terça-feira, novembro 20, 2012
Low Tide, LEFFEST'12
Sobre um dos filmes do LEFFEST' 12 para o qual o Cineclube FDUP ofereceu bilhetes, Nuno Galopim escreve aqui, descrevendo-o como um dos melhores filmes que viu nesta edição do festival.
"Segundo filme de Roberto Minervini, Low Tide é um olhar de poucas
palavras construído em volta do dia a dia de um rapaz de 12 anos, algures numa
pequena cidade americana (pela cena final, imaginamos que seja no litoral),
durante os meses de Verão. Nas primeiras imagens vemo-lo a andar de bicicleta,
dela saindo para apanhar uma cobra que vira entrar numa fissura no solo. Nos
minutos seguintes transporta e arruma gelo, faz uma máquina de roupa... E só
passado um quarto de hora uma voz rompe o silêncio de palavras. É a mãe, que no
seu jeito indolente, lhe pede uma cerveja.
Ao longo dos cerca de 90 minutos do filme pouco mais vemos do que o quotidiano do rapaz e o mundo de contrastes da mãe (que de dia trabalha num lar de idosos, contando com a ajuda do filho que por ali almoça, e vive noites ruidosas de festa entre amigos). Mais de gestos de palavras, Low Tide é também mais feito de olhares que propriamente de uma trama. A câmara de Roberto Minervini aproxima-se por isso de um registo documental, procurando observar sem interferir, estudando o espaço, reparando nas rotinas, sugerindo que, além delas, pouco mais há naquelas vidas. E o aparente espaço de liberdade total que parece existir na vida do pequeno protagonista é, afinal, pouco mais que um terreno em potência onde parece que nada de novo ele próprio já espera que aconteça.
Destacando-se pelo cruzamento de uma linguagem documental com uma ideia minimalista de ficção, Low Tide tem como potenciais focos de interesse a espantosa interpretação do protagonista (Daniel Blanchard ) e uma demanda que parte da sugestão de uma muito ténue linha narrativa que vive sobretudo do tempo que passa, daquele lugar e suas personagens. E tal como o realizador ali não procurou mais (nem sequer o nome da mãe e do filho), não queiramos nós encontrar aqui o que aqui não está."
Ao longo dos cerca de 90 minutos do filme pouco mais vemos do que o quotidiano do rapaz e o mundo de contrastes da mãe (que de dia trabalha num lar de idosos, contando com a ajuda do filho que por ali almoça, e vive noites ruidosas de festa entre amigos). Mais de gestos de palavras, Low Tide é também mais feito de olhares que propriamente de uma trama. A câmara de Roberto Minervini aproxima-se por isso de um registo documental, procurando observar sem interferir, estudando o espaço, reparando nas rotinas, sugerindo que, além delas, pouco mais há naquelas vidas. E o aparente espaço de liberdade total que parece existir na vida do pequeno protagonista é, afinal, pouco mais que um terreno em potência onde parece que nada de novo ele próprio já espera que aconteça.
Destacando-se pelo cruzamento de uma linguagem documental com uma ideia minimalista de ficção, Low Tide tem como potenciais focos de interesse a espantosa interpretação do protagonista (Daniel Blanchard ) e uma demanda que parte da sugestão de uma muito ténue linha narrativa que vive sobretudo do tempo que passa, daquele lugar e suas personagens. E tal como o realizador ali não procurou mais (nem sequer o nome da mãe e do filho), não queiramos nós encontrar aqui o que aqui não está."
quarta-feira, novembro 14, 2012
Doclisboa'12: Roman Polanski: A Film Memoir
Crítica por: André Guerreiro
Embora seja apresentado como um documentário, só o é na sua definição mais restrita – em primeiro lugar, por não existir uma frieza analítica subjacente ao normal distanciamento proporcionado pela imparcialidade jornalística, pelo facto de a entrevista ser conduzida pelo seu amigo de longa data (apesar de ser filmada várias vezes a lareira introduzindo uma ideia de quão familiar está a ser a conversa, sempre uma lovely referência). Não significa necessariamente que estejamos perante um bias, porém. Enquanto vamos avançando no filme e,consequentemente, no detalhar dos infortúnios vividos por Polanski, percebemos que este filme constitui quase um direito de resposta de um individuo perante uma ordem natural e social que em nada foram fáceis para ele.
Torna-se também díficil rotular este filme de documentário
quando é, essencialmente, uma longa entrevista pontuada com elementos visuais
algo óbvios e literais (e melosos efeitos, diga-se, prestando uma memoir também
ao powerpoint).
Ora, uma das valências anunciadas do filme seria o
entrecruzar o depoimento de Polanski
retratando a sua própria existência e a correlação existente com os filmes que
fez, explorando o normal e esperado acto de transpor, mesmo que inconscientemente,
algo do ADN vivencial para a obra do artista. Esta premissa automaticamente
afastar-lo-ia dos genéricos trabalhos documentais que se limitam a detalhar
informações facilmente alcançáveis na memorabilia de dados que é a Internet. Na
verdade, tal premissa está muito mal concretizada, sendo que só atinge a sua
plenitude quando determinados momentos da vida de Polanski encontram suporte
físico nos seus filmes, como no caso do seu pessoalíssimo O Pianista. Não deixa
de ser interessante/agonizante perceber quão reais são os eventos do referido
filme, porém, e é gerador de lágrimas percebermos o limite entre a ficção e a
simples autobiografia.
Já nos restantes filmes que compõem a obra deste autor, só
nos é dada uma ligeira contextualização do status quo de Roman Polanski na
altura do lançamento de cada um.
Outra falha que se poderá apontar a este filme passa pelo
estilo deficiente de entrevista de x, manipulando Polanski para uma realidade
bem menos agressiva dos factos, fazendo parecer que todas as dificuldades de
vida do realizador sejam uma desculpabilização do erro de Polanski, a suposta
violação de uma menor .
Para além disto, X tem também um desejo desproporcionado de
aparecer, quer seja pela quantidade de vezes que força a sua cara e expressão
nos planos, ou pela necessidade incessante de acabar as frases de Polanski.
Embora estas falhas retirem alguma validade ao filme
propriamente dito, à film memoir, a verdade é que dispõe de uma vantagem óbvia,
que é dar-nos a possibilidade de assistirmos ao discurso directo de alguém tão
interessante quanto Roman Polanski.
Este teve uma vida que, se fosse ficcional, seria com
certeza acusada de ser um melodrama exagerado, cheio de negros twists. Desde a
tocante descrição da vida no bairro judeu (sendo que bairro soa a eufemismo
suburbano para tão real segregação), com toda a luta pela sobrevivência e perda
que iriam influenciar mais tarde as suas opções de vida e, paralelamente,
influenciar a escolha de direcção artística(mormente o facto de parecer uma
redundância, há mais num homem que a sua história pessoal, como prova o seu
ecletismo no que a géneros fílmicos diz respeito), até ao assassinato da sua
esposa grávida por parte do gang de Charles Manson (exactamente o mesmo destino
que a mãe dele sofreu pelas mãos das SS, único elemento coerente na
aleatoriedade trágica da sua vida).
Temos, portanto, um detalhar de todos os infortúnios vividos
por Polanski, que acabam por se confundirem com a própria vida deste, pelo
facto desta se ter desenrolado sempre através da reacção a tragédias.
Tristemente, quando houve algum exercício de livre arbítrio, foi
consubstanciado na violação de uma menor, como já dissemos. Este acaba por ser
um momento central do filme, porque Polanski evita o assunto no que diz
respeito a motivações, preferindo focar-se na perseguição mediática a qual foi
sujeito, surgindo também na persona de vítima. E talvez seja, em parte. Mas
verdadeiramente importantes não são estas situações que irão ver a sua importância diluída no tempo. O que
acaba por ser importante é que temos aqui a dimensão humana de um realizador
responsável por grandes obras, e um homem eloquente, cândido e sentimental. Se
errou, ou se o universo errou com ele, serão só valorações que se dissiparão
com o peso da importância do que criou.
Doclisboa'12: News From Home, Chantal Akerman
Crítica por: André Guerreiro
News From Home é uma obra absolutamente pessoal de Chantal Akerman. Por mais óbvia que pareça esta afirmação, a verdade é que nunca a vemos, nem há outras personagens que a representem como medium figurado ( como, por exemplo, nos trabalhos mais recentes de Woddy Allen, em que há uma transferência da sua persona para outro actor, outra realidade)
É necessário atender ao contexto vivencial de Chantal Akerman para não confundir este filme com uma ode visual à America suburbana, qual início de Down By Law de Jim Jarmusch: Chantal, originária de Bruxelas, decide ir viver para os Estados Unidos, mais concretamente para Nova Iorque.
Como qualquer jovem que viva em saudável contacto com as autoridades parentais, Chantal recebia cartas da mãe a descrever assuntos familiares e a esgrimir as genéricas preocupações relativamente à vida da filha: Frio; fome;saúde; cabelo novo?Fica-te bem;amigos. Esta situação de temporário exílio e a manutenção de contacto com a sua anterior realidade alimentam de substrato humano o que conceptualmente é muito simples: longos planos da cidade americana entrecruzados com a leitura, em voz off, de Chantal do conteúdo das cartas da progenitora, representação ulterior de tudo o que conhecia e lhe era familiar.
O que torna este
filme tão pessoal não é apenas o facto de serem concretamente as cartas da mãe
de Chantal a serem lidas por Chantal, mas o que nos é deixado ver e ouvir ao
mesmo tempo. Este voyerismo (que parece em tempo real) de algo tão intimo como
a correspondência familiar está submergido não da glamourosa Nova Iorque, mas
sim de paisagens desoladas, naturezas mortas de uma sociedade cinzenta. Vemos,
portanto, a cidade, mas através do olhar de Chantal.
Percebemos, então, a
sinestesia existente entre o que o olhar estranho e frio (real?) de Chantal
opta captar da cidade e os sentimentos sobre ela, sabendo assim que Chantal
sofre. Sofre da quase inevitável alienação urbana e o anonimato traduzível quer
nas ruas vazias à noite quer no metro cheio de gente, onde os sons maquinais
que todos ouvem são o único elemento comum a todas estas vivências e
identidades tão dispares, que deixam de ser importantes na sua
individualidade. A própria voz da mãe e,
consequentemente, a ligação familiar, começa a perder volume e intensidade,
vergando-se perante a inevitável força negativa da distância e do meio urbano.Esta tese de estarmos a receber a própria valoração da vida de Chantal por telepatia visual com esta é confirmada no final do filme, num longo plano filmado desde um barco, que lentamente ,afastando-se da paisagem nova iorquina, demonstra o finalizar da experiência e o regresso a casa.
Doclisboa'12: Lucky Three, Lucky Three: an Elliott Smith Portrait – Jem Cohen
Crítica por: André Guerreiro
Esta lindissíma curta tem como objecto Elliott Smith e o seu
eu transplatado em canções, mais concretamente três musicas (e é aqui que
reside a referida beleza da curta) : Angeles, Between The Bars e Thirteen, tudo
clássicos, ainda que esta última tenha sido apenas editada em álbum póstumo.
Como já referido,
pouco mais acontece aqui que a beleza crua das canções, apesar de alguma
footage do artista a caminhar e a conduzir pela cidade, no clássico estilo de
Jem Cohen. Não há aqui um olhar compreensivo sobre Elliott Smith ou alguma
consideração sobre a vida deste, mas quando as músicas são tão rendilhadas de
sentimentos e profundidade emocional que palavras para além das que canta não
se tornam necessárias.Doclisboa'12: La Chambre, Chantal Akerman
Crítica por: André Guerreiro
Curta experimental (naquele sentido clássico em que não compreedemos muito bem o objectivo, se há algum, subjacente às simples imagens que vemos) de Chantal Akerman. Talvez o erro seja precisamente a procura de um significado além do encapsular de determinada realidade, embora talvez nos aborecessemos se não encontrassemos um propósito maior.
Diga-seque o nome da
curta constitui um spoiler compreensivo de toda a acção, sendo o quarto tudo o
que a camara regista, em flutuante rotação de 360º sobre o mesmo. A única acção
estranha ao elemento espaço, é o facto de Chantal se encontrar no quarto e, por
vezes, trincar uma maçã.
La Chambre, não deixando de fazer sentido
com a restante obra de Chantal Akerman no que diz respeito à percepção do
espaço e a integração do elemento humano neste, não conseguimos deixar de vê-lo
como um exercício menor.
Doclisboa'12: Hotel Monterey, Chantal Akerman
Crítica por: André Guerreiro
Por muito que os filmes de Chantal Akerman possam divergir
no enredo, e na acção objectiva que apresentam, nunca estão apartados de uma
consciência do espaço de onde se desenrolam, quase como se fossem reflexo da
vida do ser que albergam. Em Hotel
Monterey o espaço arquitéctonico não funciona como mais um elemento subtil de
interpretação psicológica de uma determinada personagem, mas sim o unico
elemento de caracterização existente, retrato de uma flutuante multidão anónima.
A solidão do simples passageiro que nunca parte porque outra figura abstracta
preenche o seu lugar, não há nomes, nem caras, no Hotel Monterey. Apenas a
construção, em tempos com certeza grandiosa, mas agora desolada e esquecida,
por mais que ainda em funcionamento. As paredes despidas e os cantos vazios
demonstram a ausência de pessoas e longas estadias; são nos sítios de passagem
encontramos alguma moldura humana. No elevador, nos quartos, onde param homens
que não se mexem, ainda que num longo plano, se revelam quase como mobília do
local : provavelmente um empregado. Mesmo Chantal (vemos apenas suas costas)
aparece e desaparece de um quarto, mesmo ela é mais uma transeunte sem cara.
Para reforçar o sentimento de isolamento metafórico, o som
está absolutamente ausente deste filme, nem sons ambiente que nos distraiam da
propositada ausência de acção. São 65 minutos de quasi-retratos Hopper-like de
um realismo urbano, consubstanciando a alienação da vida moderna americana (tal
como era objectivo de Hopper, também). A partir dos 30 minutos, a camara começa
a mover-se, e a desenhar esboços de travellings até ao que pode chamar o ponto
de fuga das imagens que apresenta, até ao climax final, a fuga do prédio e o
acesso à skyline americana.
Argumentam os detractores do filme que este não é mais que
uma aborrecida colagem de imagens sem um objectivo prático, a verdade que este,
por mais que seja marcado pela ausência de narrativa, não deixa de ter algo
para dizer. E como é belo o cinema que mesmo com o movimento que o caracteriza estando
algo ausente, consegue transmitir tantas ideias, pelo facto de escolher
objectivamente representar as naturezas mortas tal como elas são.
Doclisboa'12: Genesis Encore Cascais 75
Crítica por: André Guerreiro
Tendo como móbil a vinda dos
Genesis a Portugal em 1975, em pleno PREC, Genesis Encore Cascais 75 retrata e
contextualiza toda uma geração de jovens, e de como a liberdade paulatinamente
se iria revelando através da cultura e do acesso a esta. Diga-se desde já, que
ser fã ou não de Genesis não interessa quase nada, interessando apenas, talvez,
para partilhar o entusiasmo com os entrevistados.
Ultrapassando o problema de não existirem
gravações video do concerto (apesar das gravações piratas de audio, que nos são
aleatoriamente apresentadas durante o filme) com bem humoradas entrevistas a
clássicos do mundo da música portuguesa e afins, tais como elementos dos Xutos
e Pontapés, aparecendo como representantes das suas personas adolescentes
relembrando todo o contexto em que se inseriu tal evento.
O ponto chave deste filme é obviamente a memória. A memória na sua
acepção mais lata, de efectivamente aquelas pessoas entrevistadas se lembrarem
perfeitamente de imensos pormenores do concerto e daquele dia, tendo
sobrevivido à inevitável erosão que a selecção de memória proporciona, mesmo à
mais bela recordação. Também é invocada (naquele epílogo algo desinteressante)
a memória na sua acepção mais nobre e histórica, relativamente à necessidade de
preservar a memória como se património de um povo se tratasse. Também, reforça
a necessidade de preservar não apenas as instituições mentais, mas também as
físicas e concretas, como o Dramático de Cascais, que albergou este e tantos
outros históricos concertos, estando prestes a ser demolido.
Quer tenhamos vivido tal época, quer não, é sempre importante nunca o
esquecer um passado recente, tão contextualizador é do presente e de todo o
eventual futuro. Portanto, importante se torna ver este filme e manter tais
eventos na memória colectiva.Doclisboa'12: Tomorrow we Move, Chantal Akerman
Crítica por: André Guerreiro
Primeiramente, é importante congratular o
DocLisboa e a Cinemateca (embora esta mereça um agradecimento vitálicio pela
mera existência), pela oportunidade incrível que é a revisitação da obra
integral de tão importante cineasta como Chantal Akerman .
Embora estivessemos a referir-nos à obra integral de Chantal, nunca
pensariamos estar perante uma obra em particular que fosse tão integral quanto
esta, no que diz respeito à sua falsa digestão. Para quem apenas tinha tido o
prazer de ver Je, Tu, Il, Elle e Le Rendez-vous de Anna anteriormente a este
ciclo, filmes caracterizados por longos e introspectivos silêncios, reflectindo
alguma falta de sentido e direcção das personagens que serviam um propósito
maior, de ilustração de algum vazio existencial do ser humano e,
consequentemente, das relações que estabelecem entre si, nunca imaginaria ver
um filme deste género, uma comédia ritmada, que ameaça tornar-se em musical a
cada segundo. Embora tal nunca chegue a acontecer, e as palavras nunca cheguem
a ser cantadas, ainda imperam, e são o maior veiculo de comunicação do filme.
Para além deste inesperado choque térmico de mood fílmico, começamos
progressivamente a habituar à substituição da crueza flagrante dos anteriores filmes para uma mais
ligeira abordagem ao que podemos considerar problemas clássicos constantes da
obra de Chantal Akerman, o isolamento do ser humano, quer face à plasticidade
das relações, quer em relação ao isolamento como uma necessidade, para a
prossecução de um determinado objectivo artístico.
Objectivamente, temos a história
de uma mulher-Catherine – que, na direcção inversa à uterina, muda-se para o
duplex da filha Charlotte, devido à morte do marido. Consigo traz uma
quantidade desproporcionada de bagagem, quer física quer emocional (sendo que a
mala com que não dispensa dormir, repleta de antigos bens domésticos do marido,
como cuecas e maquina de barbear, transformadas em preciosas memórias pelo
toque de midas mental no sobrevivo que a morte constitui, representa bem a
união destas duas dimensões), que desorganiza a vida da filha. Quando o que a
filha mais precisa é uma reclusão artística, por não estar a conseguir escrever
o livro erótico que lhe está encomendado. Por mais que procure no mundo que a
rodeia o erotismo que lhe falta na criação mental, a mãe é uma das únicas
fontes que rejeita, pelo facto na hierarquia feminina que definiu tacitamente
para ela, surgir primeiro mãe antes que
mulher de plenos direitos. Esta
demonstração da sexualidade latente ser corolário óbvio de ser humano (isto já
seria obvio pela nossa existência ser um extravasar dessa sexualidade latente,
pondo a questão em eufemismos crípticos), surge logo na primeira cena do filme:
ouvimos Catherine, desde fora de plano, a dar instruções relativamente ao
transporte do piano para a sua nova casa, em tom ansioso.Quando a transladação
se dá de forma bem sucedida altera-se o registo da voz, e a mudança para
pequenos gritos de excitação combinada com os picos do sismógrafo respiratório
dão origem a uma não-tão-subtil-assim analogia com um orgasmo.
A diferença entre fuso horário de vida e necessidades entre as duas
mulheres gera uma outra necessidade em Charlotte: a da mudança. Tal
predisposição encontra uma real oportunidade prática quando esta conhece
Popernick, agente imobiliário. Como eventualmente se torna óbvio, este é outros
pontos absolutamente essenciais do filme (e tematicamente, como já referido, do
cinema de Chantal): a mudança, o acto de procura de uma casa representam
figuradamente o sentimento de exílio permanente, e a importante correlação
entre o local de habitação e a identidade pessoal e cultural do sujeito. Tais
realidades são evidenciadas em vários momentos centrais do filme, tais como o
da descoberta de um apartamento decente para Charlotte viver, mas que devido à
desinfecção que foi alvo, emana um cheiro que despoleta recordações das camaras
de gás dos campos de concentração em Popernick, sobrevivente do Holocausto.
Outro importante exemplo dá-se quando Cathrine e Charlotte tentam vender o
duplex e surgem todo o tipo de casais, que representam o positivo e negativo
das relações permanentes, tal como representam o facto da mudança de casa
significa uma alteração das circunstâncias de vida e do relacionamento (Why put
a new adress on the same old loneliness?, cantam os Songs:Ohia, e adequa-se
perfeitamente, embora não estando na banda sonora do filme). Todas estas
pessoas e relações são alegorias, mas complexas e reais, ao ponto de não
parecerem carregar o peso do estereótipo fácil normalmente associado à comum
alegoria. Desde o casal que em nada concorda mas que tem medo de existências
não compartilhadas; a uma mulher grávida infeliz com a sua situação e com o seu
overly-sexual marido; ao casal absolutamente neurótico que julga
milimetricamente todos os elementos da casa, e imagina-se, cita leis e
regulamentos. Engraçado se torna quando todas estas figuras se juntam e tentam
cumprir a normalidade social.
Com todas estas camadas de alguma infelicidade doméstica, dos seus
apêndices relacionamentais e da sua indissociável habitação, alguns padrões de
felicidade e mudança de sorte aparecem também. Porque, tal como a casa, talvez
amanhã encontremos algo melhor, talvez amanhã possamos ser felizes, onde quer
que seja.
Cineclube FDUP no Doclisboa'12
O Cineclube FDUP marcou presença no Doclisboa'12 e aqui está o resultado: sete críticas bem fresquinhas, escritas por André Guerreiro.
Se também foste, envia-nos as tuas críticas, comenta, expressa-te! Caso ainda não tenha sido desta que marcaste presença no festival, esperamos pelo menos deixar-te com água na boca.
PASSATEMPO LEFFEST
Temos vencedores!
Ao passatempo lançado pelo Cineclube FDUP no passado domingo a resposta seria Monte Hellman. Assim, deixo aqui a lista de vencedores dos bilhetes oferecidos para o Lisbon and Estoril Film Festival.
Tânia Alexandra Leal da Silva Dias
Jorge Manuel da Silva Morais
Ana Isabel Macedo Falcão Fernandes
Rui Humberto Elisabeth Viegas
Bons filmes e bom festival!
segunda-feira, novembro 12, 2012
O SABOR DA CEREJA
Design: Teresa Chow
É já esta 3ª feira, dia 13 de Novembro, que o melhor cinema da UP regressa à sala 0.01 (piso do bar), da Faculdade de Direito, com O SABOR DA CEREJA(1997), de Abbas Kiarostami, Irão.
A sessão tem início às 18h15.
Não percas, até lá!
domingo, novembro 11, 2012
Quem quer ir ao LEFFEST?
O Cineclube FDUP associa-se ao Lisbon and Estoril Film Festival (LEFFEST), tendo 4 bilhetes para oferecer. Aos primeiros a responderem à pergunta "Qual o realizador a ser homenageado hoje - domingo, 11 de Nov. - no LEFFEST?", para o email do Cineclube FDUP será atribuído um bilhete individual para o Festival. A resposta deverá ser acompanhada do nome completo.
Estes bilhetes destinam-se às seguintes sessões:
2 bilhetes individuais para Low Tide, Roberto Minervini, sexta 16 de Novembro, às 19h
2 bilhetes individuais para Rengaine, de Rachid Djaidani, sexta 16 de Novembro, às 22h.
Participa!
quarta-feira, outubro 31, 2012
Vai ao Lisbon and Estoril Film Festival com o Cineclube FDUP
O Cineclube FDUP associa-se ao Lisbon and Estoril Film Festival, realizando um passatempo no blog e no facebook, através do qual poderás ganhar bilhetes diários para o festival. Fica atento, o passatempo será lançado em breve, mal o cartaz esteja fechado!
"A 6ª edição do Lisbon & Estoril Film Festival vai decorrer este ano entre 9 e 18 de Novembro.
À semelhança das edições anteriores, o Lisbon & Estoril Film Festival pretende ser um ponto de encontro entre o público, realizadores, conceituadas personalidades do mundo das artes e um palco permanente de discussão, reflexão, debate e acima de tudo, um espaço onde se descubra ou redescubra a Arte Cinematográfica.
Entre 9 e 18 de Novembro vamos trazer a Lisboa e Cascais: Galas, Filmes, Exposições, Concertos, Performances, Masterclasses, Leituras e um Simpósio Internacional, tendo já confirmadas as presenças de reconhecidos atores, realizadores, artistas, estilistas."
Até breve!
segunda-feira, outubro 29, 2012
Alteração da programação: Meet John Doe, Frank Capra
Infelizmente, por razões logísticas iremos alterar novamente a programação. Ao contrário do que é habitual, passaremos um filme que não consta da programação geral do Cineclube FDUP para este semestre.
Neste sentido, dia 30 de Out., pelas 18h15, na sala 0.01 o Cineclube FDUP apresenta Meet John Doe, um filme de Frank Capra, 1941, EUA.
Novamente apresentamos as nossas desculpas pela alteração inesperada do filme, esperando que tal não impeça a vossa presença.
Até terça e bom filme!
domingo, outubro 28, 2012
30 Out.: "O SANGUE"
Design: Teresa Chow
Esta terça-feira, dia 30 Out., o Cineclube FDUP exibe, pelas 18h15, na sala 0.01 (piso do bar), O SANGUE, primeira obra de Pedro Costa, e filme-referência da geração de realizadores portugueses emergente nos anos 80 (além de Costa, João Canijo, João Botelho, Teresa Villaverde), que bebeu, em parte, os ensinamentos e a linguagem do "Cinema Novo" dos anos 60 (César Monteiro, Paulo Rocha, Fernando Lopes).
Ao contrário do que consta do cartaz, não passaremos, por razões logísticas, "Sombras dos Antepassados Esquecidos", cuja exibição fica, assim, adiada para dia 27 de Novembro. Por esse motivo, os Cineclube pede, desde já, as suas desculpas.
Até terça!
quinta-feira, outubro 18, 2012
doclisboa 2012
De 18 a 28 de Outubro, a 10ª edição do doclisboa 2012 volta a trazer o melhor do documentário mundial a Lisboa, com filmes, conferências, debates, masterclass, workshop e uma valiosa retrospectiva da obra de Chantal Akerman. Mais info. no sítio oficial: http://www.doclisboa.org/2012/
O Cineclube FDUP marcará presença e convida todos os seus associados e simpatizantes a fazer o mesmo!
Bons filmes!
domingo, outubro 14, 2012
16 de Outubro no Cineclube FDUP: "CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE"
Design: Teresa Chow
Esta Terça-Feira, dia 16 de Outubro, pelas 18:15, na sala 0.01, o Cineclube FDUP apresenta CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE, um filme de Nagisa Ôshima, 1960, Japão.
A entrada é gratuita, aparece!
segunda-feira, outubro 08, 2012
Crítica "F, de Fraude"
Aqui fica a crítica a F, DE FRAUDE (Orson Welles, 1972), pelo André Guerreiro.
Orson Welles catalogou o filme F For Fake de “a new kind of film”, e
podemos perceber porquê, quando tentamos cometer o perigoso acto de tentar
rotular de forma padrão este filme. Podemos atender ao facto de cada apropriação
da realidade na forma de celuloide ser um tipo de mentira, que a própria
essência do cinema é ser uma ilusão de realidade, por mais que se tente
aproximar desse absoluto. Ser mais que um afloramento artificial de uma
realidade que não pode ser encapsulada porque limitada a um tempo próprio,
apenas podendo ser reinventada, reinterpretada pelo indivíduo, com todo o
esbatimento e valoração que a percepção de cada um selecciona. E é exactamente
por esse facto, pelo facto da realidade
se tornar apenas arrogante sinónimo de percepção individual quando atinente à
valoração de algo tão indeterminado como a arte, dificilmente chamaremos a F
For Fake um documentário. Pela forma livre como desconstrói o que
essencialmente podemos chamar de todo um grande truque de magia, porque combina
elementos verdadeiros (como será a carne dos participantes e os supostos factos
reais, por na consciência colectiva serem dados como provados) e ficção,
ilusão, mentiras, a manipulação de tudo o que vemos, mesmo desses factos
verdadeiros. E é assim mesmo que começa o filme. Orson Welles, actor na pele de
um mágico, diringindo-se a uma criança (que poderá simbolizar a clássica
ingenuidade do espectador permeável a qualquer mentira que lhe possam impingir
quando exposta num determinado formato artístico) demonstra o seu poder de
transformar a realidade, na forma de uma chave que dá lugar a uma moeda,
voltando a ser uma chave. Todo o tipo de metáforas poderiam ser diagnosticadas
nesta pequena introdução, embora Orson Welles nos diga que a “chave não é um símbolo”.
A chave, que mereceu tanto ênfase, e que tanto focamos a nossa atenção, embora
distraídos pelos sucessivos cortes e mudanças de planos, demonstra-nos
exactamente a exagerada tendência de imbuir simbologia num mero objecto, que
pensamos representar algo mais que a sua simples existência objectiva. Tal
processo de preencher um vazio com um exagero de significado, e a facilidade
com que a nossa percepção é conduzida por uma outra visão, sem questionar, é
importante para as questões que mais tarde serão colocadas em relação à arte, e
à sua validade e seu mercado, que são controlados também pela visão de inquestionável
autoridade, na figura dos experts. Em ultima análise, ocorre o mesmo com o
cinema, pois a edição, mecanismo consubstanciado nos rápidos e fluidos cortes que
funcionam como um mosaico onde as peças apenas são unidas pela volátil
argamassa da realidade, funcionam como um truque de magia. A nossa visão e
posterior entendimento são manipulados, sendo-nos permitido apenas uma visão
parcial do que está a acontecer/aconteceu realmente. Na cena inicial, vemos o
truque de magia na sua forma perfeita, tal como mais tarde veremos os factos
que formam a história propriamente dita, mas Welles permite-nos ver a moldura
dessa realidade: a camara, a equipa de produção, as luzes, a tela branca. O
próprio cinema é um truque, mas os objectos e os factos não deixam de existir,
tal como a chave não perdeu a sua materialidade.
Embora todas estas questões sejam imediatamente visíveis nos primeiros
minutos de filme, a principal camada cutânea deste camaleónico filme em termos
de guião é o documentar da vida de o provavelmente maior falsificador de arte
do século XX, Elmyr de
Hory (sendo este apelido também camaleónico, se entendermos a justiça e a
polícia como o predador). Elmyr,
emigrante hungaro ficou conhecido por forjar na perfeição quadros de mestres
como Picasso, Matisse, ou Modigliani, nunca tendo sido reconhecido nos
trabalhos em que assina o próprio nome. Talentoso ao ponto de conseguir
passar-se por uma miríade de artistas dignos de eterno reconhecimento, mas
nunca reconhecido como um artista de direito próprio. Pode Elmyr ser
considerado um artista? A noção de artista e a de nome e reconhecimento do
mesmo parecem ser indissociáveis. Esta questão dá origem ao momento mais
pungente e honesto do filme, em que Welles reflecte quase como se suspirasse e
a sua própria voz, antes teatral e forte, se vergasse perante a realização do
poder do homem de transcender a sua finitude. E que esta intemporalidade da
obra não perde significado por não ser acompanhada pela herança de um nome. “Maybe
a man’s name doesn’t matter all that much”, quando a arte constitui mais a
prova da grandeza do Homem que de um homem em particular, quando o detalhe
desaparece e só existirem ecos do que um dia será, inevitavelmente, um passado
distante.
Tal como o nome dos trabalhadores da catedral nunca será lembrado,
quando a memória e nome do falsificador desaparecer, o seu legado continuará a
existir. Mesmo que não tenha o seu nome, o real engolirá
o que outrora foi mentira e fraude, e um Modigliani de Elmyr será apenas um
Modigliani.Nunca deixando de ser Elmyr, mas de tal ninguém saberá, como se de
um truque que o mágico nunca revelou se tratasse. A fraude e a mentira só o
serão se detectadas, e é tão fácil enganar quem está habituado a ter razão
(como o espectador que não questiona, e o expert que não se concede a falhar),
como provam os minutos finais do filme. A questão torna-se, então: Essa simples
detecção provoca o retirar da obra do pedastal do que lícito ser arte?
sexta-feira, outubro 05, 2012
10 Out: "A nossa forma de vida", no Passos Manuel
Dia 10 de Outubro, quarta-feira, a Milímetro faz a sua rentrée com A nossa forma de vida (2011), de Pedro Filipe Marques, filme vencedor do prémio Melhor Primeira Obra no doclisboa 2011. Desfaçam as dúvidas que ainda possam ter sobre ir depois de verem o trailer abaixo.
Às 22h, no Passos Manuel.
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