Este poderia ser eu, abismado, depois de ver The Killing (1956, "Roubo no Hipódromo", na tradução portuguesa), de Stanley Kubrick, que hoje passou no ciclo de cinema Invicta Filmes.
Arriscaria dizer ser este um filme perfeito (sim, com as letrinhas todas), do ponto de vista técnico e narrativo. Sem mácula e empolgante do princípio ao fim.
Wild Orchid (1989), de Zalman King, é um filme de que gosto muito. É vulgarmente apontado como filme erótico. Eu partilho desta opinião. Mas o mesmo já não acontece quando o vejo referido como um filme tão-somente erótico. Muito resumidamente, o enredo gira em torno de Claudia Dennis, um jovem advogada americana que na sua vida profissional conhece e passa a relacionar-se com James Wheeler, um amigo da sua chefe de trabalho que lhe vai virar a cabeça do avesso. Orquídea Selvagem (em português) é um filme cujo erotismo está fora do cliché meramente sexual (daí a crítica ao mero erotismo). É uma carga brutal de sensualismo, tentação e paixão. Há muito de redentor na personagem de Claudia Dennis (intepretada pela belíssima Jacqueline Bisset). Já não me lembro se a personagem era ou não virgem, mas a verdade é que o Sexo surge em toda a película, aos olhos de Claudia, como algo que, não deixando de ser híbrido, confuso e perturbador, tem também o seu quê de libertação e salvação [embora isto não seja propriamente uma novidade... :)]. Esta ideia surge, a meu ver, bem expressa no clip que abaixo deixo. É quando Claudia está numa viagem de negócios no Rio de Janeiro. Há todo um desejo, uma carnalidade, um desejo tempestuoso em cada gesto e em cada expressão. O castanho da pele, as cores, as roupas, a música. É uma linguagem desconhecida e perturbadora para uma jovem ameriana tímida e, claro está, inocente. E depois há... Mickey Rourke. O sex-symbol, o matador, o galã... que é impotente. Tal e qual. É ele que veste a personagem de James Wheeler, homem que aos olhos de Claudia encarna a Tentação e o Mistério em pessoa. Mesmo para o espectador que está de fora - não obstante poder parecer a certa altura foleiro tanto charme - é impressionante o quão poderoso é cada gesto de James, sempre muito vagaroso e meloso nas palavras e seguro nos gestos. Por vezes até nos parece que está a zombar de alguma personagem romântica mítica, tamanha é a confiança e a subtileza da linguagem (oral e corporal, como disse). Se virmos o argumento, tecnicamente falando, apenas como a plot, então Wild Orchid é fraco. Não há grandes surpresas na história nem desvios de relevo nas personagens - mesmo Claudia vai manter o seu nebuloso puritanismo até ao fim da película. Agora se virmos um argumento, e para o caso é como eu vejo, como um conjunto ascético de sensações que pretende, não dar respostas, mas sugerir descomprometidamente Sexo e Sensualidade, então este Wild Orchid é um esboço de linhas finas (e tortas, também) da intemporal atracção e desejo entre corpos. Última nota para a banda sonora. O visual é acompanhado imaculadamente por uma sonoridade magnífica, a fazer jus ao espiritualismo e mistério de todo o filme. Destaque então para Geronimo (OXOSSI, música principal), Nana Vasconcelos, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Underworld.
Muito mais haveria a dizer, mas acontece que vi o filme faz já algum tempo. Resta esse portentoso carnaval brasileiro e uma outra cena entre as duas personagens princpais.
Terças-feiras, pelas 18h15, na sala 0.01 da FDUP. A entrada é gratuita.
FAÇAM-SE SÓCIOS DO CINECLUBE
Com uma singela contribuição anual (2 euros), ajudem o Cineclube na aquisição de filmes (para exibição nas sessões e requisição na DVDteca) e na realização de eventos!
Para o efeito, enviem email para cineclubefdup@gmail.com dando conta da intenção em tornarem-se sócios e nós enviaremos a ficha de inscrição.
DVDTECA CINECLUBE FDUP - CATÁLOGO
Consulta aqui o catálogo dos filmes disponíveis para requisição gratuita na Biblioteca da FDUP (clicar na imagem)
"Coimbra, 6/III/1933 Estoirei-me hoje de um carro eléctrico abaixo por causa de um filme do Charlot. Ia morrendo, ou pelo menos ficando sem um braço. Mas o filme mereceu o fato inutilizado e merecia também o braço a menos."