domingo, outubro 28, 2012

30 Out.: "O SANGUE"

Design: Teresa Chow

Esta terça-feira, dia 30 Out., o Cineclube FDUP exibe, pelas 18h15, na sala 0.01 (piso do bar), O SANGUE, primeira obra de Pedro Costa, e filme-referência da geração de realizadores portugueses emergente nos anos 80 (além de Costa, João Canijo, João Botelho, Teresa Villaverde), que bebeu, em parte, os ensinamentos e a linguagem do "Cinema Novo" dos anos 60 (César Monteiro, Paulo Rocha, Fernando Lopes).

Ao contrário do que consta do cartaz, não passaremos, por razões logísticas, "Sombras dos Antepassados Esquecidos", cuja exibição fica, assim, adiada para dia 27 de Novembro. Por esse motivo, os Cineclube pede, desde já, as suas desculpas.

Até terça!

quinta-feira, outubro 18, 2012

doclisboa 2012



De 18 a 28 de Outubro, a 10ª edição do doclisboa 2012 volta a trazer o melhor do documentário mundial a Lisboa, com filmes, conferências, debates, masterclass, workshop e uma valiosa retrospectiva da obra de Chantal Akerman. Mais info. no sítio oficial: http://www.doclisboa.org/2012/

O Cineclube FDUP marcará presença e convida todos os seus associados e simpatizantes a fazer o mesmo!

Bons filmes!

domingo, outubro 14, 2012

16 de Outubro no Cineclube FDUP: "CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE"

Design: Teresa Chow

Esta Terça-Feira, dia 16 de Outubro, pelas 18:15, na sala 0.01, o Cineclube FDUP apresenta CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE, um filme de Nagisa Ôshima, 1960, Japão.
A entrada é gratuita, aparece!

segunda-feira, outubro 08, 2012

Crítica "F, de Fraude"


Aqui fica a crítica a F, DE FRAUDE (Orson Welles, 1972), pelo André Guerreiro.



Orson Welles catalogou o filme F For Fake de “a new kind of film”, e podemos perceber porquê, quando tentamos cometer o perigoso acto de tentar rotular de forma padrão este filme. Podemos atender ao facto de cada apropriação da realidade na forma de celuloide ser um tipo de mentira, que a própria essência do cinema é ser uma ilusão de realidade, por mais que se tente aproximar desse absoluto. Ser mais que um afloramento artificial de uma realidade que não pode ser encapsulada porque limitada a um tempo próprio, apenas podendo ser reinventada, reinterpretada pelo indivíduo, com todo o esbatimento e valoração que a percepção de cada um selecciona. E é exactamente por esse facto,  pelo facto da realidade se tornar apenas arrogante sinónimo de percepção individual quando atinente à valoração de algo tão indeterminado como a arte, dificilmente chamaremos a F For Fake um documentário. Pela forma livre como desconstrói o que essencialmente podemos chamar de todo um grande truque de magia, porque combina elementos verdadeiros (como será a carne dos participantes e os supostos factos reais, por na consciência colectiva serem dados como provados) e ficção, ilusão, mentiras, a manipulação de tudo o que vemos, mesmo desses factos verdadeiros. E é assim mesmo que começa o filme. Orson Welles, actor na pele de um mágico, diringindo-se a uma criança (que poderá simbolizar a clássica ingenuidade do espectador permeável a qualquer mentira que lhe possam impingir quando exposta num determinado formato artístico) demonstra o seu poder de transformar a realidade, na forma de uma chave que dá lugar a uma moeda, voltando a ser uma chave. Todo o tipo de metáforas poderiam ser diagnosticadas nesta pequena introdução, embora Orson Welles nos diga que a “chave não é um símbolo”. A chave, que mereceu tanto ênfase, e que tanto focamos a nossa atenção, embora distraídos pelos sucessivos cortes e mudanças de planos, demonstra-nos exactamente a exagerada tendência de imbuir simbologia num mero objecto, que pensamos representar algo mais que a sua simples existência objectiva. Tal processo de preencher um vazio com um exagero de significado, e a facilidade com que a nossa percepção é conduzida por uma outra visão, sem questionar, é importante para as questões que mais tarde serão colocadas em relação à arte, e à sua validade e seu mercado, que são controlados também pela visão de inquestionável autoridade, na figura dos experts. Em ultima análise, ocorre o mesmo com o cinema, pois a edição, mecanismo consubstanciado nos rápidos e fluidos cortes que funcionam como um mosaico onde as peças apenas são unidas pela volátil argamassa da realidade, funcionam como um truque de magia. A nossa visão e posterior entendimento são manipulados, sendo-nos permitido apenas uma visão parcial do que está a acontecer/aconteceu realmente. Na cena inicial, vemos o truque de magia na sua forma perfeita, tal como mais tarde veremos os factos que formam a história propriamente dita, mas Welles permite-nos ver a moldura dessa realidade: a camara, a equipa de produção, as luzes, a tela branca. O próprio cinema é um truque, mas os objectos e os factos não deixam de existir, tal como a chave não perdeu a sua materialidade.

Embora todas estas questões sejam imediatamente visíveis nos primeiros minutos de filme, a principal camada cutânea deste camaleónico filme em termos de guião é o documentar da vida de o provavelmente maior falsificador de arte do século XX, Elmyr de Hory (sendo este apelido também camaleónico, se entendermos a justiça e a polícia como o predador).  Elmyr, emigrante hungaro ficou conhecido por forjar na perfeição quadros de mestres como Picasso, Matisse, ou Modigliani, nunca tendo sido reconhecido nos trabalhos em que assina o próprio nome. Talentoso ao ponto de conseguir passar-se por uma miríade de artistas dignos de eterno reconhecimento, mas nunca reconhecido como um artista de direito próprio. Pode Elmyr ser considerado um artista? A noção de artista e a de nome e reconhecimento do mesmo parecem ser indissociáveis. Esta questão dá origem ao momento mais pungente e honesto do filme, em que Welles reflecte quase como se suspirasse e a sua própria voz, antes teatral e forte, se vergasse perante a realização do poder do homem de transcender a sua finitude. E que esta intemporalidade da obra não perde significado por não ser acompanhada pela herança de um nome. “Maybe a man’s name doesn’t matter all that much”, quando a arte constitui mais a prova da grandeza do Homem que de um homem em particular, quando o detalhe desaparece e só existirem ecos do que um dia será, inevitavelmente, um passado distante.

Tal como o nome dos trabalhadores da catedral nunca será lembrado, quando a memória e nome do falsificador desaparecer, o seu legado continuará a existir. Mesmo que não tenha o seu nome, o real engolirá o que outrora foi mentira e fraude, e um Modigliani de Elmyr será apenas um Modigliani.Nunca deixando de ser Elmyr, mas de tal ninguém saberá, como se de um truque que o mágico nunca revelou se tratasse. A fraude e a mentira só o serão se detectadas, e é tão fácil enganar quem está habituado a ter razão (como o espectador que não questiona, e o expert que não se concede a falhar), como provam os minutos finais do filme. A questão torna-se, então: Essa simples detecção provoca o retirar da obra do pedastal do que lícito ser arte? 

sexta-feira, outubro 05, 2012

10 Out: "A nossa forma de vida", no Passos Manuel



Dia 10 de Outubro, quarta-feira, a Milímetro faz a sua rentrée com A nossa forma de vida (2011), de Pedro Filipe Marques, filme vencedor do prémio Melhor Primeira Obra no doclisboa 2011. Desfaçam as dúvidas que ainda possam ter sobre ir depois de verem o trailer abaixo.

Às 22h, no Passos Manuel.




domingo, setembro 30, 2012

Esta 3ªf (2 Out.): "F, DE FRAUDE"

Design: Teresa Chow

É já esta 3ª feira, dia 2 Outubro, que o melhor cinema da UP volta à sala 0.01 (piso do bar), da Faculdade de Direito, com F, DE FRAUDE (1975), de Orson Welles.

A sessão tem início às 18h15, com a apresentação do Tiago Ferreira (FCUP).

Até lá!

sexta-feira, setembro 28, 2012

Nova programação

Design: Teresa Chow


Caros cineclubistas e amigos,

O Cineclube FDUP está de volta!

Para este semestre, o Cineclube propõe uma programação rica e diversificada que, como sempre, tem como escopo fundamental a sensibilização para as diferentes estéticas e filmografias da história do cinema, procurando "saltar" entre épocas, correntes e geografias.  Deste modo permitindo ao público apalpar o terreno para, posteriormente - espera-se -, explorar mais por si e desenvolver os seus gostos próprios.

Assim, começaremos, já esta terça-feira, dia 2 de Outubro, com F, DE FRAUDE (1975), documentário paredes meias com a ficção (ou efabulação), assinado por um dos maiores realizadores da história, Orson Welles (com intervenção activa no próprio filme). Nova aposta, portanto, no registo documental (com as reservas acima mencionadas) por parte do Cineclube, e oportunidade para ver um dos filmes menos falados do cineasta americano.

A 16 de Outubro, Mizoguchi deixará de ser o único representante do cinema japonês no histórico das programações da casa. Nagisa Ôshima, um dos expoentes do cinema japonês pós-clássico, trará CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE (1960), filme percursor da Nuberu Bagu japonesa, corrente integradora do movimento, mais genérico, das novas vagas que, por volta dos anos 60, e tendo em Godard, Truffaut e companhia o seu epicentro, emergiu um pouco por todo o mundo, desconstruindo a linguagem cinematográfica clássica e questionando os seus paradigmas teóricos e técnicos. No caso nipónico, a Nuberu Bagu significou, poder-se-á dizer, um duplo corte: cinematográfico, na medida em que revoluciona a forma de fazer cinema dos clássicos (Ozu, Naruse, Mizoguchi); e cultural, por retratar um Japão também ele pós-clássico, isto é, um Japão "ocidental", sob influência dos EUA, com tudo o que de mais virulento isso acarretou (o consumismo, a violência, a sexualidade, o rompimento da família, o desnorteamento da juventude, o abuso de bebidas alcoólicas, etc.).

30 Outubro será o dia de Sergei Parajanov, realizador em contra-corrente com a ditadura soviética da "arte socialista", e que teve em SOMBRAS DOS ANTEPASSADOS ESQUECIDOS (1965) um dos seus grandes filmes, fruto de um brilhantismo técnico e visual que o aproxima de Tarkovsky, não descurando, simultaneamente, o seu interesse pelo mundo rural e foclórico da Ucrânia soviética.

Seguiremos com O SABOR DA CEREJA (1997), o aclamado filme do iraniano Abbas Kiarostami, outra estreia absoluta no Cineclube, que lhe valeu a Palma de Ouro, em Cannes, em 1997

A fechar a programação para este semestre, nova aposta no cinema português, como que para deixar bem acessível aquilo (o cinema de autor nacional) que o mercado não deixa. Depois da exibição de "Mutantes", o Cineclube FDUP propõe aquele que é um dos grandes filmes na história do cinema português: O SANGUE (1989), o primeiro filme de Pedro Costa, realizador multi-premiado no circuito internacional, mas que tem vindo, no entretanto, a construir uma abordagem cinematográfica distante dessa primeira obra. Oportunidade, também, para apreciar dois grandes actores de uma geração: Pedro Hestnes e Inês de Medeiros.


Em Dezembro, o Cineclube oferecerá uma sessão especial e, quem sabe, algo mais!

Até terça-feira, às 18h15, na sala 0.01 (piso do bar). Todos convidados.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Cursos de Cinema

Novos cursos de cinema, por David Pinho Barros, Mestre em Cinema pela Universidade Nova de Lisboa.





quarta-feira, setembro 19, 2012

back to school

(O meu maior desejo, 2011, Hirozaku Kore-eda)

Caros amigos,

O Cineclube FDUP prepara-se para voltar para mais um semestre com uma excelente e abrangente programação. Ainda sem anunciar surpresas, podemos dizer-vos para marcarem já nas vossas agendas a data da primeira sessão: dia 2 de Outubro (3.ª feira), 18h15.

Até lá... estejam atentos!

terça-feira, setembro 11, 2012

Ciclos Pequenos, no Cineclube da Maia



"Novos Direitos" é a proposta para Setembro do Cineclube da Maia. Com programação e apresentação da Prof.ª Doutora Luísa Neto, da FDUP.

sexta-feira, agosto 31, 2012

domingo, julho 15, 2012

WA American Express



Filme publicitário de Wes Anderson para a American Express.

domingo, junho 17, 2012

"É na Terra Não é na Lua" X 3



Dias 20, 21 e 22, a Milímetro exibe, no Cinema Passos Manuel, o multi-premiado (prémio principal no DocLisboa 2011) documentário do realizador português Gonçalo Tocha: "É na Terra Não é na Lua". Sempre às 21h30 (dia 21, excepcionalmente, às 22h).

quarta-feira, maio 30, 2012

Esta 6ª f.: LUBITSCH, no Passos Manuel




Esta 6ª f., 1 Junho, às 22h, no cinema Passos Manuel. Cortesia da Milímetro.

segunda-feira, maio 07, 2012

VII Ciclo: "A Justiça no Cinema", no TCA



Associação Jurídica do Porto, em parceria com a Associação Sindical dos Juízes Portugueses - Direcção Sindical Norte e o Conselho Distrital do Porto da Ordem dos Advogados, realizará o VII ciclo de cinema jurídico "A Justiça no Cinema", no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Indie Lisboa 2012 : A Casa, de Júlio Alves


Apesar da longa carreira (leia-se difícil sobrevivência) no cinema, A Casa é apenas a primeira longa metragem de Júlio Alves, pontuada por várias curtas de relativo sucesso.

 A Casa, filme a que lhe assenta bem a frieza linguística do título, bem mais impessoal que a tradução inglesa “The Home”.  E é exactamente essa frieza da abstracção do que significa uma casa, que antes de ser uma home é um mero edifício, um conjunto desconjuntado de materiais (sendo que o realizador faz questão de abusar desta subtileza, que só o é nos primeiros planos).

 Antes da concretização do desenho, do sonho de outrem, outros sonhos moram lá. Sonhos esses alimentados pela criação de raízes alheias, que é do dinheiro que a matéria destes se torna concreta. António, Zé Maria e João, são os trabalhadores que habitam a casa e a acompanham na sua fase embrionária de vida, a forma-la antes de ela ter personalidade.

Vários destinos são ali cimentados, sendo daí que o filme extrai a sua força e sentido, da dicotomia existente entre o fim do processo de construção representar um novo local de habitação para x pessoa, instituição sem rosto, e ao mesmo tempo significar o fim de um capítulo de vida para os trabalhadores que acompanhamos.

Filme que cumpre aquilo a que se propõe - esse clássico eufemismo para filme pouco ambicioso- apesar de sustentado por ambições. Ambição de uma vida melhor, de uma vida diferente, de trabalhadores emigrantes, que apenas procuram a matéria prima para construir uma casa que possam chamar sua.

IndieLisboa 2012: "De Jueves a Domingo", de Dominga Sotomayor


"De Jueves a Domingo", a primeira longa-metragem da chilena Dominga Sotomayor, estreada em competição e premiada no Festival Internacional de Roterdão, venceu nesta edição do IndieLisboa o Grande Prémio de Longa Metragem “Cidade de Lisboa”.

Esta é uma obra que não se identifica com um só género cinematográfico. Começa por sugerir um road movie, quando uma família inicia uma viagem longa de automóvel, para o norte do Chile, em busca de um terreno que ninguém sabe exactamente onde é. (Um pormenor que nos faz recordar o filme de Wim Wenders, em que Travis vive obcecado com a propriedade que comprara no meio do deserto, em Paris, Texas.) 

A certa altura, porém, apercebemo-nos de que não é uma simples viagem de férias. Através do olhar de Lucía, a filha mais velha, observamos a ruptura iminente do casal, ainda que subtil. Os silêncios prolongados e desconfortáveis acabam por ser o mais forte sinal da falta de entendimento entre os pais que - descobrimos mais tarde - já se haviam "separado" ainda antes da partida. É esta saliente componente dramática - ainda que partilhe um pouco da apatia e desprendimento associados ao road movie, que faz com que "De Jueves a Domingo" se trate de um híbrido de géneros. 

Ainda assim, o divórcio parental acaba por perder importância face ao aspecto mais forte do filme, que é o seu registo familiar, o do retrato fiel da infância. Percebe-se que entre o banco da frente e o de trás há uma forte barreira, ainda que invisível, que divide dois mundos muito distintos. 

A descrição desse mundo à parte, das crianças, é tão fidedigna que nos faz recordar a nossa própria infância de uma forma pouco habitual, transcendendo a mera referência. Os banhos de rio, as primeiras lições de condução, a vista da janela traseira do carro com a marca gravada no canto inferior do vidro, as birras intermináveis e a cedência dos pais (às vezes não), as mais insólitas posições no banco do carro numa viagem longa, a rivalidade entre irmãos (o nível do sumo no copo, que deve ser milimetricamente igual), os sons da consola de jogos, tudo é ternurento e nostálgico, sem cair nos exageros cor-de-rosa, evitando a felicidade perfeita e cristalizada que, mesmo nessa idade, não existe.

É neste contexto que a estrutura familiar clássica - pai, mãe, filho e filha, se desconstrói, à medida que as memórias se desvanecem e Lucía cresce, no tempo de um filme.

quarta-feira, maio 02, 2012

IndieLisboa 2012: Competição Internacional Curtas 6



Le facteur humain ("O Factor Humano")
Thibault Le Texier, França, 2011, 28’

Para ilustrar os métodos de administração científica popularizados por Frederick Taylor (o conhecido "Taylorismo"), Thibault Le Texier seleccionou inúmeras imagens de filmes institucionais americanos realizados a partir da década de '70, disponíveis em arquivos para livre utilização, bem como alguns textos de manuais de gestão do início do séc. XX.

Este trabalho de edição não é, porém, um puro documentário, na medida em que recorre a instrumentos ficcionais, através da narração de um conjunto de cartas escritas pelo autor. Ouvimos uma conversa conjugal, entre o marido engenheiro que se deslocou para uma fábrica para aplicar os princípios Tayloristas e a mulher que se entusiasma com estas ideias e acaba por também as adoptar nas lides domésticas.

Apesar de reconhecermos nesta obra um esforço sério de pesquisa e reconstrução histórica, sentimos que teria como fim mais útil a sua inserção num qualquer programa escolar de História, aliando aspectos lúdicos e pedagógicos.








Mupepy Munatim

Pedro Peralta, fic., Portugal, 2012, 18’

"Mupepy Munatim" é o projecto final de Mestrado em Estudos Fílmicos de Pedro Peralta, estudante da Universidade Lusófona, e segue o percurso de um homem que, tendo partido para França, regressa a Portugal para procurar a campa da sua mãe. 

Desde o bairro do Zambujal, passando pela Igreja de Odivelas, até ao prado onde mãe e filho se reencontram, sob uma árvore frondosa, os planos são poucos e longos, mas não especialmente belos ou contemplativos. Não que haja muito a dizer, mas acaba por não haver também muito sentimento nesta procura, neste caminho de lembrança e de saudade. Para evocar tais recordações, resta-nos apenas a música, cantada em Kikongo, para nós o único momento encantador desta pequena obra.




Les navets blancs empêchent de dormir
Rachel Lang, fic., França/Bélgica, 2011, 27’

"Os Nabos Brancos Impedem de Dormir" é a segunda parte de uma trilogia de filmes que partilham a mesma actriz principal, Salomé Richard, seguindo-se a "Pour Toi Je Ferai Bataille, o trabalho de final de curso de Rachel Lang que recebeu no Festival de Locarno o Leopardo de Prata, na categoria de curtas-metragens.

Ana e Boris têm um relacionamento à distância, e quando ela se dirige a Bruxelas para o visitar, apercebe-se de que, depois de cinco anos em permanentes rupturas e reconciliações, talvez tenha chegado o momento da separação definitiva. 

Depois de uma festa algo descontrolada e de uma noite de insónia devida à ausência de Boris para "comprar tabaco", (apesar de haver quem diga que são os nabos brancos que impedem de dormir, têm demasiada Vitamina C), Ana decide-se. Ele responde-lhe que sabe que ela regressará, que nunca ninguém o amou tanto como ela, "sem contar com a mãe". 

Nesta teia intrincada de emoções e reviravoltas sentimentais, de silêncios e desilusões, Rachel Lang descreve com solidez e realismo as dificuldades dos relacionamentos naquilo que ela diz ser uma tragicomédia, em que o tema principal é intercalado com pequenos apontamentos cómicos, como o da amiga que tem o aquecimento avariado e usa o forno para aquecer a casa, aproveitando entretanto para fazer dezenas de bolos ou do soldado atiradiço que é rejeitado com uma só tirada sarcástica da nossa protagonista.




Sielunsieppaaja/Soul Catcher
PV Lehtinen, doc./exp., Finlândia, 2011, 14’

Esta curta-metragem finlandesa insere-se na categoria do documentário experimental, e relaciona genericamente três temas. 

Observamos, em primeiro lugar, uma colónia de formigas na sua labuta frenética. Depois aparece um grupo de veraneantes numa praia próxima de Helsínquia, filmados ora em plano fixo, modo retrato, ora em movimento rápido, numa perspectiva semelhante à das formigas. Por último, vemos uma família Masai, por vezes enquadrada no interior de uma câmara fotográfica de grande formato, numa subtil referência à crença de que a fotografia rouba a alma do sujeito fotografado. 

Filmado sem diálogos, este filme baseia-se no poder da captura da imagem fotográfica para cristalizar uma essência humana ou natural. 


IndieLisboa 2012: The Last of England, de Derek Jarman (1987)


  Existem filmes difíceis de criticar. Por não se conseguir discernir uma linha de história obvia e linear, tão útil para a compreensão do normal espectador como do critico atento a qualquer incongruência que o permita disparar mecanicamente os já estudados adjectivos padrão, ou pior, filmes com ausência absoluta de narrativa estruturada, de desenvolvimento de personagens, de lugares comuns onde déjà-vus fílmicos possam acontecer, para descanso do critico que não pode simplesmente rotular o filme de “experiência sensorial”.

Last of England é seguramente uma dessas experiências sensoriais, uma febril colagem de visões anunciadoras de uma Inglaterra pós-apocalíptica, tão avant-garde na forma que apresenta, como na clarividência profética do declínio.

Um punk a caminhar nas ruínas de uma civilização, um bebé sozinho rodeado de jornais como representantes institucionais de um conhecimento geral do fim, uma viúva a rasgar o vestido de noiva numa dança furiosa com as memórias, enquanto tudo à volta arde. São estas as declarações filtradas pelo psicadelismo contestatário e supostamente subtil da mente de Jarman, constituindo uma certidão de óbito do futuro da nação britânica, sem palavras e construído como poema visual, ainda que visceral e negro, como o poema Howl de Allen Ginsberg (um dos representantes da Beat Generation), fazendo sentido que conceptualmente entrecruze o imaginário selvagem na forma de fotogramas de Jarman.

Apesar das valências óbvias deste filme em categorias de originalidade e técnica, sendo que a materialização do imaginário é muitas vezes impressionante visualmente, e o sucesso de Jarman em conseguir retratar uma paisagem coesa de destruição e abstracto fim, sentimos que a mensagem e o móbil de toda estas imagens mentais são sempre a mesma, ideologicamente clichés. Mas o filme é imensamente pessoal, dizendo respeito aos medos e considerações do realizador, que faz filmes enquanto tudo à volta dele arde, no auto-de-fé dos seus valores morais. 

Como apenas podemos especular sobre a nossa capacidade de interpretação de tal obra e pessoa, podemos só humildemente considerar que existem filmes difíceis de criticar.

terça-feira, maio 01, 2012

IndieLisboa 2012: Cut, de Amir Naderi (2011)





A premissa deste filme japonês de realizador iraniano (Amir Nadeni) não podia ser mais interessante: a de um homem cujo amor ao cinema o leva a pôr em risco a própria vida

Shuji é um jovem (aspirante a) realizador em dificuldades económicas, cuja principal ocupação é a projecção de filmes no terraço do seu prédio, para uma mão-cheia de fiéis espectadores. Cartazes de filmes e realizadores e programas de sessões forram o apartamento de alto a baixo, cobrindo paredes, tecto, portas, até janelas, como se toda a luz e ar que entrassem fossem filtrados pelo cinema.

Nos tempos livres, empunha um megafone pelas ruas de Tóquio, gritando para as multidões apáticas  e apressadas aquilo que todos sabem mas se cansaram de dizer: o cinema de autor, enquanto criação e arte, perdeu o lugar para o cinema de mero entretenimento, que nasce e morre no espaço hermético dos multiplexes, também porque não está, à partida, destinado à posteridade. A propósito disso, e contra certas ideias feitas de que o cinema autoral é elitista, abstracto e intransponível, Shuji relembra também que o bom, o grande cinema clássico, é intemporal, e se cultiva, se educa, se sensibiliza, também diverte, também entretém; não há necessariamente uma cisão entre os dois mundos.

Esta paixão – fanatismo? - absorvente não lhe permite dedicar-se a qualquer tipo de trabalho, e assim, quando um dia é confrontado com o assassinato do irmão e a herança da sua dívida astronómica para com uma organização mafiosa, Shuji não tem outra hipótese senão vender o corpo de uma forma inusitada, leiloando a face e a integridade, tornando-se um saco de boxe humano, trocando socos por dinheiro.

Para resistir à tortura voluntária e vingar a memória do irmão, Shuji exige que a arena seja o quarto-de-banho imundo onde ele foi morto. Enquanto é espancado, relembra com fervor religioso todos os filmes que exibiu, todas as grandes obras que o marcaram mais profundamente que os golpes que agora lhe infligem. Quando regressa a casa, ao final do dia, adormece no embalo do som da película a ser projectada.

O vermelho-sangue, tom dominante do filme, é pontuado por cenas a preto e branco, em que Shuji se dirige às campas dos grandes realizadores japoneses – Kurosawa, Ozu, Mizoguchi, para lhes prestar homenagem e rezar por inspiração para que consiga criar algo à sua altura, em sua honra e do Cinema.

Apesar disto, “Cut” eventualmente cai na monotonia da violência e na repetição do discurso purista, o que acaba por retirar alguma força à mensagem valiosa que subjaz ao filme – uma metáfora fortíssima dos obstáculos que um criador cinematográfico enfrenta na construção do seu percurso, na criação e divulgação da suas obras, que se torna ainda mais relevante pelo seu pendor autobiográfico, uma vez que o realizador, Amir Naderi, se exilou nos Estados Unidos nos anos '80 e também ele abdicou da sua vida para se dedicar exclusivamente ao cinema.