É que depois de vermos Le Concert (2009, de Radu Mihaileanu) - exibido no passado domingo no âmbito da 11ª Festa do Cinema Francês - os russos não ficam naaada bem na fotografia...
(mas também não ficam bem na fotografia os comunistas, os judeus, os ciganos, os franceses, os artistas, os magnatas do petróleo, ...)
Ah!, o filme conta ainda com a presença dessa beldade chamada Mélanie Laurent (que ainda há pouco tempo víramos no Inglourious Basterds de Tarantino):
A l'origine (2009), filme de Xavier Giannoli baseado numa história verídica e que passou na quinta-feira no Passos Manuel, no âmbito da 11ª Festa do Cinema Francês, com um enorme François Cluzet no papel principal.
ATENÇÃO: Eventuais spoilers.
Mais do que um filme, este é um autêntico ensaio sobre os amargurados tempos que as sociedades capitalistas ocidentais atravessam no presente, com tudo o que isso implica: não só o sufoco económico propriamente dito, mas também as suas implicações no agir humano, na deturpação e reconstrução de novos sonhos e utopias para alguns - no caso, a construção de um troço de auto-estrada rumo a direcção nenhuma, projecto que se inicia com um conjunto feliz de coincidências a que Phillipe Miller (François Cluz) é relativamente alheio (as coisas vão acontecendo à sua volta, sem que ele faça muito por isso), mas que acaba por se tornar num megalómano e surrealista (a cena em que o director da empresa CJI lhe pergunta para onde afinal se dirige a auto-estrada é excelente) projecto pessoal que ele quer ver materializado a todo o custo, mesmo que isso acarrete actos moralmente censuráveis. Embora Miller, e é isto que faz dele uma personagem complexa e interessante, não seja linearmente classificável como um "tipo mau"; pelo contrário, ele revela em muitas situações solidariedade e compaixão (a forma como se preocupa com Monika e Nicolas) e controlo emocional (quando não se deixa levar à primeira pelo encanto de Stéphane e diz para si próprio, aterrado, "tudo isto é falso"). O que, novamente, é contrabalançado pela questão de fundo: Miller é um burlão que está a enganar uma terra inteira.
No fundo, é esse sonho, desde o início condenado ao fracasso e ao nonsense - e nisso reside o cariz trágico omnipresente do filme - que lhe reanima o espírito e o volta a fazer viver os dias com alegria - "Nunca tinha tido vontade de ficar tanto tempo no mesmo sítio", diz ele a Stéphane (a bela Emmanuelle Devos). Miller vai assim acabando por se convencer, irracionalmente, de uma fantasia, de uma ilusão, de que ele é o grande artífice. E é nesta "Grande Ilusão" de Miller que ganha sentido o paralelismo estabelecido por um crítico (visível no livrinho do festival) entre o filme e o Cinema: tal como um realizador, e especialmente no caso de estarmos a falar de um realizador-autor, Miller está a construir uma ilusão contra todas as adversidades do establishment político, económico e cultural. O que move ambos? Paixão, coragem, fantasia, irreverência, enfim, a sensação de estar a mexer com as pessoas - em Miller a população local, no Realizador os espectadores).
Em tantas outras circunstâncias, é disto que as pessoas vivem, sobretudo nos tempos mais difíceis: pequenas metas e ambições pessoais que impõem a si mesmas como estimulantes para cada novo dia. "Pequenas", disse eu; a de Phillipe Miller tinha alguns kilómetros... A cena final, onde os carros da polícia se dirigem a Miller, ironicamente, pela estrada que ele próprio projectou e concretizou, e onde este crava uma esfarrapada bandeira num pequeno monte, é profundamente comovente e só ao alcance dos mais sábios. A alusão metafórica ao "espetar da bandeira" e às conquistas da humanidade (no Everest, na Lua, etc.) constitui assim uma questão de escala: o confronto entre as pequenas conquistas de uns (anónimos, solitários, como Miller) e as grandes conquistas de outros (famosos, mediáticos). No fundo, as conquistas de uns são tão meritórias como as de outros. Uns e outros partilham da mesma quimera: superarem-se e serem mais felizes. É tudo uma questão de escala...
Terças-feiras, pelas 18h15, na sala 0.01 da FDUP. A entrada é gratuita.
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"Coimbra, 6/III/1933 Estoirei-me hoje de um carro eléctrico abaixo por causa de um filme do Charlot. Ia morrendo, ou pelo menos ficando sem um braço. Mas o filme mereceu o fato inutilizado e merecia também o braço a menos."