o conhecimento, a... Cultura a explodir?

Há quem veja na explosão dos livros, como é o caso do inglês David Thomson, a destruição de bens que, mesmo não sendo materiais, não possuem um valor espiritual, interior, próprio. Donde, a inclusão da deflagração de todas aquelas páginas e palavras na explosão do tudo, i. e., do conjunto das coisas que não são realmente importantes para os homens: "the repeated explosion of the desert home - deprived of the violence by silence - speak for the helpless sterility of material things: not just of material goods, but the irrelevant accumulation of things that have no interior significance" (David Thomson, The New Biographical Dictionary of Film, Knopf, 2010, p. 28). É nestas things that have no interior significance que se encaixam os livros, a meu ver.
Todavia, e esta é a interpretação que eu faço, parece-me a mim, do que conheço da personalidade de Antonioni (um tipo muito fino, inteligente e anti-dogmático, nada dado a radicalismos fáceis) e do ambiente que impregna todo o filme (a contra-cultura americana dos anos 60 - seus clichés, fragilidades e antinomias -, que se cruza com o encontro de dois jovens, também eles, de certa forma, em contra-corrente com essa contra-cultura), que a explosão em causa (a dos livros, em concreto) pode ter um outro significado. Que é o de sugerir (em forma de pergunta) o seguinte: se mandarmos tudo (capitalismo, suas idiossincrasias e avatares) pelos ares, não destruímos, também, aquilo a que damos realmente valor?

Assim vistas as coisas, o filme de Antonioni (um homem de esquerda, é certo, mas sem se comprometer com ditames de espécie alguma na sua arte), acaba por ficar no meio de dois mundos. O mundo da juventude revolucionária, por um lado, cujas contradições movediças e debilidades internas são expostas (tal como fez Godard, em La Chinoise). E o mundo capitalista, este fortemente parodiado e criticado - pense-se, respectivamente, na cena em que os empresários visionam um anúncio publicitário ominoso, estupidificante, típico das sociedades de consumo; e na cena final, na casa prestes a explodir, em que os grandes planos fazem dos rostos dos empresários autênticos donos dos terrenos ("donos do mundo", desumanos e agarrados a cálculos económicos) simulados nas maquetes. E que meio-termo é esse?
É, justamente, aquele onde se situa um pensamento - político? - , uma concepção do mundo, que se interroga profundamente sobre fenómenos contestários de massa (a contra-cultura americana, de pendor acentuadamente esquerdista, no caso), mas que, simultaneamente, se furta terminantemente a aceitar um mundo onde o poder e o dinheiro comandem a vida. Ao filmar, primeiro, a explosão de bens materiais supérfluos, e, depois, livros (pensamentos, sentimentos, palavras, teorias), não está Antonioni a lembrar-nos o que, em parte, aconteceu na História? Não foram homens que, querendo sofregamente terminar com este ou aquele sistema, por projectarem nas suas cabeças um novo mundo, melhor e mais verdadeiro ("mudar o mundo", em português escorreito), acabaram por apagar tudo, inclusivamente aquilo que tinham por nobre?
É evidente que, neste contexto, o regime comunista da União Soviética assomará imediatamente às nossas cabeças, pois ele partiu da aversão de um conjunto de indivíduos a um sistema - o capitalista (tal como os jovens americanos da contra-cultura, embora com nuances fundamentais: logo à cabeça, a guerra do Vietnam, e, obviamente, a radical diferença entre os níveis de vida nos EUA dos anos 60 e os da Rússia czarista do início do séc XX). Contudo, parece-me, a leitura de Antonioni é mais abrangente: ela interpela e interroga toda e qualquer intenção destruidora (absolutizante, neste sentido), pois ela sempre correrá o risco de, eliminando o que de inútil - fútil, inane, materialista, etc. - considera viciar a humanidade, cair num subjectivismo total, o qual, em último termo, se reduz à censura e à repressão. E é aí, nesse preciso momento, que o que outrora se tinha por grandioso, sublime, assume um valor relativo e passa a poder ser objecto de eliminação, como se de um processo administrativo se tratasse. Por esse motivo é que livros, filmes e músicas extraordinárias, que hoje consideramos praticamente como património da humanidade, já foram, em tempos, destruídas, queimadas, apagadas da história (ou, pelo menos, foram feitas tentativas nesse sentido - felizmente, nunca com absoluto sucesso). Posta de outra maneira, a pergunta que fiz acima mantém o sentido original: onde começa e onde acaba o que é realmente importante para nós, homens? Quais os riscos (senão as certezas) de se tentar eliminar aquilo que, subjectivismos à parte, não tem realmente valor para as nossas vidas?

Não é por acaso que a explosão se passa no domínio da ficção, i.e., no domínio da imaginação de uma personagem (Daria), a qual, depois de rever, na sua cabeça, como seria, sorri e vai embora - e vai embora, quase diríamos, em paz com o mundo. Não é à toa, também, que a personagem em causa (a par da outra personagem, Mark) se situa à margem (ou, o que é o mesmo, no meio) desses dois mundos de que atrás falei. Daí a fuga, a evasão da realidade, e a procura de um outro mundo - o tal do deserto, momento demiúrgico de uma grandeza poética que não cabe em palavras -, mas este sim, verdadeiramente novo, onde todos teríamos que recomeçar do zero (areia, rochas e pouco mais) e apenas com o Amor como meio de nos relacionarmos e comunicarmos (onde o dinheiro e o poder, portanto, não estariam presentes para contaminar - introduzindo mecanismos artificiais diferenciadores e hierarquizantes - as relações humanas). Ou, nas palavras de David Thomson: "the prelude to a new society in which people regress to the primitive energy of desert creatures" (p. 27).

"Explosões"
Entre tantas outras interpretações (suponho eu, não tive paciência para confirmar), há duas possíveis para um momento singular em Zabriskie Point. Falo, sem novidade, da sequência da explosão. Ora, há nela um instante (um plano, mais concretamente) muito especial. Depois de vermos tudo explodir (roupas, móveis, electrodomésticos ou, metaforica mas justamente, o poder, o dinheiro, o consumismo, o materialismo, enfim, o capitalismo), há um plano onde Antonioni filma a detonação de uma quantidade gigantesca de livros e calhamaços. Eis a dúvida: a literatura, o conhecimento, a... Cultura a explodir?

Há quem veja na explosão dos livros, como é o caso do inglês David Thomson, a destruição de bens que, mesmo não sendo materiais, não possuem um valor espiritual, interior, próprio. Donde, a inclusão da deflagração de todas aquelas páginas e palavras na explosão do tudo, i. e., do conjunto das coisas que não são realmente importantes para os homens: "the repeated explosion of the desert home - deprived of the violence by silence - speak for the helpless sterility of material things: not just of material goods, but the irrelevant accumulation of things that have no interior significance" (David Thomson, The New Biographical Dictionary of Film, Knopf, 2010, p. 28). É nestas things that have no interior significance que se encaixam os livros, a meu ver.
Todavia, e esta é a interpretação que eu faço, parece-me a mim, do que conheço da personalidade de Antonioni (um tipo muito fino, inteligente e anti-dogmático, nada dado a radicalismos fáceis) e do ambiente que impregna todo o filme (a contra-cultura americana dos anos 60 - seus clichés, fragilidades e antinomias -, que se cruza com o encontro de dois jovens, também eles, de certa forma, em contra-corrente com essa contra-cultura), que a explosão em causa (a dos livros, em concreto) pode ter um outro significado. Que é o de sugerir (em forma de pergunta) o seguinte: se mandarmos tudo (capitalismo, suas idiossincrasias e avatares) pelos ares, não destruímos, também, aquilo a que damos realmente valor?

Assim vistas as coisas, o filme de Antonioni (um homem de esquerda, é certo, mas sem se comprometer com ditames de espécie alguma na sua arte), acaba por ficar no meio de dois mundos. O mundo da juventude revolucionária, por um lado, cujas contradições movediças e debilidades internas são expostas (tal como fez Godard, em La Chinoise). E o mundo capitalista, este fortemente parodiado e criticado - pense-se, respectivamente, na cena em que os empresários visionam um anúncio publicitário ominoso, estupidificante, típico das sociedades de consumo; e na cena final, na casa prestes a explodir, em que os grandes planos fazem dos rostos dos empresários autênticos donos dos terrenos ("donos do mundo", desumanos e agarrados a cálculos económicos) simulados nas maquetes. E que meio-termo é esse?
É, justamente, aquele onde se situa um pensamento - político? - , uma concepção do mundo, que se interroga profundamente sobre fenómenos contestários de massa (a contra-cultura americana, de pendor acentuadamente esquerdista, no caso), mas que, simultaneamente, se furta terminantemente a aceitar um mundo onde o poder e o dinheiro comandem a vida. Ao filmar, primeiro, a explosão de bens materiais supérfluos, e, depois, livros (pensamentos, sentimentos, palavras, teorias), não está Antonioni a lembrar-nos o que, em parte, aconteceu na História? Não foram homens que, querendo sofregamente terminar com este ou aquele sistema, por projectarem nas suas cabeças um novo mundo, melhor e mais verdadeiro ("mudar o mundo", em português escorreito), acabaram por apagar tudo, inclusivamente aquilo que tinham por nobre?
É evidente que, neste contexto, o regime comunista da União Soviética assomará imediatamente às nossas cabeças, pois ele partiu da aversão de um conjunto de indivíduos a um sistema - o capitalista (tal como os jovens americanos da contra-cultura, embora com nuances fundamentais: logo à cabeça, a guerra do Vietnam, e, obviamente, a radical diferença entre os níveis de vida nos EUA dos anos 60 e os da Rússia czarista do início do séc XX). Contudo, parece-me, a leitura de Antonioni é mais abrangente: ela interpela e interroga toda e qualquer intenção destruidora (absolutizante, neste sentido), pois ela sempre correrá o risco de, eliminando o que de inútil - fútil, inane, materialista, etc. - considera viciar a humanidade, cair num subjectivismo total, o qual, em último termo, se reduz à censura e à repressão. E é aí, nesse preciso momento, que o que outrora se tinha por grandioso, sublime, assume um valor relativo e passa a poder ser objecto de eliminação, como se de um processo administrativo se tratasse. Por esse motivo é que livros, filmes e músicas extraordinárias, que hoje consideramos praticamente como património da humanidade, já foram, em tempos, destruídas, queimadas, apagadas da história (ou, pelo menos, foram feitas tentativas nesse sentido - felizmente, nunca com absoluto sucesso). Posta de outra maneira, a pergunta que fiz acima mantém o sentido original: onde começa e onde acaba o que é realmente importante para nós, homens? Quais os riscos (senão as certezas) de se tentar eliminar aquilo que, subjectivismos à parte, não tem realmente valor para as nossas vidas?

Não é por acaso que a explosão se passa no domínio da ficção, i.e., no domínio da imaginação de uma personagem (Daria), a qual, depois de rever, na sua cabeça, como seria, sorri e vai embora - e vai embora, quase diríamos, em paz com o mundo. Não é à toa, também, que a personagem em causa (a par da outra personagem, Mark) se situa à margem (ou, o que é o mesmo, no meio) desses dois mundos de que atrás falei. Daí a fuga, a evasão da realidade, e a procura de um outro mundo - o tal do deserto, momento demiúrgico de uma grandeza poética que não cabe em palavras -, mas este sim, verdadeiramente novo, onde todos teríamos que recomeçar do zero (areia, rochas e pouco mais) e apenas com o Amor como meio de nos relacionarmos e comunicarmos (onde o dinheiro e o poder, portanto, não estariam presentes para contaminar - introduzindo mecanismos artificiais diferenciadores e hierarquizantes - as relações humanas). Ou, nas palavras de David Thomson: "the prelude to a new society in which people regress to the primitive energy of desert creatures" (p. 27).
segunda-feira, novembro 14, 2011
Ciclo de Animação, no CineFEUP

Nem de propósito, quando ainda há pouco tempo o nosso Cineclube havia exibido um filme de animação ("MARY AND MAX", de Adam Elliot), o Cineclube da Faculdade de Engenharia da UP (CineFEUP) vem propôr um interessante ciclo dedicado exclusivamente ao cinema de animação.
Esta iniciativa aparece, note-se, numa altura em que o cineclubismo universitário se vem afirmando cada vez mais na cidade do Porto. A par do nosso Cineclube FDUP (o mais antigo no panorama universitário), o CineICBAS, CineFMUP e o CineFEUP asseguram, todos eles, uma programação regular e muito interessante. A mim, pessoalmente, dá-me uma enorme satisfação assistir a este movimento, não só pelo que de interventivo e cultural ele representa, mas, também, de uma perspectiva mais prática, pela quantidade de bons filmes que me permitem ver, em boas condições, e gratuitamente. Esperemos que estes projectos se mantenham de boa saúde por muito tempo!
Aqui fica um pouco mais sobre o ciclo de animação levado a cabo pelo CineFEUP:
CICLO DE ANIMAÇÃO
Do Rato Mickey ao Doraemon, desde tenra idade que nos habituamos à técnica da animação de imagens para simular situações que a realidade tantas vezes limita. Mas com o passar dos anos, esse mundo mágico vai perdendo aos poucos o seu encanto. Porquê? Não sabemos, nem é nosso interesse saber. A animação está viva e recomenda-se, dos mais novos aos mais velhos e só nos interessa demonstrá-lo.
Em pareceria com a Casa da Animação, o CineFEUP estreia a sua actividade deste ano lectivo com um ciclo dedicado a esta técnica na sétima arte, prometendo trazer de volta o interesse de todos. Durante o mês de Novembro exibiremos semanalmente, às Terças, uma curta metragem nacional com apresentação pela Casa da Animação, seguido de uma longa de culto, cobrindo várias técnicas, do stop-motion ao Flash.
15 de Novembro
Desassossego (2010), de Lorenzo degl'Innocenti
Corpse Bride (2005), de Tim Burton
22 de Novembro
Viagem a Cabo Verde (2010), de José Miguel Ribeiro
Spirited Away (2001), de Hayao Miyazaki
29 de Novembro
O Homem da Cabeça de Papelão (2010), de Luís da Matta Almeida e Pedro Lino
Waltz With Bashir (2008), de Ari Folman
Todas as sessões se realizam às 21:00 na sala B003 da FEUP e têm entrada gratuita.
Mais detalhes do ciclo podem ser encontrados no nosso website:
http://www.cinefeup.org/ciclodeanimacao.html
Bem como no evento do Facebook:
https://www.facebook.com/event.php?eid=139143672858169
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